2. A metodologia de trabalho de projecto como meio potenciador de aprendizagens
2.3. A ideia de projecto nos modelos curriculares Reggio Emilia e Movimento da
2.3.2. Ideia de projecto no Movimento da Escola Moderna
O Movimento da Escola Moderna, vulgarmente designado por MEM, é uma filosofia educativa, que se traduz na forma como os docentes assumem o Jardim de Infância/escola, ou seja, como um espaço onde se iniciam prática de cooperação e de solidariedade de uma vida democrática (Niza, 2007).
É nesta linha que se situam os princípios pedagógicos assumidos pelo movimento e que funcionam como orientações fundamentais de toda a acção educativa, já que se constituem regras facilitadoras das aprendizagens. Assim, assume-se que: (i) os meios pedagógicos veiculam, em si, os fins democráticos da educação; (ii) a actividade escolar, enquanto contracto social e educativo, explicita-se através da negociação progressiva dos processos de trabalho que fazem evoluir a experiência pessoal para o conhecimento dos métodos e dos conteúdos científicos, tecnológicos e artísticos; a prática democrática da organização partilhada por todos institui-se em conselho de cooperação; (iii) os processos de trabalho escolar reproduzem os processos sociais autênticos da construção da cultura nas ciências, nas artes e no quotidiano; (iv) a informação é partilhada através de circuitos sistemáticos de comunicação dos saberes e das produções culturais dos alunos; (v) as práticas escolares dão sentido social imediato às aprendizagens dos alunos, através da partilha dos saberes e das formas de interacção com a comunidade; (vi) as crianças intervêm ou interpelam o meio social e integram na sala de actividades “actores” comunitários como fonte de conhecimento nos seus projectos (adaptado de www.movimentoescolamoderna.pt )
No último princípio, valoriza-se a aprendizagem curricular feita, essencialmente, através de projectos.
Segundo Peças (1999),
“o projecto surge como sentido, como cultura, e esse sentido é o de organizar o olhar, a escuta, as energias, os sujeitos e as acções para responder a desejos e aspirações que são sempre necessidade de desenvolvimento inter e intrapessoais. Projectos que comprometem, descobrem os obstáculos e procuram os meios de os vencer. Esta cultura de projecto remete o acto de educar para um outro paradigma: já não transmissão de informação sem ligação como o vivido, mas o aprender como meio de
TRANSDISCIPLINARES E COOPERATIVAS
compreensão e acção sobre os quotidianos, orientado para a resolução dos problemas e das dificuldades, provocando novas e mais intensas questões para nos fazermos todos (educadores e educandos, animadores e animados) mais cultos e melhores cidadãos” (p.58)
Neste sentido, os projectos emergem dos interesses das crianças, sendo o grupo considerado um cosmos social de aprendizagem que a regula e organiza. Assim é na emergência e gestão dos projectos, que se podem perspectivar os caminhos a seguir, os tempos, a divisão de tarefas, as parcerias a estabelecer, os produtos, os efeitos, sempre delineados com as crianças (Niza, 1995).
Como salienta Rodrigues (1999):
“Os projectos ou o „antever‟ daquilo que se pretende realizar, é feito sempre em grupo. Os planos surgem naturalmente dos momentos em Conselho, na conversa da manhã., nas comunicações. Através do diálogo, trocando ideias sobre o que pretendem fazer, formulando questões, levantando hipóteses, as crianças definem as etapas que julgam necessárias para realizar o trabalho” (p.5)
O papel do educador, no momento da organização dos projectos, é fundamental. Através de um processo de questionamento aberto, ajuda o grupo a estruturar os seus conhecimentos e a delinear os planos que pretende realizar, tendo em conta o que as crianças já sabem ou o que já têm. Posteriormente, indagam sobre os meios através dos quais podem pesquisar e onde podem recolher essa informação. Valoriza-se a importância das aprendizagens integradas num contexto de grupo, promovidas pela interacção entre os seus elementos com saberes e experiências diferentes.
Os projectos assumem diversas formas, podendo ser de produção, que parte do
queremos fazer, onde as crianças se assumem como produtoras, criativas e inventivas de obras; de pesquisa, que resulta do interesse por saber ou conhecer algum fenómeno, acontecimento ou contexto mais profundamente; ou de intervenção, onde as crianças se assumem como protagonistas de intervenção e mudança social.
Deste modo, pretende-se que as aprendizagens conseguidas sejam significativas e pertinentes. Estas aprendizagens realizam-se em pares ou em pequenos grupos. As crianças questionam-se e questionam a realidade que as circunda, agindo para a conhecer, resolvendo problemas e encontrando soluções criativas para aprender.
Do desenvolvimento do projecto faz parte a consulta de livros e outras fontes de pesquisa, execução das actividades, conversa e reflexão entre os membros do grupo de trabalho. A família tem um papel importante na concepção de um projecto, pois é com certeza um dos recursos de informação (Rodrigues, 1999).
A METODOLOGIA DE PROJECTO COMO MEIO POTENCIADOR DE APRENDIZAGENS TRANSDISCIPLINARES E COOPERATIVAS Um dos princípios estratégicos da intervenção educativa do MEM é a partilha de
saberes e de produções culturais das crianças através de comunicações, uma espécie de validação social do trabalho de produção e de aprendizagem. Isto quer dizer que sempre que um projecto termina existe um momento de comunicação ao grande grupo, e, de seguida, um momento de reflexão de grande grupo sobre as aprendizagens que relevam dessa pesquisa. As comunicações permitem que a criança organize mentalmente as suas aprendizagens, de forma a preparar o seu discurso oral para comunicar, até porque o balanço e o planeamento são organizados e registados através de instrumentos de organização do grupo (Folque, 1999) e os álbuns considerados os relatórios finais dos projectos porque procuram documentar a vivência dos mesmos e servem de suporte às comunicações (Rodrigues, 1999).
Os pais e a comunidade em geral também colaboram com informações, materiais, participação directa, com saberes e vivências em actividades da sala; estes aspectos contribuem para a realização de projectos. Como salienta Rodrigues (1999)
“as famílias, como membros da comunidade, estabelecem o elo de ligação entre a escola e o meio em que esta se integra, promovendo a troca de saberes. Constituem, através da colaboração, fontes de conhecimento e recurso para concretizar experiências pedagógicas. O envolvimento das famílias nos projectos é, muitas vezes, provocado pelas próprias crianças” (p. 10).
A experiência do projecto, como refere Peças (1999) constitui-se como uma oportunidade para contrariar as práticas selectivas e de exclusões sempre crescentes, porque se revela capaz de valorizar o contributo de cada um para o grupo. Nesta metodologia de trabalho estabelecem-se as condições para uma prática de diferenciação pedagógica que se constitua como experiência de aprendizagem e de sucesso para todas as crianças