3. GUERRA, RADICALIZAÇÃO E MEMÓRIAS
4.1. WHY I JOINED THE ILP : ORWELL NA EXTREMA ESQUERDA
Nos anos que antecederam a 2ª Guerra Mundial, Orwell se aproximou do Independent Labour Party (ILP), único partido ao qual o autor se vinculou. O ILP,
criado em 1893, teve considerável influência política na Grã-Bretanha dos anos de
1920 sob liderança de James Maxton,528 A. J. Cook529 e Oswald Mosley530. Depois
disso, viveu um declínio devido a sua desarticulação do Labour Party em 1932, ao qual foi filiado. Deste ponto em diante o ILP seguiu um caminho muito próximo do trotskismo. No período em que Orwell se uniu ao ILP o ponto mais saliente do programa do partido era sua oposição à estratégia de uma Frente Popular organizada pelo Communist Party of Great Britain (CPGB), pois, uma vez que o fascismo era compreendido como uma consequência natural do declínio do capitalismo, a única escapatória a este seria o estabelecimento de uma sociedade socialista. Deste modo, não havia sentido em construir uma aliança temporária com social democratas, liberais e conservadores progressistas, os quais desejavam manter o sistema capitalista. Em extremo, no partido havia o posicionamento de que o socialismo deveria se opor aos poderes fascistas que entrariam em guerra por suas pretensões imperialistas, de modo que o ILP deveria se opor à 2ª Guerra Mundial. Orwell foi leal às linhas do ILP, partilhando e defendendo estes mesmos
posicionamentos no ensaio Why I Join the Independent Labour Party, publicado em
junho de 1938 pelo New Leader — jornal do ILP — assim como em outros textos da
época, como Political Reflections on the Crisis (dezembro 1938) e Not Counting
Niggers (julho 1939)531.
528 Líder político escocês da ala de extrema esquerda do ILP, foi visto pelo partido como símbolo por muito tempo devido ao seu rompimento com o Labour Party. Como pacifista, Maxton se opôs às duas guerras mundiais. Ficou conhecido pela sua participação na Red Clayside, período de radicalismo político em Glasgow entre 1910 e 1930, que contou com forte manifestação de posicionamentos e greves, sendo uma importante época para todo o movimento trabalhista britânico.
529 Líder sindicalista britânico da Miners’ Federation of Great Britain entre 1924 e 1931, cobrindo o período da greve geral de. Apesar de membro do ILP desde muito jovem, Cook era muito próximo ao CPGB desde sua formação em 1920, tendo atuado com o National Minority Movement entre 1924 e 1929. O objetivo deste movimento era organizar e aumentar a presença do CPGB nos sindicatos existentes, aumentar o número dos trabalhadores de esquerda e aproximar estas organizações das políticas do Comintern.
530 Oswald Mosley foi um dos principais líderes fascistas da Grã-Bretanha. Entre 1918 e 1922 este foi filiado ao Conservative Party e foi eleito ao Parlamento pelo condado de Harrow, durante seu período no Parlamento deixou o partido e se uniu ao ILP, de quem foi filiado entre 1922 e 1924, saindo deste para se unir ao Labour Party (1924-1931), pelo qual foi representante no parlamento de Smethwick, em seguida criando o New Party, e o British Union of Fascists, em que atuou entre 1932 e 1940. Depois do partido ser banido em 1940, Mosley retornou ao ILP ao que foi filiado até 1948, quando criou o Union Movement, partido de extrema-direita em que Mosley atuou até 1973, sete anos antes de sua morte aos 84 anos.
Diversos eram os laços que aproximavam Orwell do partido, desde seu
vínculo com o The Adelphi, logo, com Richard Rees e Max Plowman, até sua
militância no POUM e conexão com Secker and Warburg. Mesmo a livraria em que
Orwell trabalhou era propriedade de filiados ao ILP, de modo que sua filiação resultou de uma cadeia de relações pessoais e intelectuais somadas à suas idéias já heterodoxas que o afastaram do CPGB e, consecutivamente, do PSUC. Antes de lutar na Guerra Civil Espanhola como poumista, ainda que de modo muito vago, os
posicionamentos socialistas de Orwell já eram desalinhados, como visto em The
Road to Wigan Pier. Contudo, a radicalização resultante de sua experiência como
militante do POUM foi definidora na sua aproximação com a extrema esquerda e o ILP.
O ensaio intitulado Why I Join the I.L.P., publicado no New Leader em 24 de
junho de 1938, anunciou a decisão do autor de se unir ao partido, marcando a radicalização de Orwell. O propósito deste texto não era divulgar as ideias do ILP, mas sim oficializar e registrar a ligação do autor com um partido marcado como trotskista pelos comunistas. Portanto, clamar filiação significava assumir inimizades. A associação de Orwell com o ILP não só lhe abria espaços de luta política e o alinhava a um grupo, mas ressaltava sua radicalização, assim como sua alcunha de trotskista532.
Em termos de influência política, o ILP tinha pouca; após seu desligamento do Labour Party, o número de seus membros caiu de 16 mil para menos de 5 mil em 1934. Na eleição geral (em que são votados os deputados para compor a Câmara dos Comuns) de 1935 o partido conseguiu apenas 0,7% dos votos. Dos 600 assentos disponíveis, o ILP conseguiu 4. Ainda assim, Orwell abraçou ideias do partido até a chegada da 2ª Guerra Mundial, defendendo que a guerra se tratava de um conjunto de países imperialistas competindo e por isso era preciso resistir a ela,
afinal só a revolução seria capaz de destruir o fascismo533.
No ensaio Why I joined the Independent Labour Party, o escritor argumentou
que todos já haviam visto o que havia acontecido com a liberdade de expressão na Itália e Alemanha, e o mesmo ocorreria, cedo ou tarde, à Inglaterra:
532 MARKS, op. cit., p. 69. 533 MARKS, loc. cit.
O tempo está chegando — não ano que vem, talvez não por dez ou vinte anos, mas está chegando — em que todo escritor terá de escolher entre ser silenciado ou escrever a droga que algum milionário privilegiado demanda [...]. Eu tenho que lutar contra isso, assim como tenho que lutar contra óleo de rícino, cassetetes de borracha e campos de concentração. E o único regime que, a longo prazo, ousará permitir liberdade de expressão será o regime socialista534.
Tais passagens apontam não só a crença de Orwell no partido e a concordância entre as ideias de ambos, mas também um envolvimento apaixonado com uma identidade ativista socialista, a qual apareceu em muitos escritos do autor e nos próprios conflitos que criou. O texto de Orwell apresentou uma tensão entre a certeza e incerteza acerca do futuro, a crise iminente gerava uma expectativa
sombria e pesada sobre o autor, para quem restava a luta política organizada535.
No texto, ele afirmou “Se o fascismo vencer eu estou acabado como escritor
— o que significa acabado na única capacidade efetiva que tenho. Só isso já seria
motivo o bastante para me unir a um partido socialista”536. Mas mais que isso, o
ensaísta desejava que a realidade britânica democrática também mudasse. O autor conta que esteve em Burma e viu o império britânico trabalhar lá, assim como viu os efeitos da pobreza e do desemprego na própria Grã-Bretanha. Devido a essas injustiças, Blair já lutava contra o sistema capitalista, principalmente através da
escrita de livros, os quais “esperei que influenciassem o público leitor. Eu devo
continuar a fazer isso, claro, mas num momento como esse escrever livros não é suficiente. Deve-se ser ativamente socialista, não simplesmente simpático ao
socialismo, para lutar contra os inimigos sempre ativos”537. Após a vivência da
534 “The time is coming - not next year, perhaps not for ten or twenty, but it is coming - when every writer will have the choice of being silenced altogether or of producing the dope that a privileged millionaire demands.[...] I have got to struggle against that, just as I have got to struggle against castor il, rubber truncheons and concentrations camps. And the only régime which, in the long run, will dare to permit freedom of speech is a socialist régime.” (tradução nossa, ORWELL; ANGUS, 1968a, p. 337)
535 MARKS, op. cit., p. 60.
536“If fascism triumphs I am finished as a writer - that is to say, finished in my only effective capacity. That of itself, would be a sufficient reason to join a Socialist party.” (tradução nossa, ORWELL; ANGUS, 1968a, p. 337)
537“I hoped would influence the reading public. I shall continue to do that, of course, but at a moment like the present writing books is not enough. [...] One got to be actively a socialist, not merely sympathetic to socialism, or one plays into the hands of always active enemies.” (tradução nossa, ORWELL; ANGUS, 1968a, p. 337)
Espanha, Orwell passou a se comprometer com a luta física, não mais
exclusivamente textual538.
Mas, dentre os partidos socialistas, por que o ILP? A esta pergunta o escritor responde dizendo que era o único partido que, excetuando partidos pequenos, objetivava algo que ele chamaria por socialismo: ou seja, o ILP tem em suas linhas
muito do que Orwell iria chamar de socialismo democrático anos depois539. Além
disso, para o escritor o ILP era o único que provavelmente “tomaria posição certa
contra a guerra imperialista e contra o fascismo quando este aparecer na forma
britânica”540.
Além disso, Orwell lutou na Espanha nas fileiras do POUM, vinculado ao ILP,
“A coisa que vi na Espanha e trouxe para casa comigo foi o perigo fatal do
‘antifascismo’ negativo. [...] eu percebi que o ILP era o único partido ao qual eu tinha
vontade de me unir”541. Na Guerra Civil Espanhola, Orwell lutou ao lado dos
socialistas que, juntamente com os anarquistas, seriam perseguidos como traidores trotskistas pelos comunistas e liberais, principalmente porque os socialistas e anarquistas não pretendiam criar uma sociedade burguesa ao final do conflito com o fascismo, mas miravam a revolução. Essa experiência foi definidora do socialismo antistalinista de Orwell, de maneira que, sendo o ILP associado ao POUM, nada
seria mais lógico para o autor do que se unir ao partido542. Nos anos que
antecederam a 2ª Guerra Mundial, o autor foi bastante leal às políticas do partido. Contudo, com a chegada do conflito na Inglaterra, o patriota que o habitava despertou, afastando-o dessas políticas, embora não quebrando por completo seu laço com o partido.