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I Congresso Catarinense de História (1948)

O Instituto Polytechnico (1917) e a Faculdade de Direito (1932) contribuíram para o enriqueci- mento da vida intelectual catarinense, mas não menos importante foi o I Congresso Catarinense

de História (1948), evento organizado por Henrique Fontes, com a colaboração direta de Oswaldo

Cabral (secretário-geral), e que, inesperadamente, alcançou grande significado nacional e inter- nacional. Com efeito, intelectuais renomados compareceram ao congresso e as discussões permi- tiram o nascimento ou, pelo menos, fortaleceram substancialmente o “açorianismo” – i.e., linhas de pesquisa, publicações científicas e festividades que enaltecem o orgulho dos descendentes dos colonizadores oriundos das ilhas dos Açores. É Carlos Humberto Correa (1941-2010), ex-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, quem explicou a importância do congresso:

O evento foi organizado por Henrique da Silva Fontes, presidente do IHGSC, e Cabral auxiliou bastante na organização. A ideia inicial era a realização de um congresso para comemorar os 200 anos da imigração açoriana (1748-1948), nada além disso. Até então nada havia sobre o assunto e até mesmo Portugal desconhecia a importância da cultura açoriana em Santa Catarina. Não existia nenhum estudo sobre o assunto e os documentos eram raros ou inexistentes, pois os emigrantes quase todos eram analfabetos e chegaram ao Brasil com a cara e a

coragem... Fontes convidou pesquisadores do Brasil e de Portugal, dando oportuni- dade para a primeira discussão sobre a cultura açoriana e o modo de se estudar a história (CORREA, 2008; p. 56).

Cabral auxiliou na organização e emprestou a sua inteligência para o sucesso do evento. Ele apresentou duas contribuições que causaram boa impressão aos circunstantes: uma sobre os magis- trados que atuavam em SC, os juízes de fora, e outra sobre o fluxo migratório (Os açorianos – contribuição ao estudo do povoamento e da evolução econômica e social de Santa Catarina, Anais

do I Congresso de História Catarinense, II: 503-608, 1950); a longa contribuição foi transformada

em livro e marcou o surgimento de linhas de pesquisas e eventos comemorativos sobre a vinda dos açorianos ao nosso estado. Nos tempos atuais, muito se discute e até existe uma abundância de “especialistas” sobre o assunto, mas poucos têm conhecimento do valor das iniciativas de Fontes e a contribuição intelectual de Cabral para a germinação do açorianismo.

O sucesso do congresso engrandeceu a auto-estima dos intelectuais catarinenses e marcou o início de uma cooperação internacional. As discussões também alimentaram algo mais importante, isto é, o projeto de criação de uma Universidade em SC. Era um desejo antigo, ruminado desde os tempos de Fontes na direção da Faculdade de Direito e de sua ideia de criação do “quarteirão universitário”, mas indubitavelmente começou a se materializar a partir das discussões ocorridas no I Congresso de História Catarinense. Muitas universidades surgiram a partir da aglutinação de unidades já existentes, mas a legislação da época estabelecia que as universidades deveriam ter uma faculdade de filosofia, alma mater ou unidade responsável pela realização de pesquisas fundamentais. Era o modelo europeu que havia inspirado a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (1934) e que, por seu turno, veio a inspirar as demais universidades federais ou estaduais, que se instalaram no país.

Santa Catarina não possuía nenhuma instituição equivalente e, assim sendo, Fontes e demais lideranças intelectuais entenderam que seria necessário a criação de uma faculdade de filosofia para a concretização do sonho universitário. É elucidativo o depoimento de um antigo colabora- dor da UFSC:

Todos nós sabemos que a instalação da Faculdade de Filosofia era um passo obrigatório para a criação de uma universidade; era parte da legislação federal tal requisito nos anos 1930. Todas as universidades foram criadas de acordo com a legislação, como ocorreu com a Universidade de São Paulo e a UFRJ; elas tiveram que seguir a legislação e recorreram aos professores estrangeiros para compor os quadros. A pesquisa pura era realizada na Faculdade de Filosofia, diferentemente das outras unidades que eram mais voltadas para a pesquisa aplicada ou tecno- lógica. Em São Paulo, por exemplo, a geologia era praticada na Escola Politécnica, mas a geologia pura era encontrada nos cursos de História Natural da Faculdade de Filosofia (MAMIGONIAN, 2011; p. 54).

As universidades só ganham vida com as investigações científicas, mas persistem algumas indagações: qual é a ligação de uma Faculdade de Filosofia com as ciências naturais? O que é uma “ciência natural”? O exame de alguns arcaísmos da vida acadêmica ajuda a entender melhor o assunto. As universidades medievais eram locais onde ocorriam debates e discussões, os quais ti- nham como objetivo o aprimoramento do cristianismo e a delimitação entre fé e razão. A palavra Filosofia tinha amplo significado ou apenas indicava o “amor ao conhecimento”, a motivação que conduzia às explorações naturalísticas e experimentações científicas.

Em Portugal, a criação das faculdades de filosofia representou uma notável mudança no ine- ficiente (catastrófico, melhor dizendo) sistema de ensino superior. O país estava em decadência e a lideranças intelectuais entendiam que o processo seria interrompido a partir de amplas reformas; a intenção era permitir o fortalecimento da “mentalidade filosófica”. Uma tentativa importante foi

a reforma promovida pelo Marques de Pombal (1772), a qual modificou a estrutura de funciona- mento da Universidade de Coimbra, principalmente no que diz respeito à valorização do ensino de ciências naturais e das ciências físico-químicas, ministrado no que veio a se chamar Faculdade de Filosofia (AZEVEDO, 1950; FERNANDES, 1978; CARVALHO, 1987).

É importante lembrar que filosofia natural era uma designação aplicada a vários campos do conhecimento (e.g., geologia, química, zoologia, botânica e astronomia) e as publicações científicas eram escritas como se fossem obras literárias; o latim era o idioma da ciência e os textos vinham com perguntas e respostas – às vezes, o autor recorria a um interlocutor imaginário para obter certo ordenamento lógico ao texto. Os estudiosos que se envolviam nesses assuntos e que se saiam bem nas arguições orais ganhavam o título de Philosophiae doctor (PhD). Como era realizado o ensino nessas unidades? Ele era conduzido de modo bastante artezanal, as pesquisas de campo (“viagens filosóficas”) eram valorizadas e os professores não contavam com as comodidades da vida moderna – processadores de textos, bancos de dados online e registros informatizados não existiam sequer na imaginação!