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2. O HUMANO, O ANIMAL E OS ELEMENTOS NATURAIS: TECIDOS PELO MESMO COURO

Rezo p’ra as almas, toda noite, e de manhã rezo pra mim...

Pego com Deus. A gente semos as criaçãozinhas dele, que nem as galinhas e os porcos...

“O recado do morro” – Corpo de baile

As muitas experiências, aprendizados e reflexões suscitadas pelas diversas pesquisas e viagens empreendidas por Guimarães Rosa pelo sertão mineiro lhe proporcionaram muitos estímulos e vasto material para ser trabalhado e incorporado aos processos de criação e desenvolvimento de sua obra. Entretanto, seu agudo crivo perceptivo para as constantes interações estabelecidas entres os seres humanos, os animais e o espaço sertanejo merecem destaque. Como salienta Meyer (2008, p. 128) com base nas cadernetas da viagem de 1952, “a visão que Guimarães Rosa tem dos elementos naturais abre a possibilidade de se olhar o humano integrado à natureza; os registros revelam uma proximidade entre o homem e as plantas, os bichos e as coisas”.

Essa perspectiva rosiana se fará presente, com grande recorrência, por toda sua literatura. Coutinho (2013, p. 27) também observa que na obra de Guimarães Rosa

“homem e natureza, longe de constituírem duas entidades distintas, frequentemente postas em conflito, são antes os dois lados de um todo integral que se complementam um ao outro”. Ao adentrar as veredas da literatura rosiana é perceptível que tais vínculos se constituem em interações constantes e que, longe de figurarem como eventuais abordagens esparsas ou circunstanciais, se configuram como elemento estrutural na composição de suas obras.

2.1 A construção dos personagens humanos com base em características animais

Com base no exposto no capítulo anterior, o vínculo de Guimarães Rosa desde muito cedo com o espaço rural e com os animais ali presentes despertaram a afetividade do autor com os animais. Assim, tanto as viagens ao sertão quanto as frequentes visitas a zoológicos e parques ressaltam a afinidade e tal aproximação tanto para fruição quanto para alimentar sua curiosidade e sede de conhecimento acerca dos mais refinados detalhes constituintes dos seres vivos e da natureza em geral.

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Seu interesse por animais, procurando ver o mundo como se fosse ele mesmo um bicho, que o levou a registrar suas visitas a zoológicos e aquários, sempre procurando descrevê-los em seus mínimos detalhes, compondo um verdadeiro “bestiário amoroso” – sobretudo seu notável interesse pelos bois. (COSTA, 2002, p. 72)53

Almejando captar as sutilezas do universo animal, as condições dos animais enquanto seres, suas percepções do mundo, seus costumes, seus movimentos, suas forças, seus tipos de pelagens, entre outras características, Guimarães Rosa os observa e estuda com minúcia54. Estas peculiaridades serão trabalhadas com muita destreza pelo escritor na elaboração de sua obra, utilizando-os, em especial, como recursos para a construção de seus personagens, estabelecendo também grande aproximação entre os personagens humanos e animais, chegando ao ponto de irmaná-los. Conforme Costa (2002, p. 109), “Rosa busca no boi o que busca nos vaqueiros: seu ‘esboçar-se de alma, seu ser, seus costumes obscuros’. Por isso o boi é [...] tantas vezes registrado em suas cadernetas de viagem. É o traço distintivo e via de acesso para a visão de mundo dos vaqueiros”. Assim, tais caracterizações das personagens humanas construídas com base em semelhanças e associações às atitudes animais, sejam físicas ou psicológicas, contribuirão como traços relevantes para a constituição de suas identidades.

Exemplificando a presença de tais aspectos em seus textos, em “Campo Geral”

isso é notado no momento em que Tomezinho esconde um pedaço de jornal:

“Tomezinho escondia tudo, fazia igual como os cachorros” (ROSA, 2010-a, p. 20). Em

“Buriti”, no instante em que Miguel percebe pela primeira vez a aproximação de Maria da Glória, ele comenta: “vi-a, a vulto, mas sentindo densamente sua presença, como um cão fareja” (ROSA, 2010-b, p. 338). O ato de farejar também está presente em diversas passagens de Grande Sertão: Veredas, como se evidencia no comentário de Riobaldo ao 53 Referente à afinidade e à admiração aos animais, são inúmeras suas anotações sobre os mais diversos aspectos deles em suas cadernetas, em diários, as quais ecoam em diversos de seus textos, com destaque para alguns que, publicados inicialmente em periódicos, mais tarde iriam compor a obra Ave, Palavra (1970): “Aquário (Berlim)” Cf. ROSA, 2001-b, p. 61-66; “Zoo (Whipsnade Park, Londres)” Cf. ROSA, 2001-b, p. 96-100; “Zoo (Rio, Quinta da Boa Vista)” Cf. ROSA, 2001-b, p. 133-134; “Zoo (Hagenbecks Tiepark, Hamburgo Stellingen)” Cf. ROSA, 2001-b, p. 163-169; “Aquário (Nápoles)” Cf. ROSA, 2001-b, p. 227-233; “Ao Pantanal” Cf. ROSA, 2001-b, p. 234-239; “Zoo (Hagenbecks Tiepark, Hamburgo Stellingen)” Cf. ROSA, 2001-b, p. 251-254; “Zoo (Jardin dês Plantes)” Cf. ROSA, 2001-b, p. 278-284;

“Zoo (Parc Zoologische du Bois de Vincennes)” Cf. ROSA, 2001-b, p. 318-322.

54 Existem diversas listas e anotações esparsas no acervo do autor no IEB-USP referentes a tipos de pelagem dos bois, tipos de chifre, posições que preferem dormir, beber água ou comer, entre muitas outras especificidades. Também é interessante destacar que durante a viagem realizada em 1952,

“Guimarães Rosa copia do caderno do vaqueiro Zito, o guieiro da boiada, 171 nomes de vaca. Este dado, aparentemente desnecessário, possibilita o leitor imaginar cada animal como único exemplar”. (MEYER, In. ROSA, 2011, p. 219).

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se deparar com a chegada dos homens de Joca Ramiro à fazenda de Selorico Mendes:

“admirei: tantas armas. Mas eles não eram caçadores. Ao que farejei: pé de guerra”.

(ROSA, 2001, p. 159). Esta característica animal também será atribuída ao chefe Zé Bebelo para destacar sua destreza: “cheirava até o ar. Sonso parecia um gato. Se vendo que, no inteiro mesmo de sua cabeça, ele antes tudo traçava e guerreava” (ROSA, 2001, p. 135). Durante uma batalha, “No entre o Condado e a Lontra”, enquanto seus companheiros rastejam para fugir dos tiros inimigos, o narrador descreve que “com as cabeças, farejavam; toda a vida!” (ROSA, 2001, p. 182). Em outra passagem, no momento em que, após ser insultado, Diadorim derruba o Fancho-Bode e coloca-lhe uma faca no pescoço, Riobaldo leva a mão ao revólver e destaca que, cientes do perigo gerado naquele momento de tensão, os outros jagunços “Farejaram pressentindo: como cachorro sabe” (ROSA, 2001, p. 212). Assim, nota-se que quanto mais próximo do perigo, mais esta percepção “animal” se intensifica. Quando Riobaldo se torna chefe, mantém o faro de Zé-Bebelo: “Até sem ter aviso nenhum, eu me havia do Hermógenes.

Pressentidos, todos os ventos eu farejava” (ROSA, 2001, p. 674). Nos momentos que antecedem o embate final contra os jagunços do Hermógenes, os chefiados por Riobaldo agem “igual a um gado – que vem num pasto novo, e anda e fareja, reconhecendo tudo, mas depois tudo aceita e então começa a resfeição” (ROSA, 2001, p. 710). Neste exemplo é interessante atentar à caracterização dos “homens-bois”

intensificada pelo trocadilho feito com o neologismo “resfeição”, que contém a ideia da refeição das reses, ou da feição de rês.

Marcas semelhantes ocorrem em “Uma estória de amor”, no momento que é descrita a chegada dos convidados à festa de Manuelzão: “apartavam-se em grupos.

Mas se reconheciam, se aceitando sem estranhice, feito diversos gados, quando encurralados de repente juntos. Todos queriam a festa” (ROSA, 2010-a, p. 175).

Manuelzão, dono da festa, assemelha-se aos bois tanto por sua força de trabalho quanto por sua alienação em relação à sua realidade social, condicionado e acomodado como eles: “nesta vida, se carece de esperar o costume, para o homem e para o boi.

Manuelzão era o das forças, não se queixava” (ROSA, 2010-a, p. 167). A força e a resistência do animal associadas aos personagens humanos também se presentificam em

“O recado do morro”, na caracterização de Pedro Orósio, conhecido como Pê-Boi por sua força adquirida pela lida diária, que possui pés com resistência semelhante aos cascos dos bois. Conforme descreve o narrador, descalço com seus “pés de sola grossa, experimentava-os firme em qualquer chão” (ROSA, 2010-b, p. 18).

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Em “Cara-de-Bronze”, tem-se a semelhança nas condições sociais entre os humanos e os bois na descrição do aprisionamento social vivenciado pelos vaqueiros nas terras do Urubuquaquá. O personagem Grivo, após as andanças em busca da

“poesia” para agradar o patrão, ao retornar à condição dos demais empregados comenta com eles: “Fui e voltei. [...] Estou aqui. Como vocês estão. Como esse gado – botado preso aí dentro do curral – jejúa, jejúa”. (ROSA, 2010-b, p. 271). O personagem Cara-de-Bronze, fazendeiro rico e triste, também é caracterizado por esse mesmo recurso:

“ruim como um boi quieto, que ainda não deu pra se conhecer…” (ROSA, 2010-b, p.

226).

Em relação ao texto “Buriti”, tais associações entre os humanos e os bois serão recorrentes, como se observa na caracterização de Iô Liodoro, dono das terras do Buriti Bom: “Iô Liodoro balançava a paciência pujante de um boi” (ROSA, 2010-b, p. 345).

Tal identificação também é notada no texto “Com o vaqueiro Mariano”: “a paciência, que é do boi, é do vaqueiro” (ROSA, 2013, p. 118), Retomando Buriti, neste texto, as associações humano-animais evidenciam-se também na descrição do momento em que Miguel retorna às terras da Grumixã e reencontra Gualberto, observando-o detalhadamente, “qual boi que olfateia outro” (ROSA, 2010-b, p. 500). Em relação ao personagem Irvino, filho de Iô Liodoro, o narrador define-o como “um estranho triste, feito um boi que se escorraça até ao curral” (ROSA, 2010-b, p. 444). Abandonada pelo marido, Lalinha é trazida por Iô Liodoro para morar nas terras do Buriti Bom e ali aguardar a volta do “boi escorraçado”, o que faz com que ela se sinta “como uma vaca permanecente nas pastagens – entre um tempo de-chuvas e outro tempo-de-chuvas – de verde a verde...” (ROSA, 2010-b, p. 439). Em outra passagem, Gualberto, dono das terras da Grumixã, para informar ao recém chegado Miguel de que era casado diz: “sou homem de poucos pastos” (ROSA, 2010-b, p. 331). Associação similar ocorre em “Uma estória de amor”, como quando Manuelzão deseja informar que não havia casado propositalmente, comenta que apenas “pegara o agrado de mulheres acontecidas, para o consumo do corpo: [...] eram gado sem marca” (ROSA, 2010-a, p. 205).

Tal recurso de caracterização também é identificado em “A estória de Lélio e Lina”, na passagem que a moça de Paracatu, paixão platônica de Lélio, é descrita como

“uma bezerrinha dos Gerais desmamada antes do mês…” (ROSA, 2010-a, p. 326), ela que ainda será referida como “uma ovelhinha de linda moça” (ROSA, 2010-a, p. 437).

Já a personagem Jiní, muito sedutora e que desperta muito desejo em Lélio, é caracterizada por suas sensuais “pernas de bom cavalo” (ROSA, 2010-a, p. 375).

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Manuela, outro dos amores de Lélio, “era de verdade bonita, sadía, com rentes olhos de vaca, e que brilhavam” (ROSA, 2010-a, p. 393). No primeiro encontro de Lélio com as

“Tias”, prostitutas da região, visando tranquilizá-lo Conceição lhe diz: “Aguenta, Bem, tem medo não: côice de égua não machuca cavalo…” (ROSA, 2010-a, p. 345). Na sequência, surpreendida pela potência sexual daquele macho, indica-o para Tomázia, a outra “Tia” do recinto, que, querendo conhecê-lo com calma, lhe diz: “descansas repousado, Bem, p’ra te acostumar com o lugar. Boi sempre estranha bebedouro novo…” (ROSA, 2010-a, p. 347). Também desejando aquele “bebedouro”, frequentemente aparecia nas redondezas do prostíbulo o menino Silirino que, por ser muito novo, tentava ao menos observar as mulheres. Ao percebê-lo por ali, Tomázia

“cresceu nos cascos: – ‘Puxa daí, crila, te vai p’ra casa! Tu é anta ainda com riscas brancas, cheirando a cueiro…” (ROSA, 2010-a, p. 350). A infantilidade do menino é sugerida pela associação ao filhote de anta, o qual, conforme cresce perde as riscas brancas. Assim, ainda “filhote”, não poderia saciar sua “sede” naqueles “bebedouros”.

O texto “Dão-Lalalão” mostra traços semelhantes nas referências aos frequentadores dos prostíbulos de “Montes Claros! Casas mesmo de luxo, já sabidas, os cabarés: um paraíso de Deus, o pasto e a aguada do boiadeiro” (ROSA, 2010-b, p. 117).

O mesmo recurso será empregado para a caracterização dos personagens deste texto como se percebe na descrição de uma prostituta jovem: “rapariguinha bonita, tão nova assim, e nem se dava ao respeito, tinha nôjo de nada, vinha trançando cócegas, afogo de bezerro buscando mãe” (ROSA, 2010-b, p. 123, grifo nosso). Os movimentos da moça assemelham-se aos do bezerro que busca a vaca por afago, ato infantil que associado à personagem cria uma identificação direta com a condição do animal. Tida então como uma bezerrinha que ainda nem fora desmamada, porém, o neologismo destacado sugere seu afago fogoso com os bois daquele pasto. Soropita, frequentador destes locais, também será tido como um boi a ser seduzido pelas novilhas daqueles pastos: “‘– Ô, entra, Bem. Chega aqui, me escolhe. Vem gozar a gente...’ Ele se chegava, delongo, com rodeio, meio no modo de um boi arriboso [...] ‘– Vem ver o escondido.

Exp’rimenta, que tu gosta: eu sou uma novilhinha mansa de curral” (ROSA, 2010-b, p.

118). Então, aceitava o convite para “pastar”. Porém, em uma das vezes esse boi

“afracara”. Achando que o problema era consigo, a mulher indaga-o: “‘– Tu pode me desprezar? A grama que burro não comer, não presta mesmo p’ra gado nenhum.’ [...]

Saíu desguardado, labasco, lá demorara menos que passarinho em árvore seca” (ROSA, 2010-b, p. 119-120). A escolha dos animais associados ao personagem é muito

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relevante, pois Soropita é identificado com um boi quando se deita com as mulheres e precisa ter sua força e virilidade destacada. No entanto, quando isso não ocorre e precisa partir rápido, é identificado como um frágil passarinho. Para evitar novos “imprevistos”

e demais problemas possíveis naqueles “pastos”, o personagem intenta laçar alguma daquelas moças dali e levar para seu curral. Se “encontrasse de todas a melhor, e tirava-a dtirava-ali, se eltirava-a gosttirava-asse, levtirava-ar, ctirava-astirava-ar, mesmo isso, se ptirava-artirava-a tirava-a poder gutirava-ardtirava-ar ttirava-anto preciso fosse – garupa e laço, certo a certo” (ROSA, 2010-b, p. 119). Então encontra Doralda, que o impressiona com “sua carinha bonita de cachorro” (ROSA, 2010-b, p. 171), por sua “onceira macieza nos movimentos” (ROSA, 2010-b, p. 116), uma “elegância de beleza: como a égua madrinha, total aos guizos, à frente de todas – andar tão ensinado de bonito, faceiro, chega a mostrar os cascos...” (ROSA, 2010-b, p. 112). Além de tais atributos, ainda descreve que “o cuspe dela, no beijar, tinha pepego, regosto bom, meio salobro, cheiro de focinho de bezerro” (ROSA, 2010-b, p. 105). Assim, arrebatado, leva-a consigo, fechando a porteira para o resto da boiada. Quando o personagem Soropita tem para si que Dalberto, amigo que acabara de reencontrar, poderia está-lo acompanhando até sua casa na intenção de rever Doralda, empaca repentinamente: “só o triz de um relance, se acendeu aquela ideia, de pancada, ele se debateu contra o pensamento, como boi em laço; como boi cai com tontura do cabelouro, porretado atrás do chifre” (ROSA, 2010-b, p. 152). Porém, ao chegar em casa e observar os gestos de ambos, percebe que sua desconfiança era descabida. No entanto, após ausentar-se por pouco tempo de perto deles, fica enciumado ao ver Doralda e Dalberto conversando a sós: “Ah, mal saíra por um instante, e a conveniência se atrapalhava, logo que ele não estava ali, de vigia que nem boi-touro querenciado em chão mexido, garantindo, com sua vontade de dono” (ROSA, 2010-b, p. 166). Para a descrição desse macho ameaçado será construída uma caracterização que o associa a um touro bravo: “ao então, um touro que está separando uma vaca no calor – simples se só desconfia de outro touro perto, parte de lá, urra, avançando para matar, com uma fúria definitiva do demônio... A próprio, competia?” (ROSA, 2010-b, p. 178).

Tal associação entre os humanos e os animais para caracterização da sexualidade também será recorrente em “Buriti”, texto que possui como uma das bases da estória a potência sexual de Iô-Liodoro, identificado como o “garanhão” da região, que “feito o boi-touro, quer novilhas brancas e malhadas...” (ROSA, 2010-b, p. 498). Devido à tamanha representatividade de tais aspectos nesse texto, eles serão analisados de modo pormenorizado no quarto capítulo.

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Assim sendo, com base nos vários exemplos elencados, utilizados para alcançar distintos efeitos nas caracterizações dos personagens com base nas atitudes e aspectos específicos dos animais, tais associações atuam como um recurso composicional do texto, de modo recorrente. Assim, caracterizam-se como elemento constituinte da estrutura formal dos textos, uma vez que, como destaca Adorno (1970, p. 166), em um texto literário, a forma “é em si mesma um conteúdo sedimentado”.

2.1.1 As relações afetivas entre os personagens humanos e animais

As relações de afinidade e afetividade entre os personagens humanos e animais também se configuram como traço recorrente na estruturação dos textos rosianos, mostrando certa relação com a perspectiva pela qual o escritor mineiro concebia o mundo a sua volta e como buscava relacionar-se com ele.

O vínculo com os animais é algo presente na vida do autor desde criança. Como salienta Paulo Rónai sobre o autor,

Através dos anos e não obstante a ausência, o ambiente que se abria para seus olhos de menino conservou sempre para ele suas cores frescas e mágicas. Nunca se rompeu a comunhão entre ele e a paisagem, os bichos e as plantas e toda aquela humanidade tosca em cujos espécimes ele amiúde se encarnava, partilhando com eles a sua angústia existencial. (RÓNAI, In. ROSA, 1985, p. 221)

Como o próprio Rosa relata em uma entrevista concedida a Pedro Bloch, em 1963, “Quando eu era menino [papai] me levava pra caçar com ele. Quando eu avistava caça, gritava por papai. Ele vinha correndo e a caça fugia. Um dia papai desconfiou que eu gritava de propósito para que ele não pudesse matar os bichos e nunca mais me levou”55. Esta afinidade com os animais que habitam o espaço sertanejo será diluída por toda sua produção literária.

Em “Campo Geral”, primeira estória de Corpo de Baile, é possível identificar tal apego aos animais como um traço decisivo na formação identitária do personagem Miguilim, que é criado no espaço rural em contato constante com a vida natural e que cresce gostando muito dos animais, com os quais estabelece fortes vínculos. Semelhante aos anseios do escritor quando criança, o personagem também sofre ao ver os animais

55 Cf. BLOCH, 1963.

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sendo maltrados e mortos. No texto isso é explanado com base nas frequentes caçadas aos tatus:

Tão gordotes, tão espertos – e estavam assim só para morrer, o povo ia acabar com todos? O tatu correndo sopressado dos cachorros, fazia aquele barulhinho com o casculho dele, as chapas arrepiadas, pobrezinho – quase um assovio. Ecô! – os cachorros mascaravam de um demônio. Tatu corria com o rabozinho levantado – abre que abria, cavouca o buraco e empruma suas escamas de uma só vez, entrando lá, tão depressa, tão depressa – e Miguilim ansiava para ver quando o tatu conseguia fugir a salvo. (ROSA, 2010-a, p. 28-29)

De modo análogo à apreensão do escritor nas caçadas do pai, Miguilim também fica na torcida para que os animais consigam fugir ilesos. No entanto, muitas vezes isso não ocorre, o que lhe gera muito sofrimento, como destaca a cena na qual ele observa seu pai matando um tatu-galinha: “Pai tirava a faca, punha a faca nele, chuchava. Ele chiava: Izuis, Izuis!... Estava morrendo, ainda estava fazendo barulho de unhas no chão, como quando entram em buraco”. (ROSA, 2010-a, p. 64). O menino não consegue entender tamanha frieza na dor e morte imposta com prazer aos animais:

mas por que é que os outros se praziam tão risonhos, doidavam, tão animados alegres, na hora de caçar à toa, de matar o tatú e os outros bichinhos desvalidos? Assim, com o gole disso, com aquela alegria avermelhada, era que o demônio precisava de gostar de produzir os sofrimentos da gente, nos infernos? (ROSA, 2010-a, p. 64).

Devido à indignação contra aquelas atitudes, “Miguilim inventava outra espécie de nôjo das pessôas grandes” (ROSA, 2010-a, p. 64). A aversão a essas condutas das pessoas que o cercam, em especial as de seu pai, também se mostra presente no que diz respeito às atitudes envolvendo sua estimada cadelinha chamada Pingo-de-Ouro,

uma cachorra bondosa e pertencida de ninguém, mas que gostava mais era dele mesmo. Quando ele se escondia no fundo da horta, para brincar sozinho, ela aparecia, sem atrapalhar, sem latir, ficava perto, parece que compreendia. Estava toda sempre magra, doente da saúde, diziam que ia ficando cega. Mas teve cachorrinhos. Todos morreram, menos um, que era tão lindo. Brincava com a mãe, nunca se tinha visto a Pingo-de-Ouro tão alegre. O cachorrinho era com-côr com a Pingo: os dois em amarelo e nhalvo, chovidinhos. Ele se esticava, rapava, com as patinhas para diante, arrancando terra mole preta e jogando longe, para trás, no pé da roseira, que nem quisesse tirar de dentro do chão aquele cheiro bom de chuva, de fundo. Depois, virava cambalhotas, rolava de costas, sentava-se para se sacudir, seus

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dentinhos brilhavam para muitas distâncias. Mordia a cara da mãe, e Pingo-de-Ouro se empinava ʊ o filho ficava pendurado no ar. Daí, corria, boquinha aberta, revinha, pulava na mãe, vinte vezes. Pingo-de-Ouro abocava um galho, ele corria, para tomar, latia bravinho, se

dentinhos brilhavam para muitas distâncias. Mordia a cara da mãe, e Pingo-de-Ouro se empinava ʊ o filho ficava pendurado no ar. Daí, corria, boquinha aberta, revinha, pulava na mãe, vinte vezes. Pingo-de-Ouro abocava um galho, ele corria, para tomar, latia bravinho, se

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