4: APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS 35
4.3 I NFECÇÃO A SSOCIADA A CATETER VESICAL 60
Como já foi referido previamente, no grupo dos doentes que foram algaliados ao longo do internamento (n=96), quinze doentes desenvolveram uma infecção urinária associada a cateter vesical o que se traduz numa taxa de incidência cumulativa de 15% (IC 95%: [8-‐23%]) neste grupo de doentes. O limite superior do intervalo de confiança eleva este valor até 23%, o que permite dizer, de uma forma simplista, que se poderá eventualmente verificar, na população para a qual se pretende extrapolar os dados, a ocorrência de 1 infecção por cada 4 doentes algaliados.
4.3.1 Caracterização do grupo de doentes com ITUaCV
4.3.1.1 Características sociodemográfica
Os dados referentes à caracterização sociodemográfica dos doentes com ITUaCV figuram na tabela 27. Em relação à distribuição por género, verifica-‐se que as ITUaCV ocorreram em frequências semelhantes nos homens (n=7, 46,7%) e nas mulheres (n=8, 53,3%).
Tabela 27 Caracterização dos doentes com ITUaCV em relação às variáveis Sexo, Idade, Grupo Etário e Origem
domiciliar.
Legenda: n: número de observações; n.a: não aplicado; Q1: primeiro quartil; Q3: terceiro quartil; RNCCI: Rede
Nacional de Cuidados Continuados Integrados.
A idade variou entre o mínimo de 64 anos e o máximo de 99 anos, situando-‐se a média nos 80,3 anos (DP ± 95 anos). Verifica-‐se que 86,6% das ITUaCV aconteceram em doentes
pertencentes à faixa etária que vai dos 64 anos aos 94 anos. A maioria dos doentes com ITUaCV (66,7%) tiveram proveniência do domicílio.
4.3.1.2 Status individual à admissão
Constatou-‐se que as presença de úlceras de pressão em apenas 20% que desenvolveram ITUacV (n=3), conforme se apresenta na tabela 28. Dado o número pouco significativo de doentes com úlceras de pressão, não se considera relevante detalhar aspectos relacionados com a caracterização das úlceras de pressão.
Tabela 28 Caracterização dos doentes com ITUaCV em relação às variáveis Úlceras de Pressão, Categoria de risco
para o desenvolvimento de úlceras de pressão, Índice de Barthel, Categoria de dependência à admissão e Incontinência de esfíncteres.
Legenda: n: número de observações; n.a: não aplicado; Q1: primeiro quartil; Q3: terceiro quartil.
O índice de Barthel variou entre 0 e 66, sendo a média 29,3 (DP: ±25,2) e a mediana 35. Quando os valores obtidos nesta escala são recategorizados, constata-‐se que a totalidade dos doentes que desenvolveu ITUaCV tem um elevado grau de dependência (dependência total: 40%; dependência grave 60%). Oitenta por cento dos doentes tem incontinência de esfíncteres, a maioria dos quais incontinência de ambos os esfíncteres (53,3%).
Tabela 29 Caracterização dos doentes com ITUaCV em relação às variáveis Avaliação do Risco Nutricional e
categoria do Risco Nutricional.
Legenda: n: número de observações; n.a: não aplicado; Q1: primeiro quartil; Q3: terceiro quartil.
Em relação à caracterização do estado nutricional à admissão (tabela 29), refere-‐se que a média do resultado obtido por este grupo de doentes no instrumento utilizado para esta avaliação neste estudo foi de 2 (DP: ± 0,7). A maioria dos doentes com ITUaCV (73,3%) apresentava-‐se em categoria de baixo estado nutricional.
Tabela 30 Caracterização dos doentes com ITUaCV em relação à comorbilidade (Diabetes Mellitus, Neoplasia,
Imunossupressão e Índice de Comorbilidade de Charlson).
Legenda: n: número de observações; n.a: não aplicado; Q1: primeiro quartil; Q3: terceiro quartil; ICC: índice de
Comorbilidade de Charlson.
Quando se avalia este grupo de doentes em relação à comorbilidade (tabela 30), constata-‐se que a taxa de incidência cumulativa de Diabetes Mellitus foi de 20% (IC 95%: [0-‐43%]) e de 6,7% para a Neoplasia (IC 95%: [0-‐21%]). Para ambas o limite superior do intervalo de confiança é bastante superior o que indica que na população para a qual se pretende extrapolar os dados se pode encontrar uma número significativamente maior destas patologias. Não se verificaram casos de ITUaCV em doentes com imunosupressão. Quando se
avalia a comorbilidade globalmente pelo ICC constata-‐se que a média é elevada (4,93 ± 1,28) e que este índice variou entre um valor mínimo de 3 e um valor máximo de 7.
4.3.1.3 Características do Episódio de Internamento
As caracterização dos doentes com ITUaCV em relação às características do internamento figura na tabela 31. Constata-‐se que a maioria dos doentes (n=12, 80%) teve proveniência do Serviço de Urgência. Os restantes três doentes provieram da Unidade de Cuidados Intensivos/Intermédios (n=2, 13,3%) e de Outro Serviço do Hospital (n=1, 6,7%). Pode dizer-‐se que estes doentes tiveram uma média de tempo de internamento elevada (14,73 dias ± 9,76 dias), verificando-‐se que os tempos de internamento variaram entre 3 e 32 dias.
Tabela 31 Caracterização dos doentes com ITUaCV em relação ao Serviço de Proveniência à admissão, Tempo de
Internamento e Alta Hospitalar.
Legenda: n: número de observações; n.a: não aplicado; Q1: primeiro quartil; Q3: terceiro quartil.
Verificaram-‐se 3 óbitos entre estes doentes (20%; IC 95%: [0-‐43%]).Os restantes doentes tiveram alta hospitalar tendo sido referenciados para o médico assistente (40%), Consulta externa (33,3%) e Serviço Domiciliário (6,7%).
Na tabela 32 figura a classificação do diagnóstico principal por Classe de Doenças do ICD-‐9®.
Tabela 32 Caracterização dos doentes com ITUaCV em relação à classificação do diagnóstico principal por Grupo de
Doenças do ICD-‐9®
O que motivou o internamento dos doentes que vieram a desenvolver ITUaCV foram doenças que maioritariamente pertenciam à classe de Doenças do Aparelho Respiratório (40%) e Circulatório (20%). Quando avaliadas individualmente (tabela 33) verifica-‐se que as patologias mais frequentes foram a Insuficiência Cardíaca (n=4), a Anemia (n=2) e a Hiponatremia (n=2).
Tabela 33 Caracterização dos doentes com ITUaCV em relação ao Diagnóstico principal.
4.3.1.4 Características relacionadas com a algaliação
A caracterização dos doentes com ITUaCV em relação às características relacionadas com a algaliação figuram na tabela 34. A grande maioria dos doentes que desenvolveu ITUaCV foi algaliado no Serviço de Urgência (66,7%). Apenas se constatou a ocorrência de ITUaCV num doente algaliado no próprio Serviço de Medicina Interna (n=1, 6,7%). Os restantes foram algaliados na UCI (n=2, 13,3%) e noutros serviços de internamento (n=2, 13,3%). Em média, estes doentes estiveram algaliados 10,4 dias (DP:± 6,85 dias). O número de dias de algaliação variou entre 3 e 25 dias.
Doze infecções (80%) ocorreram em contexto de algaliações desadequadas, o que significa que se os doentes não tivessem sido algaliados, teríamos verificado apenas 3 ITUaCV nesta amostra o que reduziria a taxa de incidência de ITUaCV para 0,7%. Essas algaliações na ausência de indicação clínica para o procedimento corresponderam a 130 dias de CV que poderiam ser evitados.
Tabela 34 Caracterização dos doentes com ITUaCV em relação ao Local de algaliação, Adequação da algaliação e
dias de algaliação.
Legenda: n: número de observações; n.a: não aplicado; Q1: primeiro quartil; Q3: terceiro quartil.
O gráfico 1 representa a adequação da colocação da SV nos doentes com ITUaCV por Serviço onde esse procedimento foi feito. Constata-‐se que o SU foi o local onde se efectuou a maioria das algaliações na ausência de indicação clínica.
Gráfico 1 Adequação da colocação de SV nos doentes com ITUaCV por Serviço onde o procedimento foi efectuado.
Legenda: SV: Sonda vesical; SU: Serviço de Medicina; UCI/UCIP: Unidade de Cuidados Intensivos/Unidade de
4.3.2 Associação com o Tempo de internamento
Pretendeu-‐se perceber se haveria diferença com significado estatístico no tempo de internamento dos entre doentes algaliados que desenvolveram ITUaCV e doentes algaliados que não desenvolveram a infecção. Apesar dos doentes com ITUaCV apresentarem uma média de tempo de internamento superior ao que se verifica nos doentes que não têm ITUaCV (14,73 Vs 11,56), a mediana entre os dois grupos é igual. Não foi encontrado resultado com significado estatístico (p=0,357) no teste realizado, ou seja não há associação com significado estatístico ente o tempo de estadia hospitalar e a ocorrência de ITUaCV.
Tabela 35 Análise bivariável do tempo de internamento no subgrupo de doentes algaliados com a variável
ocorrência de ITUaCV
Legenda: Q1: primeiro quartil; Q3: terceiro quartil;p: valor de p no teste estatístico §§Mann Whitney U.
4.3.3 Associação com a ocorrência de óbito intra-‐hospitalar
Pretendeu-‐se avaliar a possibilidade de associação entre a ocorrência de ITUaCV e ocorrência de óbito ao longo do internamento. Os resultados da distribuição e do teste efectuado figuram na tabela 36. Verifica-‐se que há mais mortos entre os doentes que não desenvolveram ITUaCV do que entre os que desenvolveram a infecção ao longo do internamento.
Tabela 36 Análise bivariável da variável ITUaCV e a ocorrência de Óbito Intra-‐hospitalar
Legenda: Variável: variável independente em estudo; Risco Relativo: risco estimado amostralmente pelo quociente
de incidências cumulativas de algaliação; Odds Ratio: estimado a partir do RR; p: valor p do teste estatístico:
§§§Teste Exacto de Fisher.
Com valor de p obtido no teste (p=0,75), aceita-‐se a hipótese nula. Ou seja, não há relação com significado estatístico entre as variáveis ITUaCV e mortalidade intra-‐hospitalar no episódio de internamento correspondente.