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1.3 Os Estudos Culturais

1.3.2 Homi Bhabha e o discurso anti-colonialista

Homi Bhabha (2013, pp. 20, 21), em O Local da Cultura, esclarece que as minorias historicamente destituídas de poder ocupam os “entre-lugares” e estão em um processo complexo de busca por legitimação e reconhecimento de seu valor enquanto grupos sociais. Essa aceitação não é uma tarefa fácil de ser vencida, uma vez que depende de uma negociação

constante na tentativa de ter seu papel, enquanto componente cultural, valorizado. Na atualidade, as culturas estão em constante contato, misturando-se, modificando-se e, nas palavras do autor, hibridizando-se, cabendo a nós, enquanto cidadãos pós-modernos, adaptarmo-nos a fim de melhor conviver com as diferenças.

O cenário mundial contemporâneo evidencia o intercâmbio constante de migrantes, motivados por guerras, fome ou melhores condições de vida. As narrativas dessas personagens da vida real, que vivem como estrangeiras e precisam adaptar-se a realidades de países diversos do seu – ou ainda as vivências dos índios que lutam por condições de respeito e igualdade dentro de seu próprio país – estão profundamente inseridas nos grandes debates atuais e é essa questão que merece conquistar seu espaço dentro e fora da academia.

O filósofo Bhabha (2013) fortalece o argumento de que as relações pós-coloniais de exploração, violência e inferiorização vividas pelas sociedades “colonizadas” são memórias vivas de um período que o ocidente gostaria de esquecer, porque trazem os ecos de práticas de escravização que não se encaixam no novo cenário mundial. Entretanto, o autor salienta que as narrativas dos povos oprimidos precisam ser divulgadas e debatidas, o silêncio acerca das situações aviltantes experimentadas pelas sociedades colonizadas precisa ser combatido e a publicação de suas narrativas de resistência representa um estímulo para todos que experimentam situação semelhante.

Com seu livro, o crítico indiano (Bhabha, 2013, p. 329) endossa o pensamento de Fanon (1968) sobre a relevância de oportunizar aos povos subjugados condições de celebrar seus costumes e tradições, bem como de propalar suas narrativas ancestrais, porém faz-se necessário evitar o fetichismo e a criação de estereótipos relacionados às práticas culturais diversas das que são realizadaspela maioria da população, pois do contrário corremos o risco de fortalecer a ideia de cultura como algo homogêneo. Cabe salientar também que no contexto de hibridismo cultural que estamos vivendo, tanto oprimidos quanto opressores foram influenciados culturalmente no momento em que travaram contato.

Um ponto crucial é a importância da arte como veículo de denúncia das práticas abusivas de poder destacado por Bhabha (2013, p. 109), que chama atenção para as possibilidades que o cinema oferece hoje, enquanto linguagem acessível ao grande público, ao apresentar outra

versão de fatos cristalizados no imaginário. Como exemplo apontaríamos o “descobrimento” do Brasil. Segundo o autor, utilizar as práticas culturais como forma de protesto e desmascaramento de injustiças é um meio eficaz de conseguir a visibilidade da sociedade. A literatura tem importância capital como difusora dos discursos dos povos colonizados, uma vez que ela foi utilizada pelos opressores como veículo de propaganda de ideologias racistas, machistas e heterossexuais, e esse momento sugere uma mudança de perspectiva. Nesse contexto, as narrativas oriundas de escritores ameríndios brasileiros têm sido essencial na divulgação e consequente valorização de sua cultura. Nossa pesquisa acredita no valor do texto literário como meio de amenização do preconceito.

Bhabha (2013) também reforça o papel da crítica na tarefa de discutir os pontos de contato e o hibridismo social contemporâneo, pois não podemos falar em culturas dicotômicas e isoladas. Os pontos de interseção são evidentes e as influências de uma sociedade na outra têm sido bastante discutidos na academia. A valorização de um discurso que privilegie o heterogêneo (o outro, o índio) é um passo importante no sentido de abraçar as diferenças e abolir o preconceito.

O autor reitera a importância da teoria como evento discursivo de mediação entre visões antagônicas, a exemplo da impossibilidade de aplicação dos saberes teóricos na práxis política. Esse ponto de vista deixa claro que o autor indiano visualiza o saber crítico como atuante na esfera social, não se limitando aos discursos e debates acadêmicos, visto que em um momento como o nosso, no qual as minorias buscam reconhecimento e valorização de suas influências na formação cultural das nações, é essencial conscientizar criticamente o público em geral, para que através dessa reflexão possamos atenuar os preconceitos de toda ordem experimentados por aqueles vistos como diferentes.

Sobre política, Bhabha (2013, p. 100) reforça a seriedade com que o tema deve ser tratado, pois sabemos que não há um sistema político vigente que não apresente falhas, e que todos os grupos/organizações governamentais defendem seus próprios interesses. Entretanto, o debate é salutar no sentido de proporcionar aos cidadãos de modo geral uma oportunidade de racionalizar suas opções políticas e também se mobilizar para modificar as situações que não

estão adequadas às necessidades da maioria, pois enquanto o pensamento de que “política não se discute” continuar imperando, estaremos sempre à mercê de governos inescrupulosos. O discurso usado a serviço da opressão é reforçado por Bhabha (2013, p. 117), ao conferir ao estereótipo a função de cristalizador de visões negativas sobre etnias. Ele cita o imaginário criado em torno dos africanos acerca de sua liberdade sexual, um padrão extremamente próximo ao que foi (e é) atrelado às mulatas brasileiras, que são vistas como objetos sexuais no imaginário de muitos estrangeiros (Eni Puccinelli Orlandi, 2008). A arbitrariedade desse tipo de discurso vinculado pela política colonial é destacada pelo fato de não haver nenhuma prova científica que advogue a favor desse tipo de rótulo.

Sobre o discurso colonial e suas estratégias de dominação, Bhabha comenta a engenhosidade da manipulação dos aparelhos ideológicos, no sentido de veicular ideias de superioridade do colonizador, e da necessidade de manter em separado os bens culturais que seriam consumidos por colonizados e colonizadores. No Brasil, temos exemplos da influência da mídia como intensificadora de opiniões errôneas acerca dos povos indígenas, não divulgando as lutas para manter seus territórios e incentivando ideias de que os índios são hoje capitalistas ou aculturados.

For fim, o filósofo indiano esclarece sua esperança (que ele chama de crença) no futuro: não é necessário apenas mudar a forma como contamos a história, mas também transformar nossa percepção sobre o significado da vida – uma existência que pode se dar nos mais variados locais do globo. Pensar no que significa ser cidadão dentro das mais diversas culturas nos tornará mais empáticos com aquele que nos é estranho, diferente ou estrangeiro. E, a partir dessa empatia, transformar-nos-emos em pessoas melhores.

Capítulo 2 - Reflexões sobre a origem do preconceito no