4.1 O mapa conceitual do mundo
4.1.2 Idéia e verdade
A noção de verdade e a adequação do conceito com a objetividade está presente em todas as definições da Idéia. Conquanto Hegel afirme que a idéia é a verdade, até o momento inicial da idéia, na Ciência da Lógica, o conceito de verdade ainda não foi nomeadamente abordado, embora saibamos que este tema será objeto de análise do item A – “A idéia da verdade” – no segundo capítulo da Idéia: A idéia do Conhecimento, no qual serão tratados os métodos do conhecimento, especialmente os métodos analítico e sintético. Todavia, não devemos supor que a afirmação de que a idéia é a verdade, e de que esta verdade forma uma unidade com a objetividade, seja um equívoco a ser corrigido posteriormente; pelo contrário, Hegel utiliza constantemente esta definição ao longo da Lógica e ela aparece, também, em muitas obras de diferentes épocas. O que nos permite dizer que a afirmação da verdade da idéia como adequação
e a posterior abordagem do tema da verdade como um item específico da idéia, apenas indicam o processo de ampliação especulativa e explicativa das categorias lógicas. A Idéia Absoluta como desfecho da Lógica não é um conceito posto pelo filósofo aleatoriamente, mas sim um conceito que foi desenvolvido na interioridade da própria exposição. A verdade, para a consciência, só é tal a partir do conceito (sujeito fenomênico) que a determina (conhece); na Lógica, porém, o conceito subjetivo não tem substrato, é apenas o processo especulativo de determinação do puro conceito, em geral, em seu desenvolvimento até a idéia. No primeiro parágrafo da Idéia, na lógica da Enciclopédia, Hegel nos diz que “por verdade entende-se, antes de tudo, que eu sei como alguma coisa é. No entanto, isso é a verdade só em relação à consciência ou a verdade formal, a simples correção” (E I, § 213 Z), ao passo que o sentido mais profundo da verdade consiste na identidade do conceito e da objetividade. Conseqüentemente, com a idéia lógica da vida, Hegel põe, de modo especulativo, a necessidade da unidade viva e autodeterminada da subjetividade que se constrói paulatinamente enquanto constrói o conhecimento. A vida128, portanto, corresponde à idéia que vem para a existência, embora esta existência tenha um caráter lógico e não material, tal como a prova ontológica da existência de Deus129, que afirma a sua efetividade lógica sem uma realidade palpável. O ser-vivo é a imediação da idéia que compreende em-si a unidade do diverso em uma totalidade em desenvolvimento: o sujeito e o objeto, a forma e o conteúdo, o conceito e a realidade.
Podemos observar, em diferentes obras, a definição da idéia como verdade e adequação: na Ciência da Lógica Hegel afirma: “A idéia é o conceito adequado, o verdadeiro objetivo, ou o
verdadeiro como tal” (WdL II, p. 462; SL III, p. 273). Na Enciclopédia temos: “A idéia é o verdadeiro em si e para si, a unidade absoluta do conceito e da objetividade” (E I, § 213). Também na Propedêutica encontramos:
A Idéia é o conceito adequado em que a objetividade e a subjetividade são iguais, ou o ser determinado corresponde ao conceito como tal. Ela compreende em si a verdadeira vida autônoma. A Idéia é, em parte, vida, em parte conhecimento, em parte ciência. (PhPr, § 84, p. 29; PF, p. 40)
128 A vida lógica permanece uma categoria especulativa, ainda que, na Filosofia da Natureza, a vida e o ser-vivo
ganhem uma existência real na objetividade natural e sejam abordados como tal, após a completude da idéia lógica e a sua alienação em seu ser-outro.
129 “É particularmente interessante a proposição de que com o pensamento de Deus está ligado imediata e
inseparavelmente seu ser” (E I, § 64 A). Hegel aborda este tema na Ciência da Lógica, logo ao início da Objetividade, na segunda seção da Doutrina do Conceito. Tratamos desta questão em detalhe, no primeiro capítulo deste trabalho.
Podemos afirmar que a idéia imediata é o verdadeiro. Contudo, essa verdade é uma unidade imediata como um resultado e, por isso, contém todo o processo de sua mediação. Isso implica em compreendermos a idéia, desde o seu início, como uma unidade imediata/mediada, embora a idéia não seja algo simplesmente mediatizado por outra coisa, mas por ela mesma, como afirma Hegel: “a idéia é seu próprio resultado, [ela] é como tal, tanto o imediato como o mediatizado” (E I, § 213 Z). Deste modo, ela não pode ser compreendida nem como mera representação, nem tampouco como simples identidade da unidade, pois a diferença deve estar contida nela de modo a fazer com que esta seja uma unidade negativa. Além disso, as idéias não são opostas à realidade como se ambas fossem pares antagônicos, mas, ao contrário, somente a idéia é que têm realidade, na medida em que veio a ser idéia no seu processo de autoconstituição: “Alguma coisa só tem verdade na medida em que é idéia” (WdL II, p. 462; SL III, p. 273).
Conseqüentemente, a unidade especulativa do conceito subjetivo e da objetividade pertence à idéia, o conceito realizado, e não a uma consciência que aborda a realidade como um elemento exterior que deve ser apreendido. Tal compreensão corresponde ao idealismo absoluto (E I, § 45 Z) que nega a dimensão meramente subjetiva da verdade, bem como a sua dimensão simplesmente objetiva, seja esta objetividade empírica ou metafísica. O conhecimento é absoluto e só é conhecimento se for o conhecimento do absoluto.
É absurdo admitir que haveria primeiro os objetos que formam o conteúdo de nossas representações, e posteriormente viria nossa atividade subjetiva, que por meio da operação do abstrair, antes mencionada, e do reunir do que é comum aos objetos, formaria os seus conceitos [...]. Assim se reconhece que o pensamento e, mais precisamente, o conceito é a forma infinita ou atividade criadora e livre, que não precisa de uma matéria dada, fora dela, para realizar-se. (E I, §163 Z, 2)
4.1.3 O estatuto da vida na idéia
A idéia imediata é a unidade do sujeito-objeto que tem a determinação da vida. Segundo Hegel, a necessidade de tratar da Vida na Ciência da Lógica origina-se na necessidade própria do conceito, para tratar do conceito de conhecimento:
Nesta medida, a necessidade de considerar a idéia da vida na lógica se fundaria sobre a necessidade, também já reconhecida, de tratar aqui o conceito concreto de conhecimento. Mas essa idéia se introduziu pela própria necessidade do conceito; a
idéia, a verdade em si e por si é, essencialmente, objeto da lógica. (WdL II, p. 470; SL III, p. 284)
É sobre essa idealidade que, em sua imediação, tem a forma da vida desprovida de cognição que trataremos a seguir, visto que o seu desenvolvimento, como vida, é o desenvolvimento interno da idéia que a faz tornar-se conhecimento consciente de si e do mundo. Portanto, o tema do conhecimento e da verdade está intrinsecamente ligado à idéia da vida, ainda que esta corresponda ao momento da idéia desprovida de cognição, dado que é somente na ‘Idéia do conhecer’ que o conceito põe, efetivamente, “a sua objetividade como igualdade consigo” (WdL II, p. 468; SL III, p. 280). Não obstante, a unidade imediata da idéia é o modo primeiro de abordagem do verdadeiro, pois a vida é em si mesma o processo de constituição de si a partir de si sem o uso de meios exteriores, o que vem a ser a realidade objetiva da finalidade interna. A vida não é apenas um objeto contraposto ao sujeito, mas resulta do desenvolvimento da subjetividade do conceito que engendrou a objetividade até a unidade de um todo somente existente na unidade destas diferenças. Por isso, a vida como expressão da teleologia interna pré- figura a realidade do conhecimento do objeto (seja ele apenas epistemológico ou uma natureza aí encontrada), uma vez que é o objeto de onde sai o Eu como sujeito do conhecimento do objeto, e como objeto do conhecimento do Eu, no âmbito da autoconsciência, que ultrapassa o campo da vida com o mundo do espírito.
Tanto a idéia lógica da vida quanto a vida natural são o processo de autoproduzir-se a partir de si, cujo fim não é algo distinto, mas a própria manutenção da vida, e este movimento é próprio da idéia. “O progredir do conceito não é mais [o] ultrapassar nem [o] aparecer em outro, mas é desenvolvimento” (E I, § 161), portanto, o movimento do conceito é o desenvolvimento de si a partir de si mesmo, tal como a vida. A idéia, igualmente, é o movimento do seu processo que veio a ser realizado pelo conceito, cuja característica é a processualidade e o desenvolvimento de uma categoria à outra até a conformação do próprio movimento por si mesmo como pensamento de pensamento.
A idéia é a relação da subjetividade existente para si do conceito simples e de sua objetividade dela distinta: aquela é essencialmente o impulso a suspender esta separação, e esta é o ser-posto indiferente, o subsistir nulo em si e para si. Como esta relação, ela é o processo de se dividir na individualidade e em sua natureza inorgânica e de trazer novamente esta sob o poder do sujeito e de voltar para a primeira universalidade simples. A identidade da idéia consigo mesma é uma (e a mesma coisa) com o processo; o pensamento que libera a efetividade da aparência da mutabilidade carente de fim e a
transfigura (verklaert) em idéia, não tem que representar esta verdade da efetividade como um repouso morto, como uma simples imagem (Bild), embaçada (matt), sem impulso e movimento, como um gênio ou número, ou um pensamento abstrato; a idéia , em razão da liberdade que o conceito nela alcança, tem também, em si, a oposição mais
dura; seu repouso consiste na segurança e certeza com as quais ela a engendra eternamente [a oposição mais dura] e eternamente a supera, nela coincidindo consigo mesma. (WdL II, p. 467-468, SL III, p. 279-280)
Observamos, nesta extraordinária afirmação de Hegel, que a idéia não é uma abstração ou uma forma lógica vazia, mas está presente nas coisas como um impulso (Trieb) ativo que procura superar e integrar a divisão entre o simples conceito que existe em si e para si mesmo e a subsistência vazia que a ele se opõe (Cf. FINDLAY, 1969, p. 259). Como a idéia é o impulso (Trieb) ativo que se autopõe, expressa a unidade formal da finalidade da própria coisa. Essa finalidade é o bem, ou o bem da coisa, de modo que a vida é a expressão da idealidade final da idéia que se realiza como impulso interno no processo de manutenção de si. Por isso, a vida é como a causa sui em que o todo é anterior às partes e se mantém em relação direta entre o todo e a parte. Este processo dá-se do mesmo modo, tanto para a vida quanto para o conhecer. O movimento do conceito é o movimento da teleologia interna, cujo télos é a perfeita conformação a si. Do ponto de vista do conhecimento, o objeto a ser conhecido pertence à objetividade deste sempre pressuposta e posta pelo conceito como igualdade a si e, por isso, o conhecimento é absoluto.
O conceito também não está baseado na substância, não é algo fixo ou determinado, mas, ao contrário, tem que estar sempre em fluxo, em uma autodeterminação contínua. Por isso, nem a idéia e nem a vida são um repouso morto, pois “o pensamento que libera a efetividade da aparência da mutabilidade” (WdL II, p. 467-468, SL III, p. 279-280) transforma a realidade ao iluminá-la à luz da idéia. O conceito atinge a sua liberdade na idéia pelo fato desta liberdade incluir a “oposição mais dura”, sua paz e repouso consiste em saber que eternamente cria a oposição e eternamente a supera.
Tal como a idéia, o ser-vivo somente é algo na medida em que constantemente deixa de ser e constantemente vem a ser si mesmo. Todavia, a caracterização da idéia como processo não é uma simples comparação da mesma com a vida, pois a vida é a determinidade inicial da idéia, a forma simples e genuína da totalidade. A vida lógica é o momento original do processo da idéia, na qual aparece em sua imediatidade e prefigura a forma da unidade real do pensamento e do ser que é o homem. O conceito, cuja definição simples é a universalidade, se determina como
singularidade na forma do indivíduo vivo como uma unidade objetiva que contém em si dois lados opostos: a forma e o conteúdo, a interioridade e a exterioridade.
A idéia é essencialmente processo, por sua identidade ser a identidade absoluta e livre do conceito, somente enquanto é a negatividade absoluta, e, portanto dialética. A idéia é o percurso em que o conceito, enquanto é a universalidade que é singularidade, se determina em objetividade e em oposição à objetividade: e essa exterioridade, que tem o conceito por substância, se reconduz, por sua dialética imanente, à subjetividade. (E I, § 215).
A unidade da idéia como resultado do desenvolvimento do conceito é, em primeiro lugar, a vida, a verdade imediata da idéia e o momento da sua unidade negativa; em segundo lugar é o conhecer, a idéia da subjetividade finita e unilateral da teoria e da prática que irá desenvolver-se ulteriormente até a idéia absoluta.
A relação que Hegel estabelece entre conhecimento e vida aponta para o holismo ontológico, na medida que compreende o pensamento e o ser como um todo indissolúvel e mostra a unidade ontológica/gnosiológica da idéia como produtora do conhecimento e do objeto do conhecimento. Neste caso, Hegel está muito próximo da moderna neurobiologia130, que afirma que não podemos fazer distinção entre ilusão e realidade, pois tudo o que chamamos de realidade é o modo explicativo de nossa interação com as coisas e isso é tudo o que há. Hegel não pronuncia essas palavras, mas se tomarmos a sua afirmação inicial da Doutrina da Essência, de que “somente a aparência é o próprio pôr da essência” (WdL II, p. 17; SL II, p. 7), estamos afirmando que aquilo que aparece é aquilo que é. Na medida que não podemos distinguir a ilusão da realidade, estes dois conceitos se equiparam, a aparência é a essência, e o conhecimento é sempre conhecimento absoluto e conhecimento do absoluto.
Hegel quer nos mostrar que a realidade é oriunda do processo racional do conceito. Sem o conhecimento conceitual, ou seja, a consciência do pensamento, ou o conceito que se faz objeto do seu conceituar, ousaríamos afirmar, não haveria realidade. Nós afirmamos do mundo aquilo que ele é, segundo uma exaustiva investigação da razão que mostra, por fim, que o absoluto e tudo aquilo que podemos falar depende do uso dos nossos conceitos e do modo como trabalhamos com eles, mas nada há além ou aquém deste processo. Por outro lado, esta relação
130 Humberto Maturana (2001), biólogo chileno especializado em neurobiologia, a partir de experiências empíricas,
afirma a impossibilidade da distinção entre ilusão e percepção. Com isso, o autor pretende explicar o fenômeno do conhecimento, ou do ‘conhecer’, como afirma, inspirando os filósofos a uma outra abordagem da epistemologia, recusando peremptoriamente a idéia do conhecimento como representação. Ver especialmente p. 19-42.
indica o ponto de vista antropológico/espiritual em que o homem, como espírito, é o ponto de chegada da própria natureza e aquele que a transforma e a supera, visto que é o produtor da arte, da religião e da filosofia, por intermédio das quais conhece, cria e produz os seus artefatos, ciências e teorias de conhecimento.