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2 HOMICÍDIOS DE JOVENS NEGROS: DAS ESTATÍSTICAS À MILITÂNCIA DE

2.3 Como falar da violência e dos homicídios?

2.3.1 Homicídios e movimento negro: do MNU ao ENJUNE

Mesmo que seja o conceito de genocídio que considere a produção das desigualdades ou a falta de direitos, essa discussão é algo que merece muita atenção nesta pesquisa. Procurei, então, saber quando o termo genocídio entrou na pauta do MNU, por intermédio de diálogos com dois dos “mais velhos”, nos quais foi possível apreender tensões sobre a tematização da violência/homicídio/extermínio/genocídio.

Para que falar do surgimento do termo genocídio como parte da agenda do MNU, o entrevistado Reginaldo Bispo fez a relação com a violência policial. Outro aspecto interessante é a correlação entre as estatísticas de violência com a informação das vítimas por cor.

A questão da violência policial, até os anos 1990, era uma bandeira exclusivamente do MNU. Do meio pro final dos anos 1990, o MNU é ainda o detentor quase exclusivo – do tema da violência – porque há uma revoada da militância para a militância partidária, e essa questão nem é tratada ali. Eu acho que... Me parece... Eu preciso ver os documentos da época... Que a gente começa a falar do extermínio ali por 1991, quando a gente tem as primeiras estatísticas de vítimas fatais da polícia por cor. Mas “genocídio”... Eu acho que a primeira vez que a gente usa a expressão genocídio... E, olha, que depois que a gente começa a identificar a questão da matança – que é a que salta aos olhos – é que a gente começa a buscar o significado mais completo de genocídio e a gente vê que genocídio não é só isso. E isso e um monte de outras coisas mais... Mas primeira vez que a gente usou isso para configurar matança indiscriminada de negros, eu acho que foi no congresso do MNU em Lauro de Freitas, em 2006. Hamilton [Borges] diz que eles já usaram o “genocídio” para a preparação do ENJUNE. (Reginaldo Bispo, entrevista cecida em 7 de abr. de 2014)

Embora fosse um tema candente para sua organização, a violência foi apenas tematizada como genocídio com a organização do Encontro Nacional de Juventude Negra, que ocorreu em 2007, mas que teve seu processo de organização ao longo dos anos de 2005 e 2006 (cabe ressaltar que em 2007 o I ENJUNE ocorreu na mesma cidade baiana que o congresso do MNU, no qual o genocídio entrou na pauta).

78 Paulo, a pauta da violência foi sendo abandonada paulatinamente, sendo que mesmo o debate sobre o sistema carcerário foi deixado para trás. “Eu tinha uma disputa travada no MNU, sobre discutir com os presos, fazer trabalho nas cadeias, mas fui derrotado nesse debate” (entrevista concedida em maio 2014).

Um dos entrevistados considerados “mais velhos”, Flávio Jorge, dirigente da CONEN, reconheceu que pouco se debate sobre violência policial e racismo, mas que o tema já foi mais recorrente, no início da década de 1980. A seguir está um panfleto fornecido por Flávio, membro do movimento negro e da igreja católica e do subscrevente Grupo Negro da PUC, que fazia a divulgação de um debate que relacionava a violência policial à questão racial, com debatedores da área do direito, oficias da Polícia Militar de São Paulo. O evento era promovido pelo Grupo Negro da PUC, em 1984, em plena ditadura militar.

Figura 2 – Panfleto do evento “Violência urbana e questão racial”

Fonte: Acervo de Flávio Jorge.

Para Suelaine Carneiro, da ONG Geledés, o problema da violência letal se inicia com a Lei da Vadiagem, em de 14 de maio de 1888:

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Foi quando a polícia recebeu a autorização para prender e matar jovens negros. E era o jovem negro, que eram os desempregados, porque as mulheres negras tinham o trabalho doméstico e os homens ficaram sem nada [após a abolição] (entrevista cedida em 25 jul. 2013).

Ela faz menção ao problema das chacinas do fim da década de 1980 e início da de1990, com a atuação do CEAP na Campanha “Não matem nossas crianças”; ela indica que a matança varia de vítimas de acordo com o contingente populacional mais numeroso de acordo com o momento histórico, se hoje são jovens, anteriormente foram as crianças

No início dos anos 1980, ela já trazia a denúncia do extermínio de crianças negras. E é neste mesmo período que o Geledés fez este livrinho que eu tô falando. Depois eu tento recuperar este documento que eu tô falando pra você.

[A morte de crianças se dava por meio de chacinas?] A chacina da candelária...

(entrevista cedida em 25 jul. 2013).

A menção às chacinas é repetida em entrevista com Edson França e em documentos da CONEN de 1991, também quando da sua criação.

O assassinato de crianças e adolescentes de rua foi denunciado pela Anistia Internacional em diversos países do mundo. O Brasil mereceu a visita do representante da anistia, o advogado Bacre Ndiaye. Na ocasião, a entidade lançou um dossiê de denúncias de violências praticadas contra crianças e adolescentes de rua. Segundo dados divulgados na revista lançada pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), o perfil das crianças e adolescentes é: “Brasileiro, idade entre 15 e 17 anos, não brancos e assassinados por projétil de arma de fogo. Mais dados recentes indicam que 70% pertencem são pardas e negras, 70% são nascidas em favelas, 70% pertencem ou pertenciam á família com renda per – capta inferior a 1 salário mínimo (Convocatória para o I Encontro Nacional de Entidades Negras).

Para Edson França, a violência contra setores da população negra também variou ao longo do tempo. Ele lembrou que a UNEGRO teve o problema da violência contra essas chacinas como mote do seu surgimento, em 1988:

Na maioria dos movimentos sociais negros, a violência foi o que mobilizou. O MNU foi o assassinato do Robson. A UNEGRO surge com a pauta da repressão policial e dos grupos de extermínio, em 1988, a pauta da violência e a pauta antineoliberal foi importante para nós. Tanto que no I ENEN o tema extermínio programado da juventude negra foi um momento meio que era o grande acordo que tinha [em torno dos grupos de extermínio] (entrevista cedida em 18 jun. 2014).

80 Este processo de violência e “extermínio programado da juventude negra” deita raízes em uma política que articula dimensões de classe e de gênero para controle de populações pauperizadas, como evidencia a convocatória para o ENEN de 1991.

Esterilização em Massa de Mulheres Negras e Pobres: a esterilização de mulheres ganhou as páginas dos jornais com a divulgação de que o Brasil é um dos campeões da esterilização, mobilizou entidades feministas, do movimento popular e do movimento negro. Em grande parte, são as mulheres negras as mais atingidas. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNAD), a esterilização é o método contraceptivo mais usado no Brasil (44%), acima da pílula anticoncepcional (41%). Em países desenvolvidos, a média oscila entre 8% e 15%. A PNAD localiza onde a utilização desse método anticonceptivo influi no tamanho das famílias: nas regiões Norte/Nordeste houve redução da família. Não é por coincidência que estas são as regiões de maior contingente de população negra. Tais dados têm sido detalhados por entidade de mulheres negras (Geledés – Instituto da Mulher Negra, Programa de Mulheres – CEAP) e por organizações específicas de mulheres negras (Coordenação do II Encontro Nacional de Mulheres Negras).

Idade, classe, gênero e raça articulados de modo complexo. Edson reforça isto na entrevista cedida:

As propostas para atacar o problema [da explosão demográfica nos países do Terceiro Mundo] era o controle de natalidade. E se dava de várias formas. Uma delas é o incentivo ao movimento feminista, porque você emancipa a mulher e ela tem menos filhos... Parece mentira, né? Capacitação, escolaridade... até a esterilização pura e simples... e repressão.

E o movimento também tinha o trabalho de “Não mate nossas crianças”, várias entidades no movimento negro entraram na luta pelo Estatuto da Criança e do Adolescente... Na época, não era a categoria juventude que brigava nisso, mas existia um processo que a gente chamava de extermínio programado, uma orientação política para o extermínio da população negra, os jovens e as mulheres como o foco, o principal alvo desta violência e deste controle de natalidade, digamos assim. Essa ideia não é nova, mas o que é novo é a juventude, ou pelo menos, os jovens se qualificarem como tal e estruturarem sua atuação política a partir desta identidade política (entrevista cedida em 18 jun. 2014).

Existem sérias implicações, se pensarmos o processo de muitas mortes como parte de uma política de controle populacional, sobretudo para um país que se considera em desenvolvimento, uma vez que os países desenvolvidos passaram por políticas de redução de mortalidade.

O Brasil é um dos países mais violentos do planeta. A cada ano mais de 53 mil pessoas são assassinadas, outras 54 mil morrem em acidentes, inclusive os de trânsito, nove mil se suicidam e 10 mil são fatalmente vitimados de forma violenta sem que o Estado consiga definir a causa do óbito. Como personagem principal deste roteiro está o jovem, que aparece como perpetrador e, sobretudo, como vítima. [...] Para além das tragédias pessoais e familiares que essas mortes representam, a vitimização dos jovens constitui um grave problema econômico. Soares (2005), em artigo clássico, apontou como a redução da taxa de mortalidade foi a principal força

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por trás do desenvolvimento econômico nos países ocidentais, nos séculos anteriores (CERQUEIRA; MOURA, 2003, p. 104).

Num contexto de aumento demográfico da população brasileira, os homicídios teriam se tornado a opção, seja por ação deliberada do Estado operada pela política de segurança pública, seja por uma ação de deixar morrer, como diria Foucault. A outra opção seria aquela colocada na mesa por defensores da Política de Juventude, para aproveitar o “bônus demográfico”, pois no Brasil nunca houve um percentual tão alto de jovens (em idade de 15 a 29 anos) quanto na década passada, e a população economicamente ativa do país ultrapassou a de idosos e de crianças. É um momento propicio para o investimento em formação de mão de obra qualificada.

Em sua exposição, Severine Macedo destacou a importância da atuação do jovem na “nova classe média brasileira” e o contraste de indicadores como o desemprego e falta de condições de trabalho. “O jovem é um sujeito de direitos e devemos aproveitar o bônus demográfico do segmento juvenil para potencializarmos o desenvolvimento sustentável do país”, afirmou (COM, 2012).

No início da década de 2000, o MNU lançou outra campanha cujo centro é a violência e o homicídio: “Mano, não mate, não morra”27. Esta campanha, que dialogava com os jovens negros e não com a opinião pública no geral, trazia um elemento polêmico para a discussão. Ao fazer um apelo para que o jovem – “mano” – não mate, aponta para uma face problemática da condição do jovem negro, que é o seu supracitado engajamento na violência.

Em 2006, outra campanha se ocupou de problematizar o tema da violência contra jovens negros, também fazendo o mesmo tipo de associação com jovens engajados na violência. A reportagem do portal Carta Maior dizia “Nasce campanha para combater o assassinato de jovens negros”, já de posse de dados estatísticos sobre o assunto:

27 Dizia a chamada para um seminário da campanha: “A juventude no Brasil é a principal vítima da violência que prolifera em todo país, matando, violentando, humilhando esta juventude composta na sua maioria por pobres e negros. É necessário reagirmos a esta violência para não sermos engolidos por esta barbárie. Os avanços tecnológicos, em especial a informática e a robótica, que deveriam servir para melhorar as condições de vida do povo, estão tornando descartáveis milhões de trabalhadores em todo o mundo, totalmente excluídos do processo produtivo. Crises econômicas e políticas se abatem com extrema gravidade sobre as populações pobres do mundo, agravando-se conflitos bélicos na África, Ásia e América Latina.

No Brasil, o projeto neoliberal, através dos planos econômicos do Governo Federal (FHC) agrava as condições de miséria da população brasileira, com alta taxa de desemprego, degradação das escolas públicas, dos hospitais, creches, meios de transporte e saneamento básico. A proliferação da cocaína e do crack atinge níveis alarmantes, apresentando-se o narcotráfico como uma das poucas alternativas de renda para grande parcela da juventude pobre e negra, que são discriminados no mundo do trabalho, trazendo como consequência o aumento da violência sobre esta juventude, colocando-a à mercê da violência policial, das gangues e grupos de extermínio. Temos que dar um basta a esta violência. Participe desta campanha!” (MANO, 2002).

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No Brasil, de 1993 a 2002, o número de homicídios de jovens de 15 a 24 anos aumentou em 88%. Só em 2003, mais de 16 mil brasileiros nessa faixa etária foram assassinados. Além disso, a taxa de homicídios de afrodescendentes é 74% maior do que a média de brancos da mesma idade e a morte por arma de fogo já constitui a principal causa entre a juventude. A maioria das vítimas de assassinato no país são jovens, pobres e negros, principalmente das periferias das grandes cidades. Por causa dessa situação, entidades do movimento negro, em parceria com diversas organizações do movimento sindical, de mulheres e de defesa dos direitos humanos, lançaram a campanha “Não matem os nossos jovens: Eu quero crescer.”28

Foi em 2007, contudo, que uma série de denúncias e proposições de políticas para o problema dos homicídios surgiu por meio de organizações juvenis. O I ENJUNE criou a Campanha Contra o Genocídio da Juventude Negra, em julho desse ano. Inicialmente, com a proposta “Novas perspectivas para a militância étnico-racial”, a prioridade da organização na realização do evento foi o enfrentamento à violência contra jovens negros, pois “a pauta que unia era o combate à violência [...] A gente tinha um eixo, um objetivo comum, que era o combate à violência contra a juventude negra, o combate ao genocídio, o combate ao extermínio” (Thais Zimbwe, entrevista cedida em 21 de jun. de 2013).

É deste feito que podemos categorizar o protagonismo, segundo a acepção da palavra presente no uso feito pelos militantes jovens e/ou negros, cuja fundamentação foi elaborada entre o movimento negro e os espaços de participação mista do Governo Federal.