C. SISTEMA DE INFORMAÇÕES HOSPITALARES DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SIH/ SUS)
2.1. O SISTEMA TRADICIONAL (ATÉ MEADOS DO SÉC XIX)
2.1.4. O hospital entre o poder divino e o terreno: a idade moderna
A partir do final do Século XIII e início do Século XIV, o Estado, principalmente as autoridades municipais, passa a complementar, no princípio, e, posteriormente, assumir os
44 encargos da igreja. Rosen (1963) aponta como um dos principais motivos para isto o surgimento da burguesia, que passaria a estimular as municipalidades a também atuar na área assistencial, para fazer face ao grande contingente de pobres que se formavam nas cidades. Tornou-se necessário alterar a dinâmica do hospital para que viesse a atender um maior número de pessoas, em menor espaço de tempo, aumentando sua eficiência. As mudanças demandadas não se coadunavam com o tipo de abordagem feito pela igreja. Este movimento fez com que o formato do hospital também se alterasse progressivamente, inclusive em seu aspecto físico. A casa de Deus foi progressivamente transformando-se em enormes pavilhões, com pé direito de até 10 metros, muitos leitos dispostos perpendicularmente às janelas, e algum mecanismo de separação entre os mesmos que não chegava até o teto.
É importante ressaltar, no entanto, que o fato da administração dos hospitais ter passado paulatinamente, durante o período que vai do Século XIII ao XVI, para as autoridades municipais, não significa que a igreja tenha abandonado a atividade hospitalar. Havia uma espécie de co-gestão entre os representantes do poder divino e do poder terreno. Segundo Rosen (1963), é somente com a Reforma e a ascensão do Estado Absolutista que a separação se torna mais significativa. E, mais ainda, é neste período que se estabelece a noção de que a responsabilidade pelos pobres, assim como pelos doentes, deve recair sobre a comunidade e não sobre a igreja.
Ao longo dos séculos XVII e XVIII a administração hospitalar, mesmo secularizada, vai preocupar-se, sobretudo, com o financiamento e a gestão patrimonial do hospital, a par da prestação dos serviços hoteleiros, que já envolve uma ampla gama de trabalhadores como cozinheiros, despenseiros, porteiros, etc. O serviço de enfermagem é ainda prestado pelo pessoal religioso. Exceto pela participação dos cirurgiões barbeiros, a organização dos cuidados médicos é praticamente inexistente.
Dois movimentos importantes e decisivos no processo de secularização do hospital vão se consolidando ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX. Por um lado, a direção vai mudando seu perfil do tradicional provedor ligado à nobreza e ao alto clero para o burguês, doador ou pelo cidadão que passava a representar os interesses do seu município, que, aliás,
45 estavam, ambos, mais próximos dos médicos. Por outro lado, a crescente profissionalização dos médicos fez com que fossem paulatinamente conquistando os espaços antes ocupados pelos curandeiros aos quais a população recorria. Esse processo de profissionalização do médico, descrito por Friedson (1970), vai fazer com que seus estatutos profissionais e sociais se transformem radicalmente. De posse de um corpo científico de conhecimentos e legitimidade social crescente, vai se tornar o substituto (ou herdeiro) do carisma, do dom, da dedicação, da vocação e do sacerdócio dos antigos homens de igreja.
Apesar da crescente importância da medicina profissionalizada (dogmática), em contraposição aos médicos práticos (ministrante), a presença dos médicos nos hospitais era pequena. Há relatos, como os de Rochaix (1996 e 2004), que abordam o funcionamento dos hospitais desde o ancien regime até nossos dias, tratando também do trabalho e das formas de remuneração dos médicos. Nestes relatos constata-se que as poucas visitas a pacientes hospitalizados eram apressadas, sem regularidade, com prescrições e fichas clínicas mal preenchidas, deixando a clara impressão de que remuneração e qualidade dos serviços prestados não se conjugavam. É bem provável que trazer essas questões para o cenário atual, suscite a colocação pela corporação médica de que esse comportamento descrito em relação ao seu trabalho no hospital é fato histórico, coisa do passado, sem nenhuma similaridade com o presente. Embora a universidade detivesse o monopólio da titulação dos médicos, seu aprendizado passou a se dar, ao longo do Século XVIII em especial, de forma crescente nos hospitais, onde cuidava dos pobres, para, em seguida, no seu exercício profissional, passar a maior parte de seu tempo atendendo a uma clientela privada de ricos, como relata Foucault (1980) com riqueza de detalhes.
Em relação aos pacientes internados, já era notório o que Foucault chamou de “regime disciplinar”. Os pacientes eram submetidos a normas que diziam respeito a horários, cuidados com o corpo, alimentação, comportamentos, etc. Estas disciplinas implementadas por um poder com capacidade de impô-las, também se exerciam, segundo Foucault, nas escolas, igrejas, prisões e em outros tipos de estabelecimentos. O poder disciplinar tinha como objetivo a formação de “corpos dóceis”. Indivíduos que, introjetando as mencionadas disciplinas, estariam mais propensos a se subordinar - em relação à sociedade - às novas
46 formas de organização da produção nas indústrias e no capitalismo que se anunciava. No interior do hospital, estes corpos dóceis e assujeitados passaram a despertar o interesse dos médicos, não apenas pelo volume e diversidade de patologias que apresentavam, o que facilitava seu aprendizado da clínica, mas também, porque nestas circunstâncias, se constituíam em objetos de experimentação terapêutica.
Em resumo, o fato é que o hospital tornou-se uma via paralela de ensino cada vez mais importante e legitimada, e também um local de trabalho insubstituível para a elite médica. À medida que a clínica foi se desenvolvendo, a atribuição de diplomas passa a depender não apenas da presença efetiva dos estudantes nas aulas de anatomia das salas das academias, mas também da prática clínica nas enfermarias à cabeceira do doente internado, como descreve Foucault (1980). Seja em função do ensino, seja em função do trabalho, o fato é que o médico passou a ligar-se em maior escala ao hospital. Esta articulação recém iniciada entre médicos e hospital vai mudar profundamente a vida dos dois. No hospital, a saúde do corpo vai substituir progressivamente a salvação da alma como objetivo, enquanto para os médicos, a clínica, mudando seu enfoque da doença como essência abstrata, passa a ver o indivíduo no hospital como corpo doente a demandar uma intervenção que dê conta de sua singularidade. Esses fatos prenunciam o próximo período.
2.2. O SISTEMA PROFISSIONAL LIBERAL (meados do séc. XIX à II Guerra