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i) Mercado de produtos e mercado de factores

No documento Introdução à Economia (versão original) (páginas 40-43)

Em rigor, existem dois tipos distintos de mercado numa «economia de mercado»: o mercado de produtos, isto é, de bens e serviços, e o mercado de factores produtivos. Bens e serviços são os produtos finais da actividade económica organizada, os «outputs» directamente empregues na

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satisfação de necessidades; os factores de produção são também, por sua vez, bens e serviços, mas agora apreciados e empregues no ponto inicial de um ciclo de actividade económica, consistindo especificamente nos «inputs» de terra - os factores naturais e as matérias primas -, trabalho e capital que as empresas coordenam e optimizam, recorrendo a um grau qualquer de sofisticação tecnológica, tendo em vista a obtenção dos meios que directamente satisfaçam necessidades dos utentes e consumidores razão pela qual se pode dizer que o mercado de factores é instrumental, e

que o mercado de produtos é, em relação àquele, o mercado final. Entre os dois tipos de mercados geram-se nexos que de certo modo podem ser configurados como um fluxo circular de produtos e de factores, e um contrafluxo de pagamentos, entre consumidores e produtores:

a) no mercado dos produtos, os indivíduos ou as famílias - as unidades básicas de economia comum entre indivíduos, a sede em que são tomadas as decisões básicas de trabalho, despesa, poupança e investimento - são normalmente os consumidores, e os produtores ou as empresas são os fornecedores; os primeiros Pagam por aquilo que adquirem, os segundos recebem os

pagamentos monetários correspondentes ao valor de mercado daquilo que fornecem. Ainda que ocasionalmente surjam empresas na posição de consumidoras de produtos de outras empresas, isso não altera o facto de estarmos perante um mercado de bens e serviços. É neste mercado que as famílias concentram as suas despesas, e é nele que as empresas obtêm o seu rendimento; b) no mercado de factores produtivos, os indivíduos e as famílias passam a Ocupar a posição de fornecedores - de trabalho, de factores naturais, de capitais -, e as empresas a posição de utentes. Neste mercado, são as empresas que pagam, e os indivíduos e as famílias recebem a’remuneraçao correspondente ao valor dos factores de produção que Colocam no mercado à disposição daquelas; é neste mercado que as famílias obtêm o seu rendimento, que gastarão no mercado de bens e serviços, e é nele que as empresas concentram as suas despesas, pagando remunerações aos factores, gastando o que ganharam no mercado dos produtos. A perturbar a perfeita simetria e a direcção do fluxo circular, consideremos que alguns dos fundos aforrados e que nonnalmente seriam canalizados para o investimento em empre-

sas podem voltar atrás e regressar às mãos de indivíduos e fainílias sob forma de crédito ao consumo (falaremos adiante de outras perturbações similares).

Em suma, as famílias são fornecedoras de factores de produção e consumidoras de bens e serviços - recebendo por aqueles, pagando por estes -, as empresas são produtoras de bens e serviços e utentes de factores de produção - igualmente recebendo por aqueles e pagando por estes -; o que umas ganham é o que as outras gastam, e por isso o rendimento total, o total das receitas, não pode deixar de ser equivalente à despesa total, ao total dos gastos, significando isso que nada há a ganhar se ninguém estiver disposto a despender, e não é possível ganhar-se através das trocas mais do que aquilo que é gasto nelas.

LJ) A intervenção do Estado nos mercados

Todas as vantagens que apontámos à economia de mercado não chegam para ocultar o facto de o funcionamento do mercado também vir

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acompanhado das suas proprias, ineficiências e injustiças - a detecção das quais poderá justificar a intervenção do Estado, agora já não para planificar ou dirigir, mas apenas para emendar as «falhas de mercado», designação que abarca todo o tipo de perdas de eficiência resultantes do

funcionamento espontâneo do mercado. Esse objectivo do Estado poderá agora alcançar-se sem que ele tenha a necessidade de se colocar numa posição de proeminência, bastando-lhe

frequentemente entrar no propno jogo de mercado munido do seu peso económico e dos seus meios complexos de actuação.

Esta actuação do Estado poderá exprimir-se com uma amplitude muito variada, oscilando entre o extremo da planificação minuciosa de todas as facetas e implicações da afectação de recursos até à simples atitude subsidiária de produção de bens públicos, aqueles que os mercados não produzem, ou não produzem em quantidades minimamente próximas do nível socialmente desejável. Note-se que essa amplitude se prende também com a gênese histórica do Estado moderno: é que muitas das decisões colectivas de que dependiam e dependem a eficiência e a justiça das soluções económicas eram ditadas pela tradição, sendo que a evolução das solicitações políticas e das respostas

ideológicas é que determinou

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em larga medida o recurso a formas mais explícitas deliberadas e estruturadas de reacção, formas mais pensadas e processualizadas, do que as difusamente consagradas na tradição. Essa

afirmação do Estado por sobre formas inorgânicas e tradicionais de actividade económica, mas alicerçada nos automatismos e nas virtualidades mecânicas do mercado, teve sucessos muito desiguais em diversas épocas, países, regiões, e sectores produtivos - bastando lembrarmos os tão

expressivos avanços e recuos que, ao menos em termos de legitimação, se verificaram quanto ao protagonismo económico do Estado na segunda metade do século XX.

Pode dizer-se que a intervenção estadual no funcionamento dos mercados pode assentar em qualquer de três razões gerais:

a) a pura e simples ignorância das leis económicas, o desconhecimento dos requisitos e implicações da atitude intervencionista que veremos ilustrada em muitas das intervenções nos preços,

reclamadas por pessoas ou grupos que querem «almoços grátis», ou que querem resolver o problema da escassez à força de leis, provocando uma simples deslocação e agravamento dos problemas, por exemplo conseguindo abaixamentos de preços para uns à custa da carência absoluta de todos os demais;

b) o imperativo de eficiência, que abre espaço à rectificação de falhas verificadas nos mercados dos produtos e dos factores, sejam falhas que criam disparidades entre o funcionamento do mercado e a promoçao do bem-estar social, sejam falhas que consistem na subversão do contexto de liberdade e de concorrencia em que as trocas deveriam decorrer, sejam ainda falhas estruturais que retardam a adaptação da economia a conjunturas emergentes, provocando inflação ou desemprego, induzindo flutuações no nível de actividade económica e perturbando o ritmo de crescimento.

C) o imperativo de justiça, que determina rectificações dos resultados distributivos que se verificam no mercado dos factores produtivos.

No documento Introdução à Economia (versão original) (páginas 40-43)