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5.1 DOS REQUISITOS PARA SER ADMITIDO

5.2.3 O internato

5.2.3.1 A Idade dos internos

A idade dos internos é um elemento importante para pensarmos esse aluno. Numa tentativa de tratá-los para além dos números, trago mais uma vez – no quadro abaixo – a relação destes, agregando a informação sobre suas idades.

Quadro 16 - Faixa etária dos alunos internos do Santanópolis. (Continua)

ALUNO IDADE ALUNO IDADE

José Elias de Mattos 13 Salomão Frederico Miranda Lemos

17

José Gomes Belo Ilo Brasaileiro 14

Aníbal Gomes Belo 16 Braulio Alves Filho 16

José Maria Gomes Belo 15 José dos Santos Navarro 17

Alípio Gomes Belo 13 Manoel Dias de Souza Filho 13

José Medrado Vaz Santos 16 Gilberto Dias Miranda

Ápio Medrado Vaz Santos João Palma Netto 15

Antonio Gonçalves Barreiros 14 Francisco Carneiro de Souza 20

Quadro 16 - Faixa etária dos alunos internos do Santanópolis.

(Conclusão)

ALUNO IDADE ALUNO IDADE

Tomaz de Lima Cardozo Clóvis Mascarenhas de Souza 14

Raimundo de Lima Cardozo Valter Marques de Cerqueira

Manoel Rodrigues Aurelino Alves

Filemon de Lima Cardoso 14 Francisco L. de Carvalho 13

Walter Teixeira Amorim Gileno do Vale Xavier 14

Fernando Ramos de Almeida Alves

14 Everaldo de Andrade Pereira 14

Waldo Ferreira 17 José Gomes Dias 14

Fernando Almeida 13 Valdemar de Souza Almeida 21

Durval Enedino da Silveira 14 Emerson Marques Dourado

Arilton de Carvalho Lima 15 Antonio Falcão 14

Altamirando Cerqueira Marques

Pedro Correia

Orestes Correia Bruni 13 Edgard Coelho

Walter Lapa Barreto da Silva 14 Ernani .... Quadros Passos Josamir de Freitas Góes 13 Admario da Silva Santos

José Ferreira 13 Epitácio Pedreira de Cerqueira 13

Expedito Macêdo Penha 14 HamIlton Valadares Oliveira 13

Raymundo Teixeira Alves 12 Helio Rui Barreiros Santos 12

Izac Calazans de Oliveira 13 Wlatemir Lapa Barreto da Silva

15

Dylson Reis Hofke 12 Julio Porto Guedes

Aloisio da Silva Fraga 16 Alberto José dos S. Pereira Teixeira

14 José Valverde de Carvalho 16 Otávio Valverde de Carvalho 15 José...Lopes Barreto da Silva 20 Everildo da Silva Andrade 14

José Oliveira cruz 12 Waldo Andrade Borges 13

Aloísio Medrado Vaz Santos 14 Gerson Pelegrine de Brito 12 Fonte: Elaborado pelo autor.

Os alunos mais novos do internato chegavam por lá aos 11 ou 12 anos de idade, e o mais velhos, aos 21 anos, convivendo no mesmo espaço. Enquanto estes eram homens feitos, aqueles eram ainda crianças, como aconteceu no ano de 1939. Valdemar de Souza Almeida (21), vindo de Irecê, dividia o espaço do internato com Dylson Reis Hofke (12), oriundo de Salvador. Infelizmente não pude contar com o depoimento de muitos alunos dos mais diversos períodos para saber como essas relações se estabeleciam: se elas eram de cooperação e cuidado dos mais velhos para com os mais novos ou se eram de abuso e dominação dos mais velhos sobre os mais novos. No Ateneu, o autor refere-se à sua experiência no internato como uma experiência difícil e abusiva por parte dos mais velhos, mas esta é uma experiência específica, além do que, embora seja uma obra autobiográfica não deixa de ser uma ficção.

Numa amostra de 50 alunos cujas idades foram identificadas, 30% deles tinham 12,15 ou 16 anos; 6% tinham 17 anos, 04% 20 anos, 2% 21 anos, 28% 13 anos e 30% tinham 14 anos de idade. Além de informar o quadro de idades dos alunos que passaram pelo internato entre 1936 e 1944, este levantamento nos permite pensar outras questões relativas à escolarização desses alunos no ensino secundário.

Tomando como amostra os alunos do internato, é possível afirmar a defasagem de idade de entrada dos alunos no ensino secundário na Região de Feira de Santana, justificável pela ausência de estabelecimentos escolares para esse nível de ensino na região, o que tornava dispendioso e/ou dificultoso o ingresso desses alunos em escolas da capital. Dessa forma, mesmo em se tratando de um estabelecimento privado, destinado, portanto, aos que podiam pagar e, posteriormente, aos agraciados por uma bolsa, podemos considerar o Santanópolis como um elemento importante na difusão do ensino secundário, ainda que pela via da iniciativa privada, como era comum naquele contexto.

A Lei Francisco Campos não se refere à idade mínima para ingresso no ensino secundário; a única referência à idade, presente na lei, está no inciso I do Artigo 100, que exige ―certidão, provando a idade mínima de 18 anos para a inscrição nos exames da 3ª série‖, última do ensino secundário.

Uma vez que todo o ensino secundário está organizado em sete séries, um candidato poderia iniciar seus estudos aos 11 anos de idade, como está determinado na Lei Orgânica do ensino Secundário em seu artigo 20 alínea ‗a‘: ―ter pelo menos onze anos completos ou por completar até o dia 30 de junho‖. Ao observar as idades dos alunos internos, dei conta da demanda reprimida que havia para este nível de ensino na região. Todos os alunos do internato estavam acima dos 11 anos de idade e, 90% deles estavam acima dos 12 anos, chegando aos 21.

Não tenho dados para precisar quantos garotos moraram no internato ao longo dos oito anos de seu funcionamento. Cotejando as informações nas pastas dos discentes e livros de matrículas, computei um total de sessenta e seis alunos que ali complementaram sua educação secundária. Certamente esse número não revela a quantidade exata de estudantes que viveram ali porque muitos dos nomes encontrados, isso inclui os que constam no livro de registro de matrícula dos anos de 1937 a 1946, não tiveram suas pastas localizadas, assim como foram localizadas algumas pastas de alunos cujos nomes não constam no livro de matrícula.

Outro dado que nos permite chegar a essa conclusão é que o internato começa a funcionar no ano de 1936, mas não há registro de matricula de alunos desse ano, no livro. Além do mais, o número de pastas de alunos que entraram na escola é muito pequeno e foi

encontrado apenas um aluno – Gerson Pelegrini Brito, natural de Rio Novo, na Bahia – na condição de residente do internato, o que ratifica o funcionamento do estabelecimento no ano de sua inauguração, 1936. Ainda assim, considerei que a amostra conseguida é significativa nesse processo de pensar e escrever o colégio.

São quase setenta alunos dos quais poderia levantar as idades e naturalidade, o que permitiria um trabalho exaustivo sobre a relação que os que voltaram estabeleceram em seus municípios de origem após os anos de estudo no Santanópolis; os lugares que ocuparam na política, na economia e na vida social e cultural das cidades de onde vieram, em acordo com o que se preconizava para o ensino secundário cujo objetivo era formar as elites condutoras do país. Embora mais adiante seja pontuada a trajetória de alguns ginasianos, essa análise exaustiva ficará para outro trabalho.

Uma entrada no internato do Santanópolis nos é possível pelo depoimento do senhor Epitácio Pedreira de Cerqueira de 82 anos de idade, residente na cidade de Itaberaba, uma das cidades encontradas nos documentos do Colégio.

O senhor Epitácio, filho de um coronel e intendente da cidade de Itaberaba, chegou ao internato em 1943, aos 13 anos de idade, e viveu lá durante um ano letivo apenas. Embora o período seja curto, as suas lembranças nos colocam em contato direto com as impressões de um interno. Rememorando a saída de casa para o Ginásio, assim descreve aquele momento: ―Eu tinha 11/13 anos quando peguei o caminhão para Feira de Santana – mas fui na boleia, ressalva. ―Primeiro fiquei uma semana na casa do Dr. Áureo para me acostumar e depois ele disse que eu deveria ir para o internato‖. Suas memórias nos colocam diante de várias possibilidades de diálogos: da concepção de infância, dos efeitos desse distanciamento da família para um garoto de 11 anos, das dificuldades para vir de Itaberaba à Feira de Santana cuja distância atual é de cento e sessenta e três quilômetros, ficando a quatro horas de viagem de ônibus; porém, não é objetivo desse trabalho discuti-las, apenas fiz a ressalva de que reconheço essas possibilidades. Outras questões, no entanto, nos ajudam na tarefa de conhecer e avaliar quem era o aluno do internato do Santanópolis.

O Sr. Epitácio relatou que um dos seus irmãos saíra de Itaberaba para fazer o ginásio no Colégio Ipiranga em Salvador. Esse dado reforça a hipótese de que a chegada do Santanópolis reconfigura o movimento em busca de maior escolarização no interior da Bahia. A sua ressalva de que viera para Feira de Santana na boleia e não na carroceria com os outros passageiros do pau-de-arara é um indicador forte de classe econômica favorável. Andar de caminhão naquela época era uma atividade que gerava um custo inacessível para parcela importante da população, e andar na boleia era reservado a quem desfrutasse de algum

privilégio. Enfatizar que viera na boleia demonstra um desejo de diferenciar-se daqueles que não podiam pagar por esse conforto.

Indagado sobre as relações com os colegas no internato, a experiência do senhor Epitácio em nada se assemelha com os conflitos narrados em o Ateneu. Segundo ele, a estadia era harmoniosa embora tivesse que conviver com alunos que tinham quase o dobro de sua idade. Relatou apenas um pequeno conflito com outro colega de moradia que o chamou de alemão o que, segundo ele, era uma ofensa muito grande, visto que o período do ocorrido foi o da Segunda Guerra Mundial e ser nomeado de alemão era, no mínimo, uma brincadeira de mau gosto. Relata ainda que o mal entendido foi encerrado com a presença de Joselito Amorim, diretor do internato na época, o qual solicitou que dissesse o nome do autor da famigerada brincadeira, mas ele se negou a responder. ―Tinha só onze anos, mas não entreguei ninguém‖, afirma.

Quanto às regras do internato, ele assegura não ter recebido nenhum manual ou quaisquer outros documentos que se referissem à organização e ordenamento do internato. Disse que, quando chegou à instituição, foi apresentado aos espaços do estabelecimento que constavam de uma cozinha, uma sala, banheiro e dois quartos onde estavam aproximadamente 15 moços. As regras da ―casa‖ foram sendo aprendidas no cotidiano. Parecia não haver muita pressão – ao menos no nível da consciência – e eles podiam passear pelo centro da cidade nos finais de semana e feriados – sozinhos – desde que não perdessem o horário de voltar para a casa. Contou que algumas vezes ele e outros colegas foram convidados por Joselito Amorim e sua namorada, a senhorinha Marinita, para ir ao cinema, mas ficara com vergonha.

Esse episódio me instiga a fazer algumas inferências a respeito das relações existentes no internato. O convite para ir ao cinema, por parte do diretor do internato, denota tanto a possibilidade de cuidado, preocupação com o bem estar dos internos, bem como uma forma de controle que dispensa os castigos físicos, as privações de liberdade ou as falas mais duras, bem ao modo do que está registrado em um dos reclames que se refere à disciplina e ao regime: ―Não lançamos mão de castigos physicos, mesmo porque a tendência da educação ministrada no Gymnasio Santanópolis é sempre no sentido de evitar, desaparecendo, portanto, a necessidade de corrigir‖.

Nessa perspectiva, aproximar-se dos alunos, convidá-los para um passeio ou uma sessão de cinema aos domingos, aproxima efetiva e afetivamente, diminui a solidão e a saudade de casa, tornando suportável a distância, mas também controla e vigia; é o olho da escola sobre o escolar em seu dia de folga e de forma eficiente porque não é assim sentido.

Quando mais parece um rompimento à norma, melhor ela está se consolidando e disciplinando. Desta forma,

A disciplina faz ―funcionar‖ um poder relacional que se auto-sustenta por seus próprios mecanismos e substitui o brilho das manifestações pelo jogo ininterrupto dos olhares calculados. Graças às técnicas de vigilância, a ―física‖ do poder, o domínio sobre o corpo se efetua segundo as leis da ótica e da mecânica, segundo um jogo de espaço de linhas, de telas, de feixes, de graus, e sem recursos, pelo menos em princípio, ao excesso, à força, à violência. Poder que é em aparência ainda menos ―corporal‖ por ser mais sabiamente ―físico‖. (FOUCAULT, 1987, p.148).

Todo esse conjunto de práticas só reafirma o quão disciplinador foi o Santanópolis, que até os dias de hoje, envolve santanopolitanos, mesmo não existindo materialmente.