a qualidade do curso” 29
I NTEGRAÇÃO CURRICULAR E INTERDISCIPLINARIEDADE
A harmonização dos programas das disciplinas é outra característica do currículo da DIREITO GV. Desde o início do processo de constru- ção de programas, dois anos antes do curso de Direito iniciar o seu funcionamento, já havia uma preocupação com a integração de cur- rículos. Dois eram os objetivos principais atribuídos a essa integração curricular: evitar a repetição de conteúdos e garantir que os diversos campos do conhecimento jurídico não fossem ensinados de forma compartimentada.
Os programas das disciplinas, por iniciativa de seus autores ou em decorrência dos trabalhos de acompanhamento de curso, foram cons- truídos de modo a estabelecer relações estreitas entre si e a aproximar os temas estudados em sala de aula da complexidade das questões tra- tadas no ambiente profissional. Sobre a integração curricular, o Plano de Desenvolvimento Institucional já estabelecia a necessidade de que os programas privilegiassem a interdisciplinariedade. Previa, ainda, que a disciplina Direito Internacional fosse abordada transversalmente em todos os programas do currículo. Direito Processual também as- sumiu essa característica, como observou Paulo Eduardo Alves da Silva, autor do programa, ressaltando que o ensino desta disciplina de segundo ciclo, embora concentrado numa carga horária de 120 horas, é explorado também por diversos outros cursos do programa57.
Uma das estratégias comumente utilizada para aproximar as disci- plinas tem sido a adoção de materiais didáticos que abordem temas centrais de mais de um campo do conhecimento. A maioria dos pro- gramas do currículo adota essa estratégia para preservar sua dimensão interdisciplinar. A interdisciplinariedade do currículo do curso de Di- reito se faz presente em dinâmicas participativas baseadas na utilização
do método do caso, que, numa concepção mais alargada, pode tanto corresponder ao estudo de decisões judiciais quanto de narrativas sobre fatos reais58. As decisões judiciais, assim como as narrativas sobre fatos
reais ou mesmo fatos fictícios inspirados na realidade, embora sejam utilizadas para cumprir diferentes objetivos pedagógicos, apresentam situações nas quais frequentemente está em jogo a aplicação de normas de mais de um campo do conhecimento jurídico.
A conexão entre as várias disciplinas torna-se mais acentuada quando os currículos são construídos sob permanente diálogo e cola- boração entre membros do corpo docente. Os programas de Direito da Responsabilidade e Direito e Processo Penal foram construídos sob essa perspectiva, em que foram planejadas aulas conjuntas para os temas que demandavam maior integração. A professora Flávia Por- tella Püschel conta essa experiência: “Nas duas primeiras aulas do curso de Direito da Responsabilidade, os alunos não sabem se estão assistindo aula de Direito da Responsabilidade ou de Direito Penal. Eu participo da aula de Direito Penal e a professora de Direito Penal participa da minha aula de Direito de Responsabilidade. Fazemos uma única atividade na primeira semana para as duas disciplinas. Acho que essa integração é muito importante, pois previne a assimilação pelo aluno de uma visão fragmentada do tema da responsabilidade”59.
Diversas disciplinas estão integradas pelo uso de materiais didáticos comuns. Essas disciplinas, ainda que não promovam dinâmicas de en- sino conjuntas, não raras vezes propõem aos alunos a leitura de textos, casos ou acórdãos idênticos, com o objetivo de evidenciar aos alunos os vários olhares e interpretações que um mesmo tema pode comportar, como observa a professora Luciana Gross Cunha: “No curso de Orga- nização da Justiça e do Processo, adoto os mesmos materiais utilizados pelo professor Dimitri Dimoulis, que dá aulas de Direito Constitucional. Os alunos lêem Montesquieu e Tocqueville para ambos os cursos. O mais interessante é que eu e o Dimitri temos visões completamente di- ferentes dessas obras. Os alunos costumam dizer ao Dimitri que eu não concordo com nada do que ele pensa e vice-versa. Essa polêmica é muito divertida e desperta o espírito crítico nos alunos”60.
Para garantir que o recurso à interdisciplinariedade atinja seus ob- jetivos, os autores dos programas têm o cuidado de utilizar apenas re- pertórios conceituais já conhecidos dos alunos61. Observa-se, como
a preocupação de estabelecer ligações conceituais com outras discipli- nas do currículo. Sob a perspectiva da integração vertical, o programa previu conexões com outras disciplinas ministradas anteriormente ao curso de Direito de Família e Sucessões, especialmente os cursos Or- ganização das Relações Privadas e Direitos da Pessoa Humana. Para promover uma integração horizontal, o programa estabeleceu ligações com disciplinas ministradas simultaneamente ao curso de Direito de Família e Sucessões, como Direito Constitucional, Direito Global, Or- ganização da Justiça e do Processo e Oficina de Prática Jurídica II. No programa de Direito de Família e Sucessões tomou-se, ainda, o cui- dado de não utilizar repertórios conceituais próprios de disciplinas que ainda não tinham sido ministradas no curso.
Essa harmonização e integração entre disciplinas revela-se ainda mais necessária entre disciplinas teóricas e oficinas de prática jurídica. As oficinas de prática jurídica têm por objetivo primordial desenvolver habilidades instrumentais úteis para a prática profissional em diferen- tes áreas de atuação para as quais se volta o projeto pedagógico da DIREITO GV. Embora os alunos possam atingir objetivos semelhantes nos estágios profissionais, as oficinas apresentam a vantagem – que fundamenta, inclusive, a decisão da Escola de adiar o ingresso do aluno Alunos da DIREITO GV em sala de aula
no mercado de trabalho – de considerar o desenvolvimento de habili- dades profissionais como elemento essencial do processo de aprendi- zagem. Existe, portanto, uma preocupação pedagógica nas oficinas, que transfere ao professor a responsabilidade exclusiva de reflexão e análise crítica do desempenho do estudante no desenvolvimento de cer- tas habilidades profissionais.
Visando cumprir esses objetivos pedagógicos, os programas das ofi- cinas práticas não privilegiam o ensino de conteúdos. Quando muito, trabalham a aplicação prática de conhecimentos teóricos previamente ensinados por outras disciplinas. O programa da oficina de Legislação, por exemplo, foi elaborado sob a premissa de que os alunos devem ter noções de norma jurídica e de hierarquia normativa, tópicos estudados na disciplina Introdução ao Estudo do Direito62. Já o programa das ofi-
cinas de Redação e Estratégia Processual pressupõe algum conheci- mento teórico da disciplina de Direito Processual Civil63.
O trabalho de construção e reformulação da grade curricular tem buscando, dessa forma, estabelecer ligações entre disciplinas teóricas e oficinas de prática jurídica de modo a delimitar, e não confundir, os objetivos pedagógicos de ambas.
A grade curricular do curso de graduação em Direito também é marcada por forte interdisciplinariedade entre campos de conhecimento distintos. Além de disciplinas não jurídicas de caráter autônomo, como Filosofia Política, Contabilidade, Microeconomia, Macroeconomia, In- glês Jurídico, além de cursos eletivos oferecidos pelas Escolas de Admi- nistração e de Economia da Fundação Getulio Vargas, outros campos do conhecimento são abordados transversalmente pelo currículo do curso de Direito. Um grande número de disciplinas apresenta eixos pro- pedêuticos que propõem o estudo de conteúdos de cunho filosófico, so- ciológico, político, econômico, administrativo, artístico, para auxiliar a compreensão do fenômeno jurídico. Esse caráter interdisciplinar apro- funda o repertório cultural dos alunos, capacitando-os para explorar as relações existentes entre diferentes discursos. Sobre a importância de disciplinas propedêuticas no currículo, Ary Oswaldo Mattos Filho ob- serva: “Outro ponto central para a Escola é a grade curricular diferen- ciada, desenvolvida com o objetivo de transmitir ao aluno todos os conhecimentos considerados imprescindíveis ao exercício da atividade jurídica, porém sempre enfatizando a transmissão de ciências funda- mentais como a Filosofia do Direito e a Sociologia Jurídica e se apro-
fundando no cerne da ciência jurídica, para, depois, partir para os ramos específicos. A formação do aluno da DIREITO GV, graças ao tempo integral e às classes com 50 alunos, permite um balanceamento entre matérias fundamentais e as cadeiras jurídicas mais técnicas. Creio que fomos capazes de construir uma grade suficientemente ampla para habilitar o aluno para atuações diversificadas, como a ati- vidade jurídico-empresarial, a atividade político-administrativa e a carreira acadêmica”64.
O aluno Diego Nabarro aprova esse diferencial do curso, sobre- tudo porque favorece a atuação na área jurídico-empresarial: “Um dos aspectos positivos do curso é o fato de que estudamos matérias voltadas diretamente para as relações econômicas, para as situações de mercado, para a atuação do advogado nessas áreas. O currículo oferece um rol de matérias que não estão própriamente relacionadas com o curso de Direito (como contabilidade, micro e macroeconomia), mas que são importantes porque ajudam os alunos a compreender am- plamente as relações jurídicas e econômicas. Sem isso seria muito di- fícil desenvolver no aluno a percepção e a capacidade de entender determinadas situações, determinadas relações jurídicas que aconte- cem no mercado. Nesse sentido é importante, e ao mesmo tempo ne- cessário, que nós tenhamos esse aparato extra-Direito para um melhor entendimento do Direito Empresarial”65.