III. ANÁLISE DA LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA
3.4. Cortázar, Un tal Lucas e o cinema
3.4.1. Recursos da montagem aplicados a Un tal Lucas
3.4.1.3. Homocronia entre leitura e interpretação imagética
O cinema é um sistema sígnico no qual sua matéria não é mais a do contar e, sim, a do ‘mostrar’, sugerir. Sua função não é descrever, mas imprimir sentidos, iconicamente. Epstein assim define o fazer do cinema:
Não olhamos a vida, nós a penetramos. Esta penetração nos permite todas as intimidades. Um rosto sob a lupa, rodopia, exibe uma geografia febril (...) é o milagre da presença real, a vida manifesta, aberta como uma bela granada; liberta da sua capa, assimilável, bárbara.122
A Literatura aprenderá com o cinema a narrar por imagens e por movimentos. Buscará, no verbal, o que mais se assemelhe ao icônico para mostrar algo, não mais para descrevê-lo, e
aprenderá que uma história pode ser construída sobre os intervalos; isto é, não mais pela descrição explícita de algo, mas pela sugestão dada sobre o movimento entre as imagens, sobre a correlação visual das imagens geradas por seus signos verbais, umas em relação às outras. Sobre a transição de um impulso ao seguinte, já que, analogamente, “o principal, o essencial é a cine-sensação do mundo”.123 Assim como outros escritores de seu século,
Cortázar narra não a partir de descrições prontas do que deveria estar em cena, mas por uma sucessão de imagens e movimentos que, juntos, construirão sentidos. O autor não apresenta uma idéia pronta, mas pede ao leitor que perceba, entre uma ação e outra, entre uma imagem e outra, as sensações que experimentam seus personagens e os sentidos gerados por essas correlações.
O texto de Cortázar apresenta uma escrita que mostra mais os movimentos do que a descrição. O significado não está exatamente no que é escrito ou descrito, mas na junção, na correlação dos elementos. É na montagem dos movimentos que reside a significação. Sua arte dinamicamente entendida é “absorvida no processo à medida que este se verifica”, tendo dois estágios fundamentais: o primeiro a reunião de imagens, enquanto o segundo é o resultado “desta reunião e seu significado na memória” (Eisenstein, 2001). Em Cortázar, as imagens suscitadas de seus textos são simultâneas ao momento de leitura, gerando uma homocronia — conceito também criado por nós e já definido nesta dissertação — entre esses dois processos. Os elementos são dados pouco a pouco, para que o próprio leitor possa montar os significados. Ele não determina o contexto a priori, como algo fixo e já pronto, mas o constrói, elemento por elemento, para que o leitor crie sua representação e interpretação. Um trabalho conjunto — de leitor e escritor —, trazendo significação viva, revelando-se diante dos sentidos do leitor. A montagem dirige a sutileza de seus métodos para o processo. É importante não entregar o resultado pronto, mas construí-lo diante do seu interlocutor, fazer “os sentimentos surgirem, se desenvolverem, transformarem-se em outros sentimentos: viverem diante do espectador”.124 Como exemplo, temos o relato “Amor 77”: “Y después de
123 VERTOV apud XAVIER, 1983, p. 264. 124 EISENSTEIN, 2002a, p. 21.
hacer todo lo que hacen, se levantan, se bañan, se entalcan, se perfuman, se peinan, se visten, y así progresivamente van volviendo a ser lo que no son”.125
Nesse conto, temos as diversas ações praticadas por seus personagens para se ‘recomporem’: levantar, tomar banho, passar talco e perfume, pentear-se e vestir-se. Cortázar opta por não descrever as ações, mas sugeri-las ao seu leitor que, rapidamente, em seu tempo de leitura, as apreende e as compõe como um ato global, maior. Cada elemento funciona como uma representação de uma situação típica do pós-ato sexual. Cada elemento isolado — levantar-se ou pentear-se, por exemplo — não responde, por si só, a essa idéia, sendo necessária a junção deles para se alcançar o conceito proposto pelo autor, de que os personagens voltam “a ser o que não são”. Em outro relatp, “Lucas, sus intrapolaciones”, o autor usa do mesmo artifício: “Lucas contempla antropomórficamente las imágenes: el pulpo decide protegerse, busca las algas, las dispone frente a su refugio, se esconde”.126 Ou ainda em “Lazos de Familia” – “Lee las tarjetas, admira las fotografías y vuelve a leer los saludos. De noche saca su álbum de recuerdos y va colocando con mucho cuidado la cosecha del día, de manera que se puedan ver las vistas pero también los saludos.”127
Nesses três relatos, aqui indicados, temos uma narração composta por uma junção de ações que se propõe a suscitar uma cena em seu leitor, trabalhando em um âmbito de uma linguagem mais gerativa do que normativa de suas informações, injetando na “irrealidad de la
125 CORTÁZAR, 2004d, p. 103. Na tradução brasileira (CORTÁZAR, 1982, p. 87): “E depois de fazer
tudo o que fazem, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem- se, e assim, progresivamente, vão voltando a ser o que não são”.
126 CORTÁZAR, 2004d, p. 29. Na tradução brasileira (CORTÁZAR, 1982, p. 25): “Lucas contempla
antropomorficamente as imagens: o polvo decide proteger-se, procura as algas, arruma-as na frente do seu refúgio, esconde-se”. (grifos do autor)
127 CORTÀZAR, 1979, p. 67. Na tradução brasileira (CORTÁZAR, 1982, p. 59): „Lê os cartões,
admira as fotografias e torna a ler os cumprimentos. À noite pega seu álbum de lembranças e vai colocando cuidadosamente a colheira do dia, de modo que se possam ver as vistas mas também os cumprimentos.
imagen la realidad del movimiento”.128 Ao escolher uma forma em que não descreve por
adjetivos, mas sim por ações, o autor consegue uma escrita mais dinâmica, tendendo ao movimento e que, por sua vez, explicita a seu leitor o método escolhido: o de compor por justaposição de ações. A montagem inclui “no processo criativo a razão e o sentimento do espectador. O espectador é compelido a passar pela mesma estrada criativa trilhada pelo autor para criar a imagem”.129 Essa revelação do artifício da montagem convida seu leitor a que o
acompanhe no processo de escrita, diluindo as barreiras da autoria, revelando-se um processo criativo coletivo, democrático e inclusivo que divide com o leitor/espectador o mérito de criação. Essa conformação de uma literatura que compactua com outra arte e que dilui as barreiras da autoria é capaz de ser, em si, uma reflexão ideológica em sua estética.
128 METZ, 2002, p. 42: “irrealidade da imagem a realidade do movimento”. (tradução nossa). 129 EISENSTEIN, 2002a, p. 29.