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i Nota biográfica e percurso académico-profissional

No documento Tese Isabel Monteiro (páginas 139-143)

CAPÍTULO II – Análise de oito autores representativos da crítica da arte portuguesa na

2.1. i Nota biográfica e percurso académico-profissional

Nascido em 1922 em Tomar, José-Augusto França constitui um dos investigadores e intelectuais portugueses que mais se empenhou, a vários níveis, na superação do impassecultural, provincianismo como lhe chamou, que caracterizou o país até à primeira metade do século XX, situação que delatou e contra a qual sempre agiu através da prática e da escrita188.

Como defende José Jorge Letria na introdução ao diálogo que com ele teve publicado em 2015:

“França conheceu os maiores criadores intelectuais portugueses de várias décadas, foi um deles muito mais que um historiador ou um crítico, foi e é um dos grandes ensaístas do seu tempo, um mestre lúcido e interrogativo da História de Portugal, um infatigável questionador do seu tempo e desta pátria à qual reconheceu vários ciclos, etapas e modas (…)” (2015, p. 17).

José-Augusto França, hoje já amplamentereconhecidono âmbito do ensaio, da crítica das artes plásticas e da literatura, tem produzido obra variada e sistemática ao longo das

188 “O trabalho como crítico de arte, notável diagnóstico de problemas estruturais, traduz uma vertente “ativista”, no sentido em que pretende agir e chamar atenção para uma dada situação que almeja modificar. Exemplo pertinente, encontra-se no artigo sobre a situação actual dos artistas portugueses , no qual declara: “O nosso público está divorciado da arte moderna”, indicando como principais razões: “o espírito retrógrado da burguesia, o baixo nível económico da grande massa da nossa população, a impotência dos nossos intelectuais que não têm no complexo nacional, as influências ocultas dos bastidores que se apoiam na falta de inteligência estética dos dirigentes, a falta de uma adequada pedagogia artística no nosso ensino, nos níveis primário, médio e superior, a ausência, é claro, de críticos responsáveis.”, in França, J.-A. - Da Pintura Portuguesa. Lisboa. Ática. 1960, p. 13 apud Salgueiro, Ana Rita Ferreira dos Santos – A Arte em Portugal no Século XX (1911-1961): José- Augusto França e a perspectiva sociológica. Lisboa. Tese de Mestrado apresentada à Faculadade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Nova de Lisboa. (texto policopiado). 2012, p.9.

A situação portuguesa, é analisada e delactadas nas suas causas mais profundas e históricas, no texto que publica no JLA em 1963, motivado e com o mesmo título do ensaio de Fernando Pessoa, “O caso mental português”, de 1932 . Cf França, José-Augusto – O Caso Mental Português. Jornal de Letras e Artes. Lisboa. Nº 98.14 ago 1963, p. 1 e 6.

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últimas sete décadas. A sua escrita de opinião alargou-se ainda nos anos 60 ao cinema e à arquitectura, contudo, no plano das artes, o que o distingue verdadeiramente de outros pares é o facto de ser o fundador da historiografia moderna da arte em Portugal e da crítica profissionalizada189.Como literatopublicou autobiografias, ficção, poesia e

teatro190, tendo ainda uma brevíssima intervenção na área da pinturaparticipando, em

1949, numa exposição com o “Grupo Surrealista de Lisboa”191, o que reflecteo seu

modo de perspectivar a escrita, a pintura e a criação em geral - entretecidas entre si e entretecidas com uma vivência simultaneamente diacrónica e sincrónica da civilização.

Segundo o próprio testemunho de J.-A. França, o interesse pelas artes e pela crítica surgiu na sequência da sua primeira viagem a Paris em 1946.192

Além da escrita, foi também na área da edição (Diccionário de Morais193) que iniciou a

sua actividade profissional, em conformidade com o gostoque tinha pelos livros desde a infância.194Trabalhou ainda, ao longo da década de 40, no conselho de redacção da

189 Segundo R. Mário Gonçalves - em 1956 “(…) José-Augusto França iniciava a publicação em fascículos do seu estudo sobre o mesmo pintor [Amadeo de Sousa Cardoso ].Este estudo constitui o marco inicial da historiografia moderna” ” Apud Ana Rita Ferreira dos Santos – A Arte em Portugal no Século XX (1911-1961): José- Augusto França e a perspectiva sociológica. Lisboa. Tese de Mestrado apresentada à Faculadade de Ciências Humanas e sociais da Universidade Nova de Lisboa. (texto policopiado). 2012, pp. 11 e 13

O próprio autor se refere ao pioneirismo dessa sua obra: “ Depois, (…) o livro sobre Amadeo de Souza-Cardoso, que foi a primeira coisa que se fez sobre o Amadeo, e que eu fiz também.” In Letria, José Jorge – José-Augusto França: com o O´neill falava de janela para janela – Diálogo. Lisboa. Guerra e Paz. 2015, p. 70.

190 As qualidades poéticas e o contributo de J.-A. França para a literatura , são destacadas, não apenas na vertente de ensaísta, crítico e historiador de arte, mas também como dramaturgo, por José António Saraiva e Óscar Lopes na “História da Literatura Portuguesa”. Cf Saraiva, J. A.; Lopes, O. – História da Literatura Portuguesa Porto: Porto Editora, 7ª Ed. Corrigida e actualizada, s/d, pp. 1171 e 1174 (na mesma obra encontram-se ainda outras referências mais breves a J.-A. França, cf pp. 622,748,1130 e 1175) 191 Em 1949 França participa com três peças na “primeira e única exposição” do Grupo Surrealista, “no atelier desafectado dum 4º andar da Travessa da Trindade que fora de Pedro e de Dacosta” In França, José-Augusto - A Arte em Portugal no Século XX. Vendas Novas. Bertrand. 2ª ed. revista. 1984, p. 38. Os antagonismos contra os neo-realistas tornam-se explícitos e intesificam-se quando o Grupo Surrealista se recusa a participar na III Exposição Geral de Artes Plásticas, em virtude da censura a priori que a comissão organizadora aceitou. A exposição surrealista, então organizada, surge como substituto da participação na III Geral. 192“(…) o meu interesse pela arte e pela crítica de arte vem da minha primeira viagem a Paris, em 46. Antes não se ía a Paris, estava a guerra. Em 46 fiz duas viagens. A Madrid – Prado e a Paris- Louvre, que estava meio fechado. Mas enfim, toda a vida artística de Paris, fui ver o Bateau-Lavoir lá acima a Montmartre, todo o romantismo da ideia de Paris. Todo o meu interesse pela arte ali nasce, e por uma grande exposição que eu vi em Paris, nesse ano, do Portinari. Foi a glória de Portinari em Paris. Eu conheci o Portinari, fui ter com ele, falar com ele, português-brasileiro, entendemo-nos bem, eu escrevi um grande artigo sobre ele, para o tal jornal o Horizonte, que havia em Lisboa, e foi a minha entrada na vida de crítico de arte, ou de historiador de arte.” In Letria, José Jorge – José-Augusto França: com o O´neill falava de janela para janela – Diálogo. Lisboa. Guerra e Paz. 2015, pp. 69-70.

193 Além da crítica, o autor conta que viveu, antes de partir para Paris como bolseiro, como editor lexicográfico do Diccionário de Morais – referindo-se à empresa por trás desse projecto declarou - “ Fui o administrador, o gerente, durante dez anos e publiquei o Diccionário da Morais, os 12 volumes do Diccionário, com uma pontualidade única em Portugal.” In idem, ibidem, p. 70 194 “ O meu pai tinha uma boa biblioteca. (…). Ele tinha sido jornalista, tinha sido poeta, como toda a gente era aos vinte anos, tinha publicado e tinha reunido uma grande biblioteca, de que eu, menino, comecei a tomar conta.“ In idem, ibidem, p. 37

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“Seara Nova”.Colaborou tambémna divulgação das primeiras “Exposições Gerais”195no

“Jornal Horizonte” de Nuno de Sousa Cabral Calvetde Magalhães (1917-1985). Foi nestas circunstâncias que conheceu António Pedro (1909-1966) que o convidaria a juntar-se a si, a Mário de Cesariny (1923-2006), a Alexandre O´Neill (1924-1986) e a Cândido Costa Pinto (1911-1976) para fundarem o Grupo Surrealista de Lisboa. (Letria, 2015, p. 55). J.-A. França seria, entre 1947 e 1949 o grande activista do núcleo, eterão sido as relações privilegiadas com alguns dos artistas surrealistas portugueses, como António Dacosta (1914-1990), António Pedro, Marcelino Vespeira (1925-2002) e Fernando Azevedo (1923-2002), iniciadas na segunda metade da década de 40, também um dos maiores motivos do seu interesse e envolvimento crescente nas artes plásticas196.

Em 1949 publicou o seu primeiro romanceNatureza Morta, que constitui uma crítica ao colonialismo e, onde“preocupações de natureza existencial, decorrentes de um desencantado quotidiano «ultramarino» (o livro é fruto de alguns meses passados em Angola197), são muito nítidas no enfoque discursivo”198.

Entre Maio de 1951 e Dezembro de 1956, organizou e editou um conjunto de «antologias de inéditos de autores portugueses contemporâneos» - Unicórnio / Bicórnio / Tricórnio / Tetracórnio / Pentacórnio.199Entre 1951-53 foi, ao lado de Jorge de Sena

195 “Conheci o Pedro (…), em 47, quando se fizeram as exposições gerais de artes plásticas. Em 46 foi a primeira e em 47 a segunda. Eu colaborava, quase que fazia o jornal inteiro, um jornal chamado Horizonte, do Calvet de Magalhães. Fizemos um número especial sobre a segunda exposição geral.” In idem, ibidem, p. 54

196“ (…) a pouco e pouco, o meu interesse pelas artes, ligado aos grupos surrealistas, ligado aos pintores, que eram Vespeira, o Pedro, o da Costa (…).”In idem, ibidem, p. 71

197 “Passei o ano todo de 45 em África, por razões económicas de família, interesses que o meu pai tinha através da Companhia do Cazengo. (…) Eu fui ser acessor do homem que, em Angola, administrava as propriedades e todos os negócios desse “grupo” de companhias, com a ideia que eu seria o sucessor dele aí a vinte anos. Era uma coisa empresarial, agrícola bastante, café e açucar.Mas dei-me mal moralmente com a situação. In idem, ibidem, p. 61.

198In José Régio - Breves considerações mais ou menos sensatas sobre a pretensa falência de uma revista. Disponível em http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=8248 (Consultado a 20/11/2013) 199 “Com «Pentacórnio» se extinguiu uma revista que José-Augusto França dirigiu – «Uni-bi-tri-tetra-pentacórnio» – e que, segundo o seu próprio director, falhou. Creio ver como toda a gente que quase sempre se inclina José-Augusto França para um pessimismo que, por vezes, chega a desautorizar os seus juízos. Tal pessimismo, ouso considerá-lo demasiado humoral, demasiado particular, demasiado preconcebido. Assim me parece restringir a personalidade dum dos nossos mais interessantes ensaístas. Exigente e ambicioso, como se reconhece ele próprio; também, às vezes, hermético no exprimir-se – nem bem chega a saber-se o que sonhou José-Augusto França para a sua revista.” In José Régio - Breves considerações mais ou menos sensatas sobre a

pretensa falência de uma revista. Disponível em

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(1919 -1978), José Blanc de Portugal (1914-2000) e Ruy Cinatti (1915-1986), um dos co-directores dos Cadernos de Poesia, nas suas 2ª e 3ª Séries200.

No que diz respeito aos estudos formais e vinculações académicas, José-Augusto França frequentou com algum desencanto201, nos anos 40, o curso de Ciências Histórico-

Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa. Tal justifica que só em Paris, em 1961, se tenha diplomadono ramo da Sociologia da Arte, orientado por Pierre Francastel202, na

École Practique d’Hautes Études de Paris, com“L’art dans la societé portugaise au XXe

siècle”.Doutorou-se posteriormente (1963)na Sorbonne, em História, com a tese “Une ville de Lumières: La Lisbonne de Pombal”, concluiu ainda na mesma instituição umsegundo doutoramento em Letras e Ciências Humanas (1972)com a tese“Le Romantisme au Portugal”,já após a morte de Francastel esob a orientação de Leon Bourdon203.Como docente, foi professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa,

da qual é professor catedrático jubilado desde 1992, e onde tinha fundado, em 1976, e dirigiu o Departamento de História da Arte, o primeiro do país com estudos de mestrado e doutoramento da área. Foi ainda professor na Escola de Belas Artes de Lisboa e Catedrático Associado da Universidade de Paris III (1985-1988).

No âmbito de outros organismos públicos, J.-A. França foi proeminente, ao longo dos anos 60, naactualização de instituições culturais como a secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA)204 ena S.N.B.A. onde leccionou

200 Biblioteca Nacional de Portugal (Orgs.) (2006). Unicórnio, etc.: Mostra documental, 16 de Dezembro de 2006 a 3 de Março de 2007. In Biblioteca Nacional de Portugal. Disponível em http://www.bnportugal.pt/agenda/unicornio/unibicornio.pdf

(Consultado a 13/02/2015)

201 Questionado por Letria sobre a memória da experiência universitária em Lisboa, responde: “Não. Para mim foi um momento um pouco de perturbação. Eu tinha sido um excelente aluno no liceu, dos melhores do Gil vicente e, depois, na universidade, entendi- me al. Eu esperava outra coisa da universidade, encontrei um meio com maus professores, desinteressantes (…)” In Letria, José Jorge – José-Augusto França: com o O´neill falava de janela para janela – Diálogo. Lisboa. Guerra e Paz. 2015, p. 45

202 “(…) fui em França à Escola de Altos Estudos conhecer o Pierre Francastel, de que eu tinha lido um livro, Peinture et Société. Peinture et Societé foi para mim não uma revelação, o Francastel dizia aquilo que eu queria dizer, mas não era, ainda, capaz de dizer. (…) o homem era fascinante de inteligência e de capacidade criativa no domínio da história e da sociologia da arte.” In Idem, ibidem, p. 71

203 Léon Bourdon (19?- 1994) foi professor do Instituto de Estudos Portugueses da Sorbonne, França.

204 “A Associação Internacional de Críticos de Arte, sediada em Paris, foi criada em 1948 como uma ONG, no âmbito da UNESCO. A sua Secção Portuguesa foi entregue, no mesmo ano, a Reynaldo dos Santos, que delegou em Luís Reis Santos a sua organização. Estes historiadores integraram, na Secção Portuguesa, o escultor Diogo de Macedo, Armando Vieira Santos e Adriano de Gusmão. Em 1967, José Augusto França e Rui Mário Gonçalves organizaram o Primeiro Congresso dos Críticos de Arte Portugueses, realizado em Março, onde, estudando a situação Portuguesa, propuseram, a uma assembleia constituída por dezenas de pessoas interessadas, a reestruturação da Secção, o que foi aprovado.

A partir de 1968, foram presidentes (nalguns casos, mais do que uma vez), Luís Reis Santos [1955-1968], José-Augusto França [1969-1971], Rui Mário Gonçalves [1971-1973 e 1998-2001], Salette Tavares [1974-1976], Carlos Duarte [1977-1980 e 2002-

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cursos inéditos em Portugal. Foi aindasócio emérito da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Nacional de Belas Artes (de que foi presidente entre 1976 e 1979), Presidente de Honra da Association Internationale des Critiques d'Art – AICA (1984), membro honorário do Comité International d'Histoire de l'Art (1992) e do Syndicat Français de la Critique de Cinéma (2005), Presidente do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa, Instituto Camões (1976-79),Director do Centro Cultural de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian (1983-89) e, entre 1971 e 1996, foi o grande promotor e director da revista “Colóquio -Artes”, da Fundação Calouste Gulbenkian, na continuidade das relações estreitas que cultivou com esta instituição205.

Foi ainda fundador e director da segunda galeria de arte a abrir emLisboa, a“Galeria de Março”, projecto que compartilhou com o artista Fernando Lemos até á partida deste para o Brasil em 1953.A galeria funcionou entre Março de 1952 e Junho de 1954.206

2.1.ii. Contiguidade e continuidade com a cultura francesa e a sociologia de Pierre

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