2.2 Tempo-orientabilidade
3.0.2 Homotetias e Isometrias
O prop´osito principal desta sec¸˜ao ´e demonstrarmos o teorema 3.0.4, no qual vemos que uma de suas consequˆencias ´e a garantia de que uma aplicac¸˜ao que preserva distˆancias de um espac¸o-tempo fortemente causal sobre si mesmo ´e uma isometria.
Sejam(M1,g1)e(M2,g2)variedades Lorentzianas. Dizemos que um difeomorfismo f :(M1,g1)→
(M2,g2)´e uma homotetia se existe uma constantec>0, tal queg2(f∗v,f∗w) =cg1(v,w), para todo v,w∈TpM1e p∈M1. Em particular, sec=1, ent˜ao f ´e uma isometria.
A partir de agora, nesta sec¸˜ao, vamos denotar pord1a func¸˜ao distˆancia Lorentziana de(M1,g1)e d2a de(M2,g2).
Definic¸˜ao 3.0.10. Uma aplicac¸˜ao f :(M1,g1)→(M2,g2) ´e chamada de distˆancia homot´etica se existe uma contante c>0, tal que d2(f(p),f(q)) =cd1(p,q),∀p,q∈M1. Se c=1, dizemos que f preserva distˆancia.
Note que em variedades Lorentzianas, aplicac¸˜oes que preservam distˆancias n˜ao s˜ao necessaria-mente cont´ınuas, pois basta tomar(M,g)um espac¸o-tempo totalmente patol´ogico e ver qued(p,q) =
∞,∀p,q∈M, portanto qualquer bijec¸˜ao f :M→Mpreserva distˆancia, mas n˜ao ´e necessariamente cont´ınua.
Teorema 3.0.4. Seja(M1,g1)um espac¸o-tempo fortemente causal e(M2,g2)um espac¸o-tempo ar-bitr´ario. Se f :(M1,g1)→(M2,g2)´e uma distˆancia homot´etica sobrejetiva (n˜ao necessariamente cont´ınua), ent˜ao f ´e uma homotetia suave. Isto ´e, f ´e um difeomorfismo e existe uma constante c>0, tal que f∗g2=cg1. Em particular, toda aplicac¸˜ao de um espac¸o-tempo fortemente causal
(M,g)sobre si mesmo que preserva a distˆancia Lorentziana ´e uma isomeria. A demonstrac¸˜ao deste teorema ser´a dividida em alguns lemas.
Lema 3.0.4. Sejam(M1,g1)e(M2,g2)espac¸os-tempo e considere uma aplicac¸˜ao f :(M1,g1)→
(M2,g2)sobrejetiva, mas n˜ao necessariamente cont´ınua. Se f ´e uma distˆancia homot´etica, ent˜ao: (1) pq ⇐⇒ f(p) f(q),
(2) f(I+(p)∩I−(q)) =I+(f(p))∩I−(f(q)).
Demonstrac¸˜ao. (1) Como f ´e uma distˆancia homot´etica, ent˜ao:
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(2) Dado f(r)∈ f(I+(p)∩I−(q)), ent˜ao r∈I+(p)∩I−(q), ou seja, prq, que equivale por (1) a f(p) f(r) f(q), logo f(r)∈I+(f(p))∩I−(f(q)).
J´a se f(r)∈I+(f(p))∩I−(f(q)), ent˜ao f(p) f(r) f(q), ou seja,prqe, portanto, r∈I+(p)∩I−(q)e f(r)∈ f(I+(p)∩I−(q)).
Assim, conclu´ımos a igualdade.
Um fato importante do item (2) ´e que se(M,g) ´e fortemente causal, ent˜ao o conjunto {I+(p)∩ I−(q)| p,q∈M} forma uma base para a topologia de M, fato este que poder´ıamos mostrar de forma an´aloga `a demonstrac¸˜ao do teorema 3.0.2.
Lema 3.0.5. Seja (M1,g1) um espac¸o-tempo fortemente causal e (M2,g2) um espac¸o-tempo ar-bitr´ario. Se f :(M1,g1)→(M2,g2)´e uma distˆancia homot´etica sobrejetiva (n˜ao necessariamente cont´ınua), ent˜ao f ´e uma aplicac¸˜ao aberta injetiva.
Demonstrac¸˜ao. Para mostrar que f ´e uma aplicac¸˜ao aberta usamos o fato que {I+(p)∩I−(q)| p,q∈M1} forma uma base para a topologia deM1, assim basta mostrar que f(I+(p)∩I−(q)) ´e aberto, mas pelo item (2) do lema anterior, temos que f(I+(p)∩I−(q)) =I+(f(p))∩I−(f(q)), onde este ´ultimo ´e a intersec¸˜ao de dois abertos emM2e, portanto, aberto.
Resta mostrar que f ´e injetiva. Suponha que existamp,q∈M1,p6=qe f(p) =f(q). SejaU(p)uma vizinhanc¸a de pcomq∈/U(p)e tal que nenhuma curva causal passa porU(p) mais de uma vez. Escolhar1,r2∈U(p)comr1pr2, ent˜aoq∈/I+(r1)∩I−(r2)⊂U(p). Segue do lema anterior que f(r1) f(p) = f(q) f(r2), o que implica quer1qr2, ou seja,q∈I+(p)∩I−(q), o que ´e um absurdo.
Aplicando o lema anterior a f e f−1, obtemos a proposic¸˜ao seguinte.
Proposic¸˜ao 3.0.6. Seja (M1,g1) fortemente causal, (M2,g2) um espac¸o-tempo arbitr´ario e f :
(M1,g1)→(M2,g2)sobrejetiva (n˜ao necessariamente cont´ınua). Se f ´e uma distˆancia homot´etica, ent˜ao f ´e um homeomorfismo e(M2,g2)´e fortemente causal.
Demonstrac¸˜ao. Desde que f ´e sobrejetiva, temos, pelo lema anterior, que f ´e bijetiva. Al´em disso, tamb´em pelo lema anterior, f ´e uma aplicac¸˜ao aberta, o que garante que f−1 ´e cont´ınua, pois a imagem inversa de um aberto ´e aberta.
Se mostrarmos que (M2,g2) ´e fortemente causal, teremos que f−1 ´e uma bijec¸˜ao aberta, logo f ser´a cont´ınua.
Dadop0∈M2, seja p= f−1(p0)∈M1. Ser0,q0∈M2s˜ao tais quer0p0q0, ent˜ao como f−1 ´e uma distˆancia homot´etica com constante igual a 1/c(pois f ´e bijetiva), temos que f−1(r0)p
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SejaU0(p0) uma vizinhanc¸a de p0 e escolha V0(p0) vizinhanc¸a de p0 tal que o fecho compacto V0(p0) esteja contido numa vizinhanc¸a normal convexaW0(p0) de p0, logo podemos assumir que
(W0(p0),g2|W0(p0))´e globalmente hiperb´olico.
Seja{r0n}e{q0n}sequˆencias emV0(p0)tais quern0 →p0,q0n→p0ern0 p0q0n, para todon. Assuma que falhe a causalidade forte de(M2,g2)em p0. Isto significa que, para cadan, o conjunto I+(r0n)∩I−(q0n) n˜ao pode estar contido emW0(p0), pois de outra forma curvas causais poderiam sair de vizinhanc¸as arbitrariamente pequenas deI+(r0n)∩I−(q0n)e ent˜ao retornar, o que contraria o fato deW0(p0)ser globalmente hiperb´olico.
Tome uma sequˆencia{z0n}contida na fronteira deV0(p0), comz0n∈I+(rn0)∩I−(q0n)para cadan. A sequˆencia{z0n} tem um ponto de acumulac¸˜aoz, pois o fecho deV0(p0) ´e compacto. Al´em disso,
f−1(z0n)∈ f−1(I+(rn0)∩I−(q0n)) =I+(f−1(r0n))∩I−(f−1(q0n)).
A continuidade de f−1 implica que f−1(rn0)→ f−1(p0) = p e f−1(q0n)→ f−1(p0) = p, j´a a cau-salidade forte de M1 garante que os conjuntos I+(f−1(rn0))∩I−(f−1(q0n)) se aproximam de p, portanto, f−1(z0n)→p, o que significa que f−1(z) = p= f−1(p0). Isto contraria a injetividade de
f−1. Consequentemente,M2 ´e de fato fortemente causal.
Considerando um espac¸o-tempoMfortemente causal, dadop∈M, sejaU(p)uma vizinhanc¸a nor-mal convexa dep. O conjuntoU(p)pode ser escolhido t˜ao pequeno que quandoq,r∈U(p), com q≤r, a distˆanciad(q,r) ´e o comprimento do segmentoα(q,r)da ´unica geod´esica deqat´er que pertence aU(p).
Al´em disso,U(p)pode ser escolhido de forma que seq,z,r∈U(p), comqzr, ent˜ao a desi-gualdade triangular inversad(q,r)≥d(q,z) +d(z,r)tem a igualdade v´alida se, e somente se,zest´a no segmento de geod´esica que ligaqa r emU(p). Portanto, geod´esicas tipo-tempo em espac¸os-tempo fortemente causais s˜ao caracterizados pela func¸˜ao distˆancia, logo segue que distˆancias ho-mot´eticas levam geod´esicas tipo-tempo em geod´esicas tipo-tempo, pois dadoz∈α(p,q), temos que pzqe, como f ´e uma distˆancia homot´etica, f(p) f(z) f(q), onde f(z)∈α(f(p),f(q)). Queremos mostrar queα(f(p),f(q)) ´e uma geod´esica, para isso note que comoz∈α(p,q), ent˜ao
d1(p,q) =d1(p,z) +d1(z,q) =1
cd2(f(p),f(z)) +1
cd2(f(p),f(z)) =1
cd2(f(p),f(q)),
logo f(z)est´a sobre a ´unica geod´esica que liga f(p)a f(q), ou seja,α(f(p),f(q))´e uma geod´esica. Este fato tamb´em ´e v´alido para geod´esicas do tipo-luz e isso ´e mostrado no lema a seguir.
Lema 3.0.6. Se f ´e uma distˆancia homot´etica definida em um espac¸o-tempo fortemente causal, ent˜ao f leva geod´esicas tipo-luz em geod´esicas tipo-luz.
Demonstrac¸˜ao. SejaU(p)uma vizinhanc¸a normal convexa dep, tomada suficientemente pequena de tal forma que f(U(p))esteja contida numa vizinhanc¸a normal convexa de f(p), como mostra o
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par´agrafo anterior a este lema.
Sejaα(q,r)uma geod´esica tipo-luz emU(p). Escolhaqn→qern→r, comqnrn, para todon. Pela proposic¸˜ao anterior temos que f(qn)→ f(q)e f(rn)→ f(r).
Assim, f leva as geod´esicas tipo-tempoα(qn,rn)nas geod´esicas tipo-tempoα(f(qn),f(rn)). Desde que a geod´esicaα(qn,rn)converge paraα(q,r)e a geod´esicaα(f(qn),f(rn))converge para α(f(q),f(r)), segue que f levaα(q,r)emα(f(q),f(r)), onde esta ´ultima ´e uma geod´esica tipo-luz, pois f ´e uma distˆancia homot´etica.
Demonstrac¸˜ao. Agora iremos provar o teorema 3.0.4. O fato de f ser um difeomorfismo segue de um resultado provado por Hawking, King e McCarthy (1976), que afirma que um homeomorfismo que leva geod´esicas tipo-luz em geod´esicas tipo-luz ´e um difeomorfismo.
Desde que M1 e M2 s˜ao fortemente causais, para cada p∈M1, existe uma vizinhanc¸a normal convexa U1(p) tal que para cada q ∈U1(p), com p q, o comprimento das geod´esicas tipo-tempo ligando paqeα(f(p),f(q))ligando f(p)a f(q)s˜ao dados pord1(p,q)ed2(f(p),f(q)), respectivamente. Usando que d2(f(p),f(q)) =cd1(p,q), segue que f aplica g1 sobre o tensor c−2g2.