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3. IDENTIDADE, DISCURSO E RECONHECIMENTO

3.3. I DENTIDADE E R ECONHECIMENTO

A falsa ilusão do conhecimento que se pretende objetivo, ao afastar-se dos afetos, é denunciada como o intelecto que sacrifica a si mesmo. O conhecimento do objeto implica necessariamente o reconhecimento da subjetividade inerente ao conhecer. O próprio ato básico da percepção já é subjetivo. Em sua complexidade, contém a interação entre as diversas faculdades do conhecimento: “as faculdades, elas mesmas desenvolvidas através da interação, atrofiam-se quando são dissociadas umas das outras” (ADORNO, 1993 [1951], p. 79, apud BARROS, 2018, grifos da autora).

Nas origens dos estudos críticos, que buscavam uma correlação entre as estruturas do capitalismo e o bloqueio da emancipação humana, temos a Teoria Crítica da Sociedade, nascida no interior do Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt no início do séc. XX. A tarefa da filosofia social passaria a ser a construção de uma perspectiva ética acerca da autorrealização individual, que nasce com Rousseau, Hegel, Marx, etc. Trata-se de uma ética formal e não substantiva. Apontam-se questões centrais: quais seriam as condições sociais para o estabelecimento de uma vida boa para todos e quais são as barreiras para que isso se efetive? A teoria crítica partirá de uma abordagem negativa, tendo o diagnóstico social como método, e elegendo as patologias sociais que indicarão em relação à vida social o que o conceito de patologia indica em relação ao psiquismo individual. O grande desafio assumido foi de sair das explicações que se baseavam em uma natureza humana, ou seja, entender as patologias sociais a partir dos valores historicamente dados e dos ideais de vida compartilhados.

Assim, a teoria crítica se difere da tradicional por meio de um diagnóstico de seu tempo e uma perspectiva de emancipação (HORKHEIMER, 1980). A grande base será hegeliana, em sua perspectiva de que ser e dever estão juntos, e, portanto, teoria e prática não podem ser construídas de maneira desvencilhada. A própria filosofia seria uma maneira de apreender a época por meio do pensamento, estando ela condicionada ao seu momento histórico. Nesse sentido, as condições e as barreiras para emancipação estão contidas na própria sociedade, e, o diagnóstico social é o método para revelá-las. As quatro gerações da Teoria Crítica da Sociedade sempre fizeram uso da psicanálise para construção dos diagnósticos, desde Adorno e Horkheimer a partir da ideologia ou da alienação, com a questão do porquê as pessoas aderem à ordem vigente quando essa ordem lhes é profundamente prejudicial, atravessando Habermas que a usa como base para seu modelo metodológico da ação comunicativa, até Honneth, que base das perspectivas winnicotianas para pensar o reconhecimento.

Axel Honneth se tornou diretor do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt em 2001.

Apesar de ser reconhecido como uma terceira geração da escola, em escritos mais recentes, o autor tem retomado algumas das noções adornianas já associadas à importância e primazia do reconhecimento. Honneth (2009) retoma as noções de direito de Hegel, a teoria da “relação de objeto” de Winnicott, a ética comunicativa de Habermas e a psicologia social de Mead para afirmar que os indivíduos e os grupos sociais formam sua identidade e se organizam a partir do reconhecimento intersubjetivo. Para ele a base da interação é o conflito e sua gramática, a luta por reconhecimento. O conflito seria estruturante da intersubjetividade, e seria ele que originaria as forças políticas e sociais que provocam as transformações do sistema. O conflito seria o motor da luta social. Quando falamos de luta social em Honneth não estamos nos referindo a uma luta voltada à autoconservação, a luta tem origem em experiências de desrespeito e ataque a alguma das esferas do reconhecimento. Assim, há um caráter normativo em toda luta social, uma expectativa moral que impulsiona o desenvolvimento social.

Partindo desde a esfera do amor, passando pela do direito e chegando finalmente na da solidariedade, o autor acredita que nos constituímos a partir do reconhecimento e do olhar do Outro. A passagem por essas esferas se organiza como uma passagem progressiva, uma

“evolução social”: para cada forma de reconhecimento (amor, direito e solidariedade) há uma autorrelação prática do sujeito que vai se criando: autoconfiança nas relações amorosas e de amizade, autorrespeito nas relações jurídicas e autoestima na comunidade social de valores.

Todas essas autorrelações estão atreladas a expectativas normativas morais, e, na medida em que essas expectativas sofrem uma ruptura através de uma experiência de

desrespeito, tem origem os conflitos e a luta social. Assim, quando não há reconhecimento, ou por alguma razão ele se revela falso, constitui-se uma luta que visa exatamente o estabelecimento ou reestabelecimento do reconhecimento. Há uma concepção de reconhecimento que se traduz bem pela expressão ser-consigo-mesmo-no-outro (ou “intuição recíproca”) que alcança como dimensão máxima a esfera da solidariedade.

Para Honneth essas autorrelações práticas são condições para que um indivíduo conduza sua vida autonomamente. Se não existem relações legalmente institucionalizadas de respeito universal pela autonomia e pela dignidade das pessoas, se não há relações próximas de amor e amizade, ou se não existem redes de solidariedade e de valores compartilhados, o indivíduo não encontra as bases de reconhecimento intersubjetivo que o permitem perseguir sua própria concepção sobre a vida digna de valor (HONNETH e ANDERSON, 2011). E é importante ressaltar que esse reconhecimento não é uma crença sobre si ou um simples estado emocional, ele se estabelece nesse processo dinâmico nessas diversas esferas da vida, nas quais os indivíduos experienciam a si mesmos como possuidores de certo status, como objeto de preocupação, e como agentes responsáveis dentro de projetos compartilhados.

Ann Mische (1997) também desenvolve um conceito de identidade como construção intersubjetiva, não estática. Ela enfatiza que tal construção ocorre no interior das redes sociais em que os indivíduos se inserem. Seu movimento de “fixar-se”, mesmo que temporariamente, está ligado aos círculos de reconhecimento envolvidos. Na contramão de uma visão substancialista e estática, Mische propõe uma re-elaboração do conceito de identidade a partir de três dimensões: a) identidade como reconhecimento, b) identidade como experimentação e c) identidade como orientação. Nos interessa, principalmente, a primeira das dimensões, a qual vai ao encontro de Alberto Melucci quando afirma que: “a identidade contém uma tensão irresolvida e irresolvível entre a definição que temos de nós mesmos e o reconhecimento dado pelos outros (MELUCCI, 2004, p. 48)”.

As relações de reconhecimento e sua relação com as identidades também serão objetos de análise da presente pesquisa, tanto em sua permanência quanto em seu rompimento. Mas, conforme veremos no próximo tópico, a existência de uma racionalidade neoliberal, faz com que, mesmo os processos de reconhecimento sofram a influência das leis de mercado, e, nesse sentido, possam também operar como normas regulatórias. Tal questão será diretamente explorada no item 4.4 da presente dissertação.