3 DISCURSOS SOBRE A VELHICE
3.1 A VELHICE ASSOCIADA A ISOLAMENTO, DECREPITUDE, FEIURA,
3.1.1 As idades da vida – e da velhice
Qual seria a idade da velhice? Beauvoir (1990, p. 9) explica que o momento em que começa a velhice é mal definido, variando de acordo com épocas e lugares.
Blessmann (2003, p. 12) expõe que “o critério da idade cronológica não é suficiente, e nem o mais adequado, para estabelecer o início da velhice ou quando o indivíduo passa a ser considerado velho, pois ninguém envelhece de repente e nem da mesma forma”. De fato, o envelhecimento é associado a mudanças físicas, cognitivas e psicológicas que ocasionam outras mudanças, principalmente sociais.
Para o médico grego Hipócrates, a velhice teria início aos 56 anos. Ele foi o primeiro a comparar as etapas da vida humana às quatro estações da natureza, e a velhice ao inverno. (BEAUVOIR, 1990, p. 23).
Ariès (2012, p. 4-7) elabora uma cronologia das “idades da vida” a partir de textos da Idade Média e comenta o livro VI de Le grand propriétaire de toutes choses, uma compilação de textos latinos do século XIII que retomava escritos de autores do Império Bizantino. Os diferentes períodos da vida eram apresentados como correspondentes aos planetas e divididos em infância e puerilidade, juventude e adolescência, velhice e senilidade.
Há certa variação de idades entre os autores, mas, em linhas gerais, a infância duraria até os 7 anos e a puerilidade, até os 14 anos. A adolescência compreenderia o período entre 14 e 30-35 anos, a juventude iria dos 30 aos 45-50 anos e a velhice se prolongaria até os 70 anos (ou até a morte). Para Isidro, um dos autores da compilação, “a velhice é assim chamada porque as pessoas velhas já não têm os sentidos tão bons como já tiveram, e caducam em sua velhice [...]. O velho está sempre tossindo, escarrando e sujando [...], até voltar a ser a cinza da qual foi tirado”. (ARIÈS, 2012, p. 7). A senilidade seria a última etapa da velhice, antecedendo a morte.
Entre os tupinambás, existia uma divisão por “classes de idades” registrada pelo frei Yves d’Evreux32. Tais classes, segundo ele, seriam resquícios da orde m natural criada por Deus. Para o sexo feminino, existiam seis classes de idades: a primeira classe era a dos bebês, e nessa não havia distinção de sexo; a segunda classe estendia-se até o sétimo ano de vida e nela tinham início as distinções de sexo em relação às atitudes e comportamentos; a terceira classe ficava entre os 7 e 15 anos, período em que as meninas aprendiam os deveres das mulheres (fiar, tecer, fabricar farinha, entre outros); a quarta classe reunia jovens de 15 a 25 anos, consideradas nessa fase “mulheres completas”. Nessa fase elas se casavam, cuidavam da casa e constituíam família; a quinta classe era o período no qual as mulheres atingiam seu mais alto vigor e ia dos 25 aos 40 anos; a sexta classe abrangia aquelas acima de 40 anos. (RAMINELLI, 2013, p. 20-23)
32 D’EVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil. Maranhão, 1874, p. 146.
Relacionando a noção de tempo de vida e idade, apresentada no conto, com a classificação do século XIII, intui-se que o período de vida feliz e produtivo do ser humano terminaria na adolescência (30-35 anos).
Fazendo uma comparação entre essas idades da vida com o ponto de vista oriental, mencionamos os comentários de Confúcio e a filosofia hinduísta.
Aos 15 anos, dispus meu coração para estudar.
Aos 30, me estabeleci.
Aos 40, não alimentei mais perplexidades.
Aos 50, fiquei conhecendo os mandamentos celestiais.
Aos 60, nada do que ouvia me afetava.
Aos 70, pude seguir os impulsos do meu coração sem ferir os limites do direito. (CONFÚCIO33, apud CHINEN, 1993, p. 59-60).
Para Confúcio, a adolescência (15 anos) é tempo de aprender. Aos 30, a pessoa se estabelece numa carreira; interesses mundanos substituem os ideais e há uma preocupação maior com o desempenho no trabalho e a família. Aos 40, o ser humano adquire maior confiança em si mesmo. Aos 50 anos, ocorre uma mudança e o indivíduo se volta para a espiritualidade, transcendendo interesses pessoais e mundanos. Aos 60, passa a aceitar os mandamentos divinos e aos 70 torna-se uno com a vontade de Deus, transcendendo a si mesmo. (CHINEN, 1993, p. 60).
Para o sábio Manu, do hinduísmo ancestral, a vida humana se divide em quatro fases distintas: a primeira é denominada “fase de estudante ou aprendiz”. É nela que ocorre o aprendizado do mundo e dos deveres sociais. A segunda fase é a do “chefe de família”, na qual se busca o sucesso pessoal, a estabilidade e a constituição de uma família. A terceira fase é quando o indivíduo já criou os filhos e passa a conviver com “os filhos de seus filhos”. Não tendo mais a responsabilidade de sustentar a família, torna-se eremita e se dedica à meditação e à ioga, unindo-se ao Cosmos. Na quarta fase o indivíduo está livre de todo desejo e todo sofrimento.
(CHINEN, 1993, p. 60-61).
As idades da vida do discurso ocidental se equiparam às fases da filosofia oriental, mas há uma diferença fundamental: enquanto para os ocidentais a vida acabaria aos 40-45 anos, para os orientais a verdadeira vida começaria nessa fase,
33 WEI-MING, T. The Confucian Perception of Adulthood, in ERIKSON, E. Adulthood. New York:
Norton, 1978.
quando o indivíduo se volta para a espiritualidade, livrando-se de encargos familiares e sociais, e entrando em contato consigo mesmo, numa autotranscendência libertadora.
O pensamento oriental manifesta compreensão e aceitação do processo natural de envelhecimento, ao mostrar que cada fase da existência humana tem particularidades e funções que lhe são próprias, e que cada uma sucede à outra de maneira natural, no tempo que lhe é devido. Dessa forma, a velhice é uma dessas fases, na qual só se chega depois de se ter vivenciado as demais.
Ariès comenta a impressão de que a cada época da história humana corresponderiam uma idade privilegiada e uma periodização particular da vida: a juventude seria a idade privilegiada do século XVII, a infância, do século XIX e a adolescência, do século XX. (ARIÈS, 2012, p. 16).
Essas variações de um século para outro dependem das relações demográficas. São testemunhos da interpretação ingênua que a opinião faz em cada época da estrutura demográfica, mesmo quando nem sempre pode conhecê-la objetivamente. Assim, a ausência da adolescência ou o desprezo pela velhice, de um lado, ou, de outro, o desaparecimento da velhice, ao menos como degradação, e a introdução da adolescência, exprimem a reação da sociedade diante da duração da vida. (ARIÈS, 2012, p. 16).
Essa percepção de valorização da juventude e consequente desvalorização da velhice é compartilhada por outros teóricos. Bobbio (1997, p. 20) diz que a marginalização dos velhos em uma época em que a marcha da história está cada vez mais acelerada é um dado impossível de ignorar. Ele comenta que em sociedades mais tradicionais, que evoluem lentamente, o velho reúne em si o patrimônio cultural da comunidade, destacando-se dos outros. Sabe, por experiência, o que os demais ainda não sabem e precisam aprender com ele. Nas sociedades evoluídas as transformações cada vez mais rápidas, tanto dos costumes quanto das artes, viraram de cabeça para baixo o relacionamento entre quem sabe e quem não sabe. Cada vez mais o velho passa a ser aquele que não sabe em relação aos jovens, que sabem. Observando-se esse relacionamento sob a ótica da sociedade científica e tecnológica, em que o novo logo fica velho, o distanciamento se intensifica. Bobbio ressalta que, além do envelhecimento biológico e social, vem ocorrendo o envelhecimento cultural, que distancia o idoso ainda mais do grupo e
aumenta sua marginalização. “Quanto mais firme se mantém nos pontos de referência do seu universo cultural, mais o velho estranha seu próprio tempo”.
(BOBBIO, 1997, p. 22).
O conto O avô velho e seu neto, compilado pelos Irmãos Grimm no século XVIII, registra, também, uma visão incômoda e negativa da velhice.
Estruturalmente muito simples, apresenta um núcleo reduzido a quatro personagens planas (ou tipos), identificadas pelo parentesco: avô (homem velho), filho, nora e neto, e um conflito: o avô velho é apartado por conta de sua senilidade e limitação. O substantivo “homem” é substituído pelo adjetivo “velho”, que se torna substantivo ao se referir ao avô. Se, por um lado, o velho ainda vive na casa com a família, é separado dela, impedido de conviver com os outros e tomar parte das refeições à mesa. Sua mão treme, provavelmente por conta de uma doença como o Mal de Parkinson, que o faz derrubar utensílios e comida. Dão-lhe uma porção mínima de alimento, o suficiente, apenas, para que não morra de fome. (Essa parte do conto nos remete ao que Robert Darnton explica sobre “boca inútil”, como visto no capítulo 1. Numa época de escassez de alimento, os velhos improdutivos eram um peso, uma carga para a família.) A pouca sopa que lhe era fornecida caía pelos cantos da boca. A visão desse homem causava tanto nojo ao filho e à nora, que ambos o relegaram a um canto escondido atrás do fogão, para não terem de deparar com sua triste figura. É a conduta da criança que força os pais a olharem para o velho e enxergarem nele seu próprio futuro. O incômodo cede lugar ao choque, à tomada de consciência e a uma mudança de atitude. Rechaçar o velho e se negar a encarar a velhice não os afastaria dela. Talvez o incômodo ainda persistisse, mas foi superado por uma percepção de que, mesmo sem a presença do velho na casa, a velhice os alcançaria e produziria no seu filho as mesmas reações e atitudes. O que moveu os pais não foi amor nem respeito pelo velho, mas medo de receber o mesmo tratamento desumano no futuro.
Diferentemente de narrativas maravilhosas em que uma ação é provocada por uma personagem com f unção bem demarcada como antagonista, aqui o dano/conflito é provocado por um aspecto abstrato: o envelhecimento. No entanto, como a velhice é um estado, uma condição contra a qual não há o que fazer, é preciso atribuir culpa a um referente humano, responsável por ela. Acaba-se elegendo o velho, que é culpado pela sua velhice e passa a ser encarado como um objeto incômodo, sendo rejeitado.
Ao reforçar a imagem do velho em estado de debilidade, potencializa-se o horror por ele. Dessa forma, a figura desse velho acaba sendo associada a uma doença e passa a representá-la, numa projeção inconsciente da ideia de que os velhos é que são culpados pela velhice. Apartar (ou eliminar) os velhos seria, então, a melhor forma de erradicar o problema, a doença.
Elias (2001, p. 84-86) comenta que há uma marcada diferença entre a posição dos que envelhecem (e dos moribundos) nas sociedades industriais atuais e nas pré-industriais (medievais). Nas sociedades medievais, em que a maioria da população vivia em vilarejos e se ocupava da terra e da criação de gado, quem lidava com os membros que envelheciam era a família. Mesmo que o relacionamento fosse desarmônico, os velhos – predominantemente – permaneciam e morriam dentro do espaço familiar.
Já nas sociedades industrializadas e urbanizadas, quando as pessoas envelhecem e ficam mais fracas, vão sendo mais e mais isoladas da sociedade, do círculo familiar e dos conhecidos. Há um número crescente de instituições, particulares e do Estado, que assumem o papel de cuidar dos idosos. Apesar de muitas vezes oferecerem atendimento médico e de enfermagem excelentes, essas instituições podem representar a ruptura dos vínculos afetivos que os indivíduos construíram ao longo de toda a vida. Mesmo possibilitando o estabelecimento de novos vínculos, estes não substituem os antigos, o que pode significar grande solidão para os que ali são recolhidos.
[...] o processo de envelhecer produz uma mudança fundamental na posição de uma pessoa na sociedade e, portanto, em todas as suas relações com os outros. O poder e o status das pessoas mudam, rápida ou lentamente, mais cedo ou mais tarde, quando elas chegam aos sessenta, aos setenta, oitenta ou noventa anos. (ELIAS, 2001, p. 83).
O autor não cita, mas achamos relevante lembrar a questão dos maus-tratos a idosos, de que temos notícia nos últimos tempos, mesmo havendo uma legislação que assegure os direitos a uma velhice digna.
Voltando ao conto: o neto usa da palavra para reparar o dano causado. A senilidade do avô não é alterada, mas sim a forma como a família o trata.
É claramente um conto de exemplo, moralizante, cujo objetivo é mostrar uma conduta desejável a ser seguida, principalmente para os que possuem pais velhos e senis.
Uma vez que a velhice existe e atinge a todos, é preciso mudar a forma como se lida com os
efeitos da velhice nos seres humanos. O abandono e os maus-tratos, comuns em períodos de maior crise e privação, devem ter atingido níveis assombrosos a ponto de inspirar a necessidade desse tipo de conto, para fazer as pessoas reverem a forma de tratar os idosos.
Outros contos moralizantes trazem personagens velhos. Destacamos O velho ambicioso, que mostra um protagonista velho e ativo, em que a velhice (atributo) não define sua ação nem é a causa do conflito. A estrutura narrativa é extremamente simples e linear, com apenas duas personagens planas. Um filho sai de casa em busca de trabalho e de condições melhores de vida. Depois de algum tempo, para de enviar dinheiro e notícias ao pai, que o julga morto. Anos depois, um desconhecido bate à porta desse homem pedindo abrigo. O velho, percebendo que o forasteiro tinha muito dinheiro, o assassina e enterra. Ao abrir a mala, descobre que o viajante era seu filho, que viera incógnito fazer uma surpresa.
Cheio de remorso, o velho se entrega à polícia e morre na prisão.
Ele é o sujeito que deseja o dinheiro (objeto) do viajante (destinador). Obtém o dinheiro (o desejo é satisfeito), mas um novo problema é criado: o retorno do filho acarreta um terrível dano (seu assassinato). Para esse novo dano não há solução. A forma tradicional é rompida, mas o actante sofre a consequência de seu ato: o velho criminoso se entrega, é preso e morre. No entanto, isso não o redime e ele se torna uma figura abominável.
Os atributos principais dessa personagem são a velhice e ambição. Não há outras informações sobre sua aparência, mas isso não é relevante para a trama. A velhice não é a causa do desfecho trágico da narrativa, e sim a ganância. A imagem do velho, no entanto, fica associada a um aspecto negativo.
O substantivo velho do título poderia ser substituído por homem. O que lhe confere negatividade é o adjetivo (ambicioso), criando no receptor uma expectativa de leitura.
Diferentemente desse efeito é o provocado pelo uso do adjetivo amorosa no título do conto A velha amorosa, que cria uma expectativa romântica no receptor/leitor.