5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.3 Gestores
5.3.1 Idéia Central (IC) 1: Mediação com a comunidade
Além das dificuldades de participação e envolvimento com os líderes comunitários, é apontado um problema de comprometimento entre os próprios participantes da CT nas reuniões ordinárias. Essa dificuldade de envolvimento foi também assinalada no discurso da CT ao falar da experiência da gincana “Momento Agir”. A relação que se coloca com a comunidade, é perpassada pela idéia de cuidado que na prática tange elementos tutelares. Há uma idéia de que os profissionais devem ser mediadores entre a população e a gestão do aparato público, essa relação aparece no interesse da gestão cotidiana dos equipamentos.
A participação na CT é restrita aos trabalhadores que ocupam cargos de coordenação ou de direção dos equipamentos públicos e de projetos. Alguns desses participantes são considerados gestores pela legalidade burocrática da PMV, ou seja, são diretores de algum equipamento público – estabelecimento físico – que estão alocados na região de Maruípe. Porém, outros são gestores pela legitimidade quanto às atividades que exerce em seu cotidiano de trabalho. Durante algumas entrevistas haviam participantes que quando indagados sobre serem ou não gestores, não se consideravam como tal, devido ao cargo que ocupavam.
Uma das atribuições da CT é a de aprofundar o diálogo com a sociedade civil. Esse é um ponto delicado para a CT de Maruípe. Durante a coleta de dados pudemos
participar de uma reunião que visava discutir com as lideranças comunitárias sobre a questão da exploração sexual infantil. No entanto, a participação nessa reunião ficou restrita apenas os participantes da CT, visto que nenhuma das lideranças se fez presente. Durante a reunião também foi colocado a necessidade de se pensar alguma alternativa de diálogo com as lideranças do território. Foi questionado a maneira como o convite foi feito à essas lideranças e apontou-se uma imprecisão na comunicação. Esse acontecimento exemplifica a dificuldade de integração entre CT e a população na gestão do território.
A CT traz em seu bojo a idéia de mediação. No sentido de que os gestores devem ser mediadores em relação a comunidade e o aparato público. Ao mesmo tempo coloca também que a população deve ser co-responsável no processo de cuidado. Entretanto, a CT aponta para uma relação tutelar com a comunidade. Essa relação esbarra também na via de acesso da comunidade às reuniões da CT, que é restrita aos profissionais considerados gestores daquele território.
A população conhece os equipamentos onde ela mais demanda: a UBS, a Escola, o CAJUN e a Ação Social. Ela tem de bater onde é porta de entrada primeiro. [...] Tem oferta, a gente conhece a necessidade, mas [...] sem uma co-responsabilização não vai ser possível estabelecer um processo do cuidado. [...] Igual o caso dessa paciente [...] a gente ta cuidando dela, a gente leva na HUCAM pra fazer medicação, [...] faz tudo, a gente já comprou roupa, hoje eu comprei caderno pra ela, a gente dá comida, só que tem um momento que as pessoas também tem responsabilidade [...] O padrasto veio um dia aí reclamar comigo que eu não consegui um carro para levar ela em São Pedro. “Você pode levar de
ônibus. Você tem livre acesso, o senhor não precisa de a gente conseguir carro pro Senhor não, o senhor tem que ir por conta própria”. [...] Tudo
tem um limite, hoje eu fiz porque precisava fazer o exame [...] Tem um aluno [...] que ele tem um problema [...], aí eu fui à unidade de saúde, [...] marquei exames, [...] eu chamei a mãe especificamente desse aluno, entreguei todos os encaminhamentos para ela, fiz ela assinar um recibo que tava recebendo aquilo tudo, se comprometendo a levar a criança na consulta. [...] Tem família que é atendida em todos os equipamentos da prefeitura e não muda nada pra aquela família. [...] a gente às vezes oferece oportunidade, abre as portas, mas a pessoa não quer. [...] Tem equipamento publico que eles vão atrás, eles pedem, as vezes pedem coisas [...] então assim se vocês querem tratar alguma coisa de educação ambiental de meio ambiente a gente vai ceder”. A gente tem de fazer uma série de avaliações que vai desde o grau de escolaridade [...] Nosso presidente do conselho local ele também faz parte da câmara territorial porque ele é diretor da CAJUN, então assim, a interlocução do que acontece lá, do que passa lá, do que a gente tem que trazer pra aqui, ela
fica tranqüila, porque a gente participa do mesmo espaço. [...] Claro que a gente tem que ver o lado da comunidade, porque a gente faz aqui dentro do nosso planejamento e não pergunta pra ela o que ela quer [...]. Quando a comunidade, o povo quer, a prefeitura diz amém. Infelizmente hoje os espaços que nos temos de participação, [...] é o município que pauta o cidadão, não é a população que se organiza e nos chama (CT de Maruípe).
Segundo Filho e Abramovay (2003, p.8) “o ambiente institucional das regiões mais pobres do País conduz a que os atores locais esperem do Estado um conjunto de bens e de serviços de que ele cada vez menos dispõe e cujo atendimento parcial nem de longe resolve os problemas a que se destinam”. Esse entendimento nos remete ao limite posto na interlocução serviço e usuários (comunidade). Essa relação se corre o risco de ser limitada a prestação de serviços, e a interlocução se restringe a isso.
Essa forma de interlocução se configura como uma forma prescritiva de cuidados tutelares e não uma forma dialogada e empoderada da comunidade. No momento em que a CT vive a experiência de ter em seu corpo, no caso de uma exceção, um representante da comunidade, afirmou ser positiva essa experiência pelo fato de ter sido mais proveitoso e mais fácil fazer interlocução no território a medida que esse ator se encontra no corpo da CT.
Mesmo assim, essa interlocução foi apontada como bem sucedida no momento em que por uma exceção a regra de participação do espaço da CT, uma pessoa que representa a comunidade também tem espaço na CT, foi relatado que ficou mais fácil a interlocução, e percebemos pelo discurso que essa situação foge das relações prescritivas colocadas pelos serviços.
Nesse discurso, a comunidade é entendida como um ente que não entende o funcionamento da gestão, e que só conhece os serviços de que precisam e que são oferecidos pelos equipamentos. Para que ela possa entender é aplicado ao gestor a função de cuidado, que acaba se apresentando como tutela. E quando o resultado dessa relação não sai como o esperado, diz-se que a população não quer ou não é responsável.