Trata o presente de consulta ao Conselho Municipal de Educação sobre a possibilidade de as entidades conveniadas com o Município de São Bernardo do Campo abordarem, em seus Projetos Políticos Pedagógicos (PPP), o conceito de educação espiritual.
O Conselho Municipal de Educação realizou estudos acerca do assunto ora tratado, incluindo a legislação brasileira específica e consulta a professores especialistas, para a emissão do parecer em questão.
Cabe ressaltar que Constituição Federal, em seu art. 19, dispõe:
Ait. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com cies ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SAO BERNARDO DO CAMPO
Apesar desta definição, há também no texto constitucional, no art. 19, a regulamentação sobre o ensino religioso nas escolas de ensino fundamental, sendo a matrícula facultativa ao aluno:
Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. § Io - O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.
Verifica-se que a próprio texto constitucional contrapõe-se, denotando a complexidade do tema e o quanto este deve ser debatido pela sociedade a partir dos princípios da igualdade dos direitos, do respeito às diferenças e da multiplicidade religiosa que compõe a sociedade brasileira.
A Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), no caput do art. 33, em consonância com a Constituição, regulamenta o ensino religioso nas escolas públicas afirmando sua oferta e facultando a matrícula, conforme segue:
Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. (g.n)
A Educação Infantil, portanto, não está incluída na regulamentação do ensino religioso. A legislação parte do princípio da capacidade de discernimento dos alunos do ensino fundamental, da capacidade de não se sentirem influenciados ou coagidos por esta ou aquela crença, fato este que pode não ocorrer quando se trata da Educação Infantil.
O Projeto Político e Pedagógico das escolas vinculadas diretamente à Rede Municipal de Ensino e das escolas indiretamente vinculadas, como é o caso das conveniadas, está regulamentado no "Regimento Escolar Único para as Escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental", conforme dispõe o art. 64:
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO
Art. 64. 0 Projeto Pedagógico Educacional é o documento que. traça o perfil da escola, conferindo-lhe identidade própria, na medida em que contempla as intenções comuns de todos os envolvidos, norteia o gerenciamento das ações intra-escolares e operacionaliza a proposta pedagógica.
O Projeto Político Pedagógico constitui-se, portanto, em documento referência das escolas, conferindo-lhes identidade própria e norteando todas as ações no âmbito escolar. Este documento, fruto do trabalho de muitas mãos, incluindo a equipe escolar, os pais e os alunos, consolida as concepções sobre o desenvolvimento infantil, sobre as práticas pedagógicas, sobre a relação da escola com a comunidade e as relações no próprio ambiente escolar.
Trata-se do principal documento da escola. Sua elaboração baseia-se em referências de âmbito legal, como a LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e a legislação específica do município, como o Regimento escolar único para as escolas de Educação Infantil e ensino fundamental, além de diversas publicações da Secretaria dc Educação como o "Suleando" - Parâmetros Norteadores da Rede Municipal de Ensino de São Bernardo. Salienta-se, em todos esses documentos, a importância de uma educação laica, pois o princípio da laicidade nos espaços públicos implica no respeito a todos os credos religiosos.
Quando o PPP não aponta nenhuma vertente religiosa, quando este documento não possui nenhum termo específico carregado de sentido religioso, quando este não infringe nenhuma crença, o PPP permite a coexistência de muitas crenças no espaço escolar. Este é o princípio fundamental: garantir que os alunos e alunas, jovens e adultos pertencentes a um contexto social marcado pela multiplicidade de credos ou, ainda que as pessoas que não possuem nenhum credo religioso sintam-se respeitados e acolhidos nos espaços públicos, principalmente na escola, espaço de convivência por excelência.
Assim sendo, as escolas de Educação Infantil, da rede direta ou indireta, como as creches conveniadas, respeitados os preceitos constitucionais e os princípios que norteiam o pleno desenvolvimento da infância, como o direito de se expressar utilizando as diversas linguagens, de explorar o mundo, de construir conhecimentos por meio da construção e
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO
ressignificação das suas próprias hipóteses, não podem ter incluída no bojo do seu PPP nenhuma palavra com sentido ou intenção religiosa.
A laicidade não se constitui como hostilidade à religião. Ao contrário disto:
A laicidade é a devolução da potência pública a todos, sem distinção. Repousa sobre dois princípios essenciais: liberdade radical de consciência, e igualdade, em todos os pontos de vista, dos cidadãos: jurídica, simbólica e espiritual. (Henri Peña-Ruiz)
II - DA CONCLUSÃO
A neutralidade religiosa não significa uma educação ausente de valores, a educação deve assentar-se numa diretriz ético-filosófica de valores, fundamentada nos direitos mais essenciais do ser humano: a liberdade e a igualdade de direitos, de escolhas. A educação infantil deve construir-se a partir dessas diretrizes, conferindo ao ato pedagógico a marca do respeito às diferenças, da convivência em grupos multiculturais, multirraciais e multirreligiosos, característicos da sociedade brasileira, constituídas a partir das diferentes raças e dos diferentes crenças religiosas.
O Projeto Político e Pedagógico, sendo o documento referência das unidades escolares da rede direta e indireta, não pode conter a intenção ou a alusão à educação religiosa, ou espiritual, ou possuir termos de cunho religioso, pois a educação religiosa compete às famílias, cabendo a escola o desenvolvimento dos valores éticos e estéticos necessários à construção de uma sociedade justa, fraterna e igualitária, baseada na justiça social.
São Bernardo do Campo, 23 de dezembro de 2011.
MAÍLA APARECIDA FERREIRA BORGES