O que se segue na narrativa de Herculano é subsidiário da proliferação de relatos sobre episódios das guerras peninsulares ditas "santas". Deve o cavaleiro penitenciar-se por ter renunciado a persignar-se durante anos. Aquele que sentiu horror e desgosto pela morte do cão vai penitenciar-se matando mouros, anos a fio. Mas nos contos, tanto como nos mitos, nunca é inócua a desagregação do casal homem/fada. A separação implica a perda da harmonia familiar e a instabilidade no limiar do caos.
A libertação de D. Diogo Lopes do cárcere muçulmano só será possível por intermédio de um ser mágico, proporcionado pela Dama. É uma situação clássica nos contos maravilhosos 102. E, como também acontece noutros contos tradicionais, as condições que ela exige de Inigo Guerra irão renovar o pacto com o sobrenatural.
O paradoxo dessa passagem revela-se na atitude da Dama – aceitável do ponto de vista do "inverosímil", ingrediente que sabemos ser recorrente na trama dos contos. A Dama Pé-de-Cabra dispõe-se a libertar um cavaleiro cristão, prisioneiro de guerra nas prisões mouras. Isto faz o ouvinte (leitor) atento pôr em causa a lógica da filiação da Dama nas hostes do demo. A Dama, dando mostras de um genuíno sentimento "humanista", não parece guardar rancor ao cônjuge que a atraiçoou, quebrando o juramento e provocando o rompimento da unidade familiar. E no entanto, segundo as crenças da época, os mouros, "infiéis", aliados do diabo, seriam, obviamente, mais próximos da fada dos pés de cabra do que os implacáveis cristãos.
Não há explicação coerente, a não ser a que indubitavelmente nos autoriza a ler o conto de Herculano como "conto de fadas", onde o fluir dos acontecimentos obedece a uma ordem outra que não a do "verosímil". A par do orgulho de pertença a uma linhagem, a fada manifesta mais uma humaníssima qualidade melusiana, a do poderoso instinto maternal. O filho reincide, pois, no pacto com o sobrenatural, pedindo o auxílio da mãe para libertar o pai cativo dos mouros. A empreitada de resgatar o pai, só realizável mercê de intervenção sobrenatural ou mágica, acontece sob as instruções da mãe. É ao filho que ela presta socorro, livrando-o da angústia e do opróbrio face à derrota guerreira do pai e à sua impotência para reabilitar a linhagem masculina. Ela é também Baba Yaga, a feiticeira da floresta dos contos eslavos, fazendo dom de um
102 Cf. "Funções das personagens", in Vladimir PROPP, Morfologia do conto, Ed. Vega, Lisboa, 2000, pp.
cavalo mágico ao príncipe. Para levar a bom termo a missão de resgate do pai, ela oferece ao filho o auxílio de um animal mágico, o onagro Pardalo.
O cavaleiro regressa à prática religiosa de sua mãe. O filho, D. Inigo, nunca mais entrou na Igreja; partia para as guerras de Leão armado até aos dentes e montado num enorme onagro. No dia a dia, caçava na floresta, fechando o círculo.
O cenário histórico, a guerra dita "santa" contra os muçulmanos, funciona então como meio hostil que o descendente tem que enfrentar, como percurso iniciático para chegar à maturidade. O pai, duplamente culpado – por ter consumado núpcias exógamas e por ter rompido a promessa feita nos esponsais – é agora um guerreiro decaído, por via da expiação que lhe foi imposta. O auxílio vem por via matrilinear. Nada que os registos das linhagens não tenham claramente exemplificado, por toda a Europa medieval, em numerosas lendas exemplares. Por outro lado, comportamentos semelhantes das fadas (imortais, espíritos, deusas), humanizadas pelo enlace terreno, são tão comuns nos contos como a situação oposta, em que o herói ascende a semi-deus pela união com a deusa. Quanto às intervenções diabólicas incongruentes, contraditórias nas suas oscilações em redor do eixo do bem e do mal, são tantas e tão variadas nos contos tradicionais, que escapam a qualquer padronização e teriam que ser revisitadas caso a caso. É que as visões do diabo e suas representações inserem-se num universo de imagens e significados tão vastos, que cada enumeração não passa de uma tentativa de esboço. Poderíamos começar com a descrição que Santa Hildegarda faz do anjo antes da queda, Lúcifer no esplendor da beleza, paramentado de pedras preciosas, cintilando como o céu estrelado, "resplandecendo no fulgor de todos os seus ornamentos" 103. O diabo dos contos, porém, vemo-lo em incontáveis versões populares, é muitas vezes um pícaro errante, inconstante e imprevisível. Intromete-se nos assuntos humanos e ostenta uma maldade tão ingénua, uma inveja do Divino tão improfícua, que a tradição das narrativas populares não está isenta de condescendência, como se a sanha maniqueísta dos pregadores lhe angariasse uma certa fama desculpável de mau rapaz, "pobre diabo", tão perto dos desaires da vida que o torna mais familiar do que o Espírito Santo. E não é a cabra das brenhas mais pertença do povo do que as alvas pombas dos campanários?
103
Liber divinorum operum, PL 197, I, 4, 12-13, coll. 812-813, citado por Umberto ECO, in Arte e beleza na estética medieval, Ed. Presença, Lisboa, 1989, pp. 59-60. Cf. Liber Divinorum Operum, de Santa Hildegarda de BINGEN, introdução e tradução para inglês de Nathaniel M. Campbell, "The Catholic University of America Press", in http://www.hildegard-society.org/p/liber-divinorum- operum.html. Consulta em Julho 2016.
Figura 3.2
A cabra Heidrun pastando nos telhados da fortaleza Valhalla, morada de Odin. Segundo as crenças pré-cristãs do povo escandinavo, Heidrun (Heiðrún) a cabra de Odin, produz o hidromel de que o deus e os seus guerreiros se alimentam.
Fonte:
Icelandic manuscript by Ólafur Brynjúlfsson, 1760, Danish Royal Library, Copenhagen. (www.kb.dk/permalink/2006/manus/738/dan/99+recto). Acesso em 6-2016