O processo de construção de identidade é um processo de autoclassificação no qual a pessoa se reconhece(116). O reconhecimento do eu ocorre através das relações com os outros, família, escola e grupos sociais, que orientam os projetos identitários(117, 118). Assim, a identidade é um elemento primordial da realidade subjetiva que está diretamente relacionada com a sociedade, podendo ser mantida e/ou remodelada pelas relações sociais(117, 119).
A sociedade uniu o conceito de sexo ao de género(96) e, por esse motivo, segundo este ponto de vista, é difícil para a pessoa homossexual garantir o seu status social. O homossexual interroga-se sobre a questão existencial ―ser ou não ser‖, isto é, assumir-se ou não assumir-se, numa sociedade que de certa forma distorce a maneira como gostaria de ser(35). A sexualidade é da esfera privada da pessoa. Contudo, e para o homossexual reivindicar o seu direito de
A influência política é evidente na maioria dos estudos de identidade homossexual que enfatizaram as dimensões de resistência e pressão das convenções sociais(121). Historicamente, a ―condição de ser homossexual‖ percorreu diversos desafios políticos, religiosos e científicos. Estes desafios repercutem-se na atualidade, na construção da identidade do homossexual(121), levando a que existam diferentes pontos de vista relativamente ao modo como as pessoas se identificam como homossexuais. Neste processo, o ―coming out”/“sair do armário” é um fenómeno central, intra e interpessoal que levam ao reconhecimento da identidade sexual(116) . Desde a década de 1970, estudos sobre o processo de desenvolvimento da identidade sexual marcaram parte dos estudos sobre homossexualidade nas ciências sociais. Na Antropologia, a reflexão sobre a identidade tende cada vez mais a retirar a estandardização que o conceito pode implicar: “identidades são pensadas em termos situacionais, relacionais e contrastivos; são afirmações de resposta política a determinadas conjunturas, articuladas a outras identidades em jogo‖ P.9 (121).
A construção de uma identidade homossexual é uma etapa repleta de conflitos, quer interiores, como com a própria sociedade envolvente. Assim, uma autora elaborou um modelo alargado para demonstrar qual o impacto do estigma na trajetória de vida na construção de uma identidade homossexual(121). Esta autora postula um modelo de seis estadios. O primeiro sugere confusão identitária, no qual se dá a perceção de que os próprios pensamentos e atos estão em discordância com os da sociedade. No segundo estadio, dá-se a interiorização de ser homossexual, fazendo parte de uma minoria discriminada e colocada à parte. Diante disso, a pessoa pode seguir diferentes trajetórias, tais como: preservar a identidade homossexual, mesmo reconhecendo os seus desafios; reivindicar uma adaptação bissexual ou heterossexual; ou ainda, manter uma identidade negativa, que poderá conduzir ao suicídio. No terceiro estadio ocorre uma tolerância de identidade, em que se colocam, igualmente, diferentes alternativas de reconciliar necessidades pessoais e demandas sociais. No quarto estadio, a tolerância evolui para a aceitação da identidade. No estadio cinco dá-se o ―orgulho da identidade‖, crescendo assim o número de contactos com pessoas que se assumem como homossexuais. Surge, assim, uma perspetiva de valorização da homossexualidade. No estadio seis, denominado síntese da identidade, os sentimentos de raiva e frustração são substituídos por uma forma superior de aceitação pessoal e pública da identidade homossexual. Este modelo explícita as diferentes possibilidades de desenvolvimento na construção de identidade sexual. Esse desenvolvimento encontra-se intimamente ligado com as possibilidades sociais existentes no meio em que se encontra(121).
HOMOSSEXUALIDADE E VIH/SIDA
De uma forma geral, diversos modelos compartilham um conjunto recorrente de pressupostos(121). Assim sendo, o primeiro estadio é invariavelmente postulado como o momento em que crianças e adolescentes bloqueiam o reconhecimento de seus próprios desejos sexuais, seguindo-se um período de experimentação e significação, pautada por turbulência e tensão, que poderá conduzir a um senso de que tais desejos podem ser aceitáveis e normais. Os modelos tendem a reconhecer a adolescência como etapa crítica privilegiada na definição da orientação sexual. Assumem, igualmente, que implicitamente as mudanças biológicas associadas à puberdade são um impulso decisivo para aumentar a consciência do desejo por pessoas do mesmo sexo. O processo de revelar-se homossexual surge numa etapa seguinte e será bem-sucedido se ocorrer sob condições favoráveis de autoajustamento e de suporte social(95, 121).
No entanto, diversos modelos apresentam uma lacuna por considerarem apenas a adolescência a única etapa da vida para a construção de uma identidade. Segundo estes modelos, a identidade ocorre como um processo no qual as pessoas percorrem etapas definidas de transição até atingir uma identidade estável(121). Assim, a maioria dos homens e mulheres, que se revelam como homossexuais na idade adulta, teriam construído a sua identidade desde a adolescência. Os estudos centram-se, na sua maioria, nas investigações de orientação sexual na adolescência, prestando menos ênfase nas restantes etapas do ciclo de vida. Alguns autores supõem que a criação de uma autoimagem positiva como homossexual é um processo idêntico na juventude, idade adulta ou mesmo na velhice(121).
Alguns estudos recentes contrapõem-se aos modelos de etapas de desenvolvimento(122). Estudos nos EUA têm ressaltado que muitos adolescentes atravessam uma fase de experiências homossexuais e heterossexuais antes de estabelecerem uma orientação sexual(123). Para além disso, pesquisas em algumas coortes contemporâneas de jovens nos EUA têm observado que um número crescente de adolescentes e adultos jovens optam pelo termo ―bissexual‖ para se referirem aos seus desejos e estilos de vida(122). Ainda que estas inferências baseadas em estudos empíricos, se reflitam apenas em determinadas regiões do Mundo, estas salientavam para a diversidade dos processos de elaboração e expressão da identidade sexual relacionada à homossexualidade(124).
A autodenominação por homossexuais é acompanhada, por vezes, de manifestações de intolerância da sociedade, através das condenações, recriminações, por parte dos colegas e companheiros de escola, que provocam sentimentos de vergonha e autocrítica. Esses sentimentos de vergonha e perturbação vêm, por sua vez, a ser minimizados à medida que se
intensificam os contactos com outras pessoas que compartilham uma identidade sexual semelhante. Segue-se, então, a luta por ―assumir-se‖ diante da família e dos amigos de fora da comunidade homossexual, a busca por relações afetivas e, eventualmente, o encontro com um ou mais companheiros que se tornam ―parceiros de vida‖(121)
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Atualmente em Portugal, o processo de construção das identidades homossexuais é atravessado por muitas tensões, nomeadamente na decisão ou não de assumir a sua homossexualidade. Neste ―jogo de aparências‖, os contextos desempenham um papel essencial. Assim, é constante a manutenção de uma identidade fragmentada ou de múltiplas identidades, de acordo com o contexto onde se insere num determinado momento(113). Contudo, a dignidade e a liberdade do ser humano engloba o seu direito à identidade(125).
Após a construção e aceitação das suas próprias identidades o aparecimento do(a) VIH/SIDA veio desmoronar diversas reivindicações que os homossexuais tinham até a data realizado. Para perceber as consequências do(a) VIH/SIDA para as pessoas homossexuais, seguidamente apresentamos uma contextualização dessa temática.