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2. O blues: contornos e definições

2.6 Howlin’ Wolf

Nascido Chestes Burnett em 10 de junho de 1910 na cidade de White Station, Mississipi, o “lobo mal do blues”, como aparece na fonte, passara por maus bocados já em tenra idade. Filho único, fora abandonado por sua mãe, que sofria de distúrbios psíquicos, após o divórcio com apenas um ano, e passou a morar com o irmão de sua avó materna Will Young, “o mais vil homem entre aqui e o inferno” [the meanest man between here and hell]

(SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.7), que sistematicamente o explorava e humilhava, até que, aos treze anos, após uma surra por ter comprado calças longas para impressionar uma jovem por quem se interessara, fugiu, sendo

perseguido por seu tio-avô a cavalo, para se tornar um hobo e começar a ganhar a vida como músico nômade.

Eventualmente Chester irá se encontrar com seu pai biológico, Dock, e se estabelecer na plantação Young and Morrow, sem nunca abandonar a vida de músico, alternando as colheitas com as viagens. Irá servir as forças armadas na década de 1940, sendo dispensado em 1943 com honras, mesmo não tendo lutado na guerra e sido diagnosticado com distúrbios de psico-neurose, histeria e ansiedade – infere-se que talvez a disciplina do serviço lhe tenha causado os problemas (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.53) –, mas no interim teve a chance de tocar e aprender com diversos músicos referência da região, chegando mesmo a compor um trio com Sonny Boy Williamson II e Robert Johnson, o que lhe permitiu se estabelecer fortemente no Delta, assumindo um programa vespertino de rádio de quinze minutos na KWEM de West Memphis em 1949, similar ao King Biscuit Time de Helena, e eventualmente gravando para a recém-criada Sun records de Sam Phillips suas duas primeiras demos, “How Many More Years” e “Baby Ride with Me”, fato que o levaria a produzir tanto para a Chess quanto para a Modern, de Los Angeles, através de Phillips. Em realidade, por dois anos as duas gravadoras brigaram pela exclusividade do bluesman (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.87), até que no inverno entre 1952 e 1953 Wolf se muda para Chicago, chegando à cidade dirigindo o próprio carro, no valor de 4 mil dólares e outros 3900 dólares no bolso, sendo considerado o único bluesman a deixar o Deep South “like a gentleman”, somando um patrimônio acumulado de aproximadamente 74 mil dólares, se pensado na cotação atual (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.98), muito diferente dos outros, que chegavam, tal como a construção arquetípica e estereotipada comentada anteriormente, enquanto andarilhos ou, como Muddy, para assumir serviços na indústria.

Wolf foi prontamente recebido na nova residência de Muddy Waters enquanto cortesia da gravadora ao recém-chegado, o que assume um tom quase irônico pois, rapidamente após ser apresentado aos principais bares em que tocava, como o Zanzibar, o Silvio’s e o 708 Club, assume várias datas que antes estavam delegadas ao seu anfitrião, tornando-se atração regular e iniciando a maior rivalidade da cidade (GORDON, 2002, p.128). Vemos mesmo

que muito se comenta acerca disso. A principal comparação se dava mais em relação às capacidades de ambos de manejar suas bandas do que à qualidade individual de seus trabalhos. Ao passo que Wolf assumia muito mais ativamente a frente e a autoridade dentro de seu grupo, chegando mesmo a aplicar multas por atrasos ou estados inebriados, a de seu rival era conhecida no cenário como a Muddy Waters’ Drunken Ass Band. O que decorria daí era que a abnegação de Waters enquanto líder permitia que os músicos de sua banda se sentissem mais à vontade para galgar uma carreira solo mais facilmente (GORDON, 2002, pp.119-120). Wolf, por outro lado, se valia de sua idade mais avançada e de seu porte avantajado para mesmo intimidar fisicamente seus contratados e garantir as características de seu som (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.75). Segundo o gaitista Billy Boy Arnold,

Muddy Waters não tinha necessariamente o seu próprio som, já que o seu som era moldado em torno de Little Walter, Jimmy Rogers, e Spann e essas pessoas todas. Quando você os remove, o som de Muddy se foi. Mas Wolf tinha seu próprio som e ele teria sido o Howlin’ Wolf tivesse ido para a Califórnia ou qualquer outro lugar no mundo. Seu som estaria ali porque o seu som era “o Wolf” – sua harmônica e o seu canto, e ele era forte, agressivo, e dominava o palco... Ele era único em todos os sentidos da palavra... Ele era verdadeiramente um artista41. (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.141, tradução nossa).

Semelhante posicionamento é manifestado por Jimmy Rogers, que assumira o posto de líder da banda de Waters durante seu período de atuação, entre 1950 e 1956 (GORDON, 2002, p.137):

Wolf gerenciava melhor um grupo de pessoas do que Muddy. Muddy concordaria com a companhia, Wolf falaria por si mesmo. E quando você fala por si mesmo, você automaticamente fala pela banda, porque se você não concordar em gravar não há gravação. Era mais

41 Muddy Waters didn’t necessarily have his own sound, ‘cause his sound was built around Little

Walter, Jimmy Rogers, and Spann and those people like that. When you took them away from Muddy, Muddy’s sound was gone. But Wolf had his own sound and he would have been the Howlin’ Wolf whether he went to California or anywhere else in the world. His sound would have been there ‘cause his sound was the Wolf – his harp playin’ and his singin’, and he was strong, aggressive, and dominating the stage… He was unique in every sense of the word… He was truly an artist.

uma questão de negócio para Wolf42. (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.177, tradução nossa).

Em última instância, Wolf chegou a mesmo proibir que seus músicos, jovens, animados e influenciáveis, andassem com os de Muddy para se ter plenas noções das dimensões a que chegava a rivalidade. Talvez o ponto mais representativo seja quando, cobrindo a recente ausência de Rogers em 1956, Hubert Sumlin, o jovem guitarrista que era praticamente um protegé de Wolf, é convidado a ingressar na banda de Waters, motivado pelo sentimento de que seu patrão não o valorizava e o diminuía verbalmente, para além do fato de ter lhe sido oferecido um salário três vezes superior (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.131), regressando poucos meses depois, após exaustão diante das turnês no interior e às confusões em que a banda que ingressara arranjava. A verdade é que, a despeito de sua postura rígida, Wolf acreditava no desenvolvimento do indivíduo, tendo procurado depois de adulto por educação formal que não tivera quando jovem, chegando a fazer tarefas de casa nos intervalos das apresentações (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.191) e estimulando seus músicos a adquirirem treinamento e educação musical igualmente, o que lhe garantia não só maior controle e autoridade sobre seu som e banda, como também mesmo independência financeira, tendo se recusado sempre a buscar vantagens junto aos Chess – muito diferente de Muddy Waters, por exemplo – e mesmo ajudado a pagar pelo velório de Little Walter em 1968 e de Geneva em 1973, protegé e esposa de Waters, respectivamente (SEGREST ; HOFFMAN, 2005, p.201).

Ao fim e ao cabo, a postura de Howlin’ Wolf contrastava radicalmente com a de Waters, constituindo uma rivalidade de opostos extremamente ilustrativa das dinâmicas inerentes à cena de Chicago: à flexibilidade enquanto líder e subserviência de Waters à gravadora opunha-se a rigidez de Wolf com sua banda e sua independência, que refletir-se-ão depois igualmente nas suas carreiras frente às dificuldades enfrentadas quando do declínio de popularidade do estilo, notando que o primeiro aceitou intervenções e buscou se adaptar ao

42Wolf was better managing a bunch of people than Muddy was. Muddy would go along with the company, Wolf would speak for himself. And when you speak up for himself, you automatically gonna speak up for the band, because if you don’t agree to record, there’s no recording. It was more of a business thing with Wolf.

passo que o segundo manteve monoliticamente sua estética. Assim, uma vez que Muddy teria, como afirma Filene, masterizado o culto da autenticidade, Wolf por sua vez estabeleceu-se como um artista de forma mais consistente.

Tal como na Chicago dos anos 1950, continua sendo impossível atribuir a apenas um o título de “Rei do Chicago Blues” que ambos reivindicavam, mas essa relação um tanto dialética entre os dois bluesmen nos revela diversas nuances úteis à análise histórica do período.