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3. Estrutura da análise

3.1.8 A HORA É UM OBJETO QUE SE MOVE NA MENTE DO EU

Tenho um segredo que nem eu próprio conheço… Data de almas minhas anteriores à atual… Outras paisagens sugerem-se através das janelas

E a hora visível recua até ao fundo Do meu ser e intercala-se

Uma ideia de mim entre compreender e olhar…

Excerto do poema “Tenho um segredo que nem eu próprio conheço”, 1916

95Talmy’s analysis of the basic and complex force-dynamic patterns shows that force-dynamics is a fundamental category of

language. As such, it has served as a basic domain for metaphorical transfers, allowing language users to conceptualize force- dynamic patterns in domains other than the physical one. […] As a consequence of the Conception of the self as an entity in which opposing forces are at work, the overt manifestation of force by sentient beings is generally interpreted as arising from

psychological driving forces , rather than as originating in the body itself […]. Geeraerts & Cuyckens (2007: 298-299)

96Kovecses (2010: 289) 97Kovecses (2010: 84) 98Kovecses (2010: 262) 99Lakoff & Johnson (1980: 113)

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Na expressão metafórica “hora visível”, a hora, uma subcategoria de Tempo, é concetualizada como objeto que é percecionado pelo Eu poético enquanto esse objeto se move: “E a hora visível recua” (v.4). O movimento do objeto pressupõe que uma força agiu sobre esse objeto, retirando-o do estado de repouso e que o objeto, ao deslocar-se, traçou um percurso imaginário no espaço mental do Eu, com origem num ponto de partida e na direção de uma meta. O movimento do objeto é concetualizado segundo o esquema imagético PONTO DE PARTIDA-CAMINHO-META100 que resulta da projeção metafórica da experiência motora humana decorrente de percorrer espaços concretos desde um ponto de partida A até um ponto de chegada B, passando pelas etapas que separam A de B. Considerando o esquema imagético referido, a hora é o TRAJETOR101 que percorre um caminho metafórico num espaço virtual que é o da mente do Eu. Esse caminho metafórico tem início no “agora” em que temporalmente se situa o Eu poético e termina no “fundo do seu ser”. A expressão locativa “até ao fundo de” sugere que a hora se desloca do presente até à memória, concetualizada como espaço e meta, visto que é o local metafórico onde termina o trajeto da hora.

Como os pensamentos/ideias são consciencializados através de imagens mentais102, a hora é metaforicamente um pensamento/ideia e este é metaforicamente um objeto percecionado pelo Eu na sua mente. As duas metáforas concetuais seguidamente apresentadas mostram, respetivamente, que a hora é concetualizada como pensamento e que este é, por sua vez, concetualizado como objeto: A HORA É UM PENSAMENTO/IDEIA DO EU

UM PENSAMENTO/UMA IDEIA É UM OBJETO

A materialização da hora num objeto que pode ser visto é consequência da concetualização das ideias/pensamentos como objetos. Pelo facto de ser um objeto, a hora pode ser observada pelo Eu e deslocada no espaço por ação desse Eu. Este facto explica não só a visibilidade da hora como também o respetivo movimento, orientado da frente para trás.

Assim, primeiramente, a hora é um objeto percecionado pelo Eu:

100Bodily experience: Everytime we move anywhere there is a place we start from, a place we wind up, a sequence of contiguous

locations connecting the starting and ending points, and a direction. Structural elements: A SOURCE (starting point), a DESTINATION (endpoint), a PATH (a sequence of contiguous locations connecting the source and the destination), and a DIRECTION (toward the destination).Lakoff (1987: 275)

101A spatial utterance must express or profile a “trajector”, the entity whose (trans) location is of relevance. The trajector may be

static or dynamic; a person or an object. Geeraerts and Cuyckens (2007: 327)

102Reside aqui o centro da neurobiologia, tal como eu a concebo: o processo por meio do qual as representações neurais, que são

modificações biológicas criadas por aprendizagem num circuito de neurónios, se transformam em imagens nas nossas mentes; os processos que permitem que modificações microestruturais invisíveis nos circuitos de neurónios (em corpos celulares, dendritos e axónios, e sinapses) se tornem numa representação neuronal, a qual por sua vez se transforma numa imagem que cada um de nós experiencia como sendo sua. Damásio (1995: 106)

46 A HORA É UM OBJETO PERCECIONADO PELO EU

A metáfora concetual anterior explica a expressão metafórica “hora visível”, v.4.

Em segundo lugar, a hora é um objeto que se move: A HORA É UM OBJETO QUE SE MOVE. A metáfora concetual anterior explica o movimento da hora: “E a hora visível recua até ao fundo do meu ser” (vv.4-5). Sendo concetualizada como pensamento que se move, a concetualização da hora é uma extensão da metáfora concetual PENSAMENTO É MOVIMENTO103. O movimento da hora é concetualizado com base no esquema imagético orientacional FRENTE-TRÁS104; o momento presente em que se situa temporalmente o Eu é concetualizado como o local físico de onde parte a hora (o termo deítico “agora” é indissociável do deítico locativo “aqui”). O “agora” é concetualizado como FRENTE pela razão de que o Eu visualiza o pensamento dominante no “agora” em que se situa; como “agora” é inseparável de “aqui”, o pensamento que ocorre “agora” e “aqui” encontra-se “à frente” do Eu, ou seja, é a consciência desse pensamento que origina uma hora capaz de ser percecionada: “A hora visível”. Esta concetualização deve- se à impossibilidade de o ser humano ver o que se encontra fora do ângulo de visão permitido pelos olhos. Deste facto resulta que a realidade visível é concetualizada como ocupando um espaço à frente do corpo, porque os olhos se localizam na “frente” do corpo; aquela que não pode ser vista é localizada atrás do corpo (o espaço não abrangido pelos olhos). No poema, o “recuo” da hora é motivado por uma Força105 exercida pelas recordações de vidas anteriores do Eu (verso 2), o que significa que ele desvaloriza a vida que tem no presente. Esta desvalorização traduz-se na subalternização da “hora visível”, já que esta “recua” para um espaço existente “dentro” do Eu, que não está ao alcance da visão, como é sugerido pela expressão locativa “até ao fundo do meu ser”, vv.4-5. Parece- nos que o Eu concebe a sua memória como um espaço fundo, como, por exemplo, um poço, e que a hora se move para o fundo desse poço metafórico, passando de “visível” a invisível; neste contexto, o pensamento que é esquecido torna-se invisível, porque a respetiva imagem mental deixa de ser visualizada.

Assim, o momento presente em que o Eu “vê” a hora (a hora é um pensamento/ uma imagem mental) é concetualizado como localizado à FRENTE enquanto o Eu lhe atribui importância; quando outras ideias atraem a sua atenção, nomeadamente as recordações

103Lakoff & Johnson (1999: chapter 12) 104Lakoff (1987: 271)

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de vidas anteriores (“Data de almas minhas anteriores à atual”, v.2), o Eu empurra a “hora visível” para o espaço da memória: “recua até ao fundo do meu ser”, vv.4-5.

Em síntese, a imagem mental percecionada localiza-se “à frente” e o espaço da memória, “atrás”. A expressão “até ao fundo” sugere que a memória é um “poço” no interior do qual as recordações estão dispostas em camadas, localizando-se no fundo aquelas que menos interessam ao Eu e esta é a razão que nos levou a mencionar anteriormente a subalternização de “A hora visível”, expressão metafórica na qual o determinante indefinido “outras”, em “outras paisagens” (v.3), estabelece um contraste com o determinante definido “a” em “A hora visível”. O facto de o determinante definido poder ser substituído pelo deítico espacial “esta” permite que a expressão metafórica se possa reescrever desta maneira: “Esta hora visível”. Como “a hora visível” é visível para alguém, o demonstrativo “esta” usado em substituição de “a” mostra a proximidade da “hora” relativamente ao observador, sugerindo que a hora é uma metáfora do pensamento ou imagem mental dominante na mente do Eu no momento designado por “hora”.

A motivação para a metaforização da hora verbalizada em “E a hora visível recua”, v.4 parece estar no facto de ela partilhar atributos com o pensamento: ambos são objetos que se movem no espaço; os pensamentos sucedem-se uns aos outros no espaço da mente e as horas sucedem-se também umas às outras no espaço do relógio, espaço no qual é possível fazer recuar uma dada hora ou adiantá-la; já o pensamento não pode “recuar” porque isso implicaria que o sujeito que pensa esse pensamento está e não está consciente dele, o que é impossível, atendendo ao cérebro que temos. Neste contexto, pensamos que o poeta recorre à metaforização da hora para verbalizar a ideia de que controla os seus pensamentos, tal como controla o mecanismo do relógio, cuja função é a de dar horas. No caso de ter sido essa a ideia do poeta, a metaforização da hora sugere que a mente é concebida como uma máquina (à semelhança do relógio) que o poeta controla através da vontade: recua o pensamento tal como faz recuar os ponteiros do relógio (a hora muda e o pensamento também). Esta concetualização da mente como uma máquina106 não será totalmente desprovida de sentido se recordarmos a insistência do poeta na racionalização107 do pensamento, o que significa que, no universo mental do

106E para mudar a perspetiva é necessário compreender que a mente emerge num cérebro situado dentro de um corpo -

propriamente-dito, com o qual interage; que a mente tem os seus alicerces no corpo propriamente-dito; que a mente prevaleceu na evolução porque tem ajudado a manter o corpo-propriamente-dito; e de que a mente emerge em tecido biológico – em células nervosas – que partilham das mesmas características que definem outros tecidos vivos no corpo-propriamente-dito. Damásio (2003: 215)

107Sou, em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico. Ora o público não é capaz de

seguir um raciocínio, e o público não é capaz de prestar atenção a uma análise (…). Lind e Prado Coelho (1967). “Páginas Íntimas e de Autointerpretação”, Notas biográficas e de Autognose, p. 75

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poeta, pensar é incompatível com sentir, razão que o levou a escrever a “norma” que deve presidir à escrita do poema e que passamos a transcrever:

A composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela. Um poema é um produto intelectual, e uma emoção, para ser intelectual, tem, evidentemente, porque não é, de si, intelectual, que existir intelectualmente. Ora a existência intelectual de uma emoção é a sua existência na inteligência – isto é, na recordação, única parte da inteligência, propriamente tal, que pode conservar uma emoção.108