3 MEMORIAIS DAS OBRAS
3.3 Processo compositivo da obra Hircus, para quinteto de cellos
3.3.1 Ideias
A principal ideia foi a utilização da justaposição de segmentos para fazer a estrutura formal da obra. Uma referência importante para a gênese a obra, foi a escuta de Petruska (STRAVINKY, 1911). A audição desta obra influenciou em certo grau o trabalho compositivo.
Como em Algoritmico, a ideia da obra se confunde com a manipulação de materiais e técnicas, e assim, evidenciam um ideário inexistente.
3.3.2 Materiais
A obra Hircus tem a duração aproximada de 4 minutos. O andamento é constante em Allegro, com semínima = 120. A métrica vai sendo alterada ao longo da obra, conforme à disposição dos segmentos. Cada segmento tem métrica própria, variando entre 3/4, 5/8 e 2/4. Os signos de compasso são repetidos ao longo da obra, conforme os segmentos são reexpostos.
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3.3.2.1 Textura
As relações texturais foram construídas de maneira intuitiva, combinando, de acordo com a conveniência, acompanhamentos e contracantos com a melodia principal dos segmentos.
3.3.2.2 Transposições
As transposições foram aplicadas ao gosto do autor da pesquisa ao longo da obra. Não foi realizado um planejamento prévio sobre esta qualidade musical. Foi-se dispondo os segmentos, transpondo-os de acordo como o mais adequado.
3.3.2.3 Intensidades
As intensidades foram dispostas visando criar um contorno dramático (SCHILLINGER, 2004; BELKIN, 2008, p. 32). Elas foram distribuídas, de maneira intuitiva, entre os instrumentos ao longo dos segmentos e seções.
3.3.2.4 Timbres
A instrumentação da obra foi imaginada, inicialmente, para um quinteto de bandolins (dois bandolins, bandola, bandolocelo e bandolim baixo). Posteriormente, foi adaptada para quinteto de cellos.
3.3.2.5 Forma
A forma foi organizada justapondo-se os segmentos. Estes segmentos não têm transições entre si. Eles foram organizados de modo a reaparecerem ao longo das seções. Como existem contornos de intensidades e instrumentação, cada segmento reaparece de maneira diferente ao longo da obra. Pretendeu-se, com isto, não gerar monotonia (SCHOENBERG, 1996, p. 47; BELKIN, 2008, p. 9).
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3.3.2.6 Durações e alturas
Seis segmentos foram criados de maneira intuitiva. Estas melodias guardam relações entre si. As durações numeralizadas dos segmentos são:
Figura 11 – Durações do primeiro segmento da obra Hircus
(1,3, R1,1), (3, 1, 1), (3, 1, 1), (2, 1,1,1), (1, 4, R
Fonte: O autor (2019).
Figura 12 – Durações do segundo segmento da obra Hircus
(2, 1, 1),(3, 1,1,1),(2, 1,1, 1), (2, 1, 1 ,1 ,1, 2)
Fonte: O autor (2019).
Figura 13 – Durações do terceiro segmento da obra Hircus
(R8, 2), (2, 1,1,1), (2, 1,1,1), (2, 2, 1,1, 1)
Fonte: O autor (2019).
Figura 14 – Durações do quarto segmento da obra Hircus (1,1,1,1), (1,1,1,1), (1,1,1,1), (1,1,1,1)47 Fonte: O autor (2019). Figura 15 – Durações do quinto segmento da obra Hircus (1,1, 1,1, 2) [com permutações48] Fonte: O autor (2019).
47Ocorreram repetições das durações descritas. Estas repetições ocorreram de maneira arbitrária. 48Para esta combinação de durações, buscou-se realizar a operação de permutação.
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Figura 16 – Durações do sexto segmento da obra Hircus
(1,1,1,1,1), (1,1,1,1,1), (1,1,1,1,1)
Fonte: O autor (2019).
As alturas foram combinadas com as durações ao nosso gosto. Utilizou-se como base, intervalos contidos na escala nordestina.
Figura 17 – Escala nordestina
Fonte: O autor (2019).
As melodias (alturas e durações) resultantes são:
Figura 18 – Primeiro segmento da obra Hircus (cc. 1-5)
Fonte: O autor (2019).
Figura 19 – Segundo segmento da obra Hircus (cc. 6-10)
Fonte: O autor (2019).
Figura 20 – Terceiro segmento da obra Hircus (cc. 10-13)
Fonte: O autor (2019).
Figura 21 – Quarto segmento da obra Hircus (cc. 14-17)
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Figura 22 – Quinto segmento da obra Hircus (cc. 18-25)
Fonte: O autor (2019).
Figura 23 – Sexto segmento da obra Hircus (cc. 33-35)
Fonte: O autor (2019).
Outros segmentos foram criados e intercalados aos segmentos anteriores. Suas formas originais são encontradas nos cc. 26-27 (b1); 36-38 (b2); 43-45 (b3); e 56-59 (b4)49.
3.3.3 Técnicas
Em Hircus, ainda ocorreram diversas rodadas de negociação com os resultados parciais e com os pré-composição. Só para exemplificar, ao terminar a música, aplicou-se os contornos de intensidade e distribuiu-se as combinações instrumentais ao longo da obra. Como já dito, o planejamento da obra foi elaborado em conjunto com a própria composição. Assim, inconsistências podem ocorrer, principalmente, nos resultados das operações.
3.3.3.1 Aplicação de contorno
O contorno da instrumentação, juntamente com o contorno de intensidades, gerou curvas dramáticas ao longo da obra. A pretensão, com seu uso, foi a de se criar uma curva que alcançasse um clímax máximo.
49Cf. Apêndice C.
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Tabela 4 – Intensidades associadas a cada segmento da obra Hircus
A B C 01 02 03 04 05 b1 01 06 b2 02 b3 04 05 b4 01 05 02 04 b1 06 05 01 pp pp mp p mf p mp p p mp pp p mf p mp mf mf p mp mf f mf D E F 02 b2 04 05 06 01 b3 b4 05 b2 02 01 02 b2 04 04 05 b2 06 02 b3 04 01 05 mf mp mf f p ff ff mp f mf mf mp mp p p pp mf p mp p p pp mf ff Fonte: O autor (2019).
A Tabela 4 mostra o mapa de intensidades que foram associadas a cada segmento da obra. Como a obra foi composta pela abordagem bottom-up, houve pouco planejamento prévio desta qualidade.
Em Hircus, estes contornos de instrumentação e de intensidades não foram, previamente, planejados. Operou-se os materiais e, depois que se atingiu uma duração considerável na obra, retornou-se às seções iniciais para modificar a instrumentação e colocar as intensidades. Criou-se um ponto áureo, que se encontra, aproximadamente, aos 62% da duração da obra, ou seja, aproximadamente, em 2 minutos e 19 segundos. O retorno para a remodelagem da instrumentação e intensidades aconteceu, algumas vezes, até se chegar ao resultado final.
3.3.3.2 Justaposição de segmentos
Como descrito na subseção 3.3.2.5 Forma, os segmentos foram justapostos e dispostos ao longo da obra. Este processo não se deu de maneira plenamente estruturada nesta obra. Os segmentos foram dispostos sem nenhum critério, previamente, estabelecido. Esta disposição se deu ao gosto do autor desta pesquisa. Para resolver o problema da falta de novidade durante o fluxo da obra (BELKIN, 2008, p. 9), criou-se contrastes através de outras qualidades musicais como instrumentação, intensidades e transposição. Assim, os segmentos são reapresentados, mas sempre de maneiras distintas ao longo da composição.
Tabela 5 – A forma da obra Hircus
A B C
01 02 03 04 05 b1 01 06 b2 02 b3 04 05 b4 01 05 02 04 b1 06 05 01
D E F
02 b2 04 05 06 01 b3 b4 05 b2 02 01 02 b2 04 04 05 b2 06 02 b3 04 01 05
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Na Tabela 5 observa-se a organização da forma de Hircus. Em cada seção, representada por uma letra maiúscula, observa-se oito segmentos, com exceção da seção A, onde aparecem apenas seis. (Imaginou-se esta seção como a introdução da obra.) Nas demais seções, os segmentos sempre reaparecem em sua forma original, mas com a instrumentação variada ou com suas alturas transpostas.
3.3.3.3 Combinações instrumentais
Utilizou-se a Tabela 6 para organizar as combinações instrumentais. Estas combinações foram distribuídas ao longo da obra visando acentuar, juntamente com as intensidades, o contorno geral da obra.
Tabela 6 – Combinações instrumentais da obra Hircus
Inst50. I Inst. II Inst. III Inst. IV Inst. V 1 2 X 3 X 4 X 5 X 6 X 7 X X 8 X X 9 X X 10 X X 11 X X 12 X X 13 X X 14 X X 15 X X 16 X X 17 X X X 50Instrumento (Inst.).
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(cont.) Tabela 6 – Combinações instrumentais da obra Hircus Inst51. I Inst. II Inst. III Inst. IV Inst. V
18 X X X 19 X X X 20 X X X 21 X X X 22 X X X 23 X X X 24 X X X 25 X X X 26 X X X 27 X X X X 28 X X X X 29 X X X X 30 X X X X 31 X X X X 32 X X X X X Fonte: O autor (2019).
Inicialmente, desconsiderou-se as combinações de 1 a 6, que compreendem o silêncio e solos. Como a pesquisa está baseada em uma abordagem mais voltada para a manipulação de materiais (bottom-up) e sem um planejamento prévio, terminou-se utilizando, arbitrariamente, apenas as combinações 8, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 19, 22, 23, 24, 26, 29, 30, 31 e 32, dispondo-as ao longo da obra, conforme o mais adequado.
3.3.4 Princípios
Após uma reflexão posterior, utilizamos: (1) o princípio da abordagem de design compositivo bottom-up (SILVA, 2010a); (2) a composição baseada em exemplos (LASKE, 1991); (3) ressignificação; e (4) negociação.
51Instrumento (Inst.).
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Inspirados pela audição da obra Petruska (STRAVINSKY, 1911), buscou-se ressignificar um trecho específico em Hircus.
Figura 24 – Petruska, First Tableau, cc. 42-62, redução para piano a 4 mãos
Fonte: Stravinsky (1911).
Figura 25 – Ressignificação do trecho entre os cc. 42-62 (First Tableau) de
Petruska na obra Hircus
Fonte: O autor (2019).
Na Figura 25, no trecho de Hircus, pode ser observado a ressignificação do trecho entre os cc. 42-62 (First Tableau) de Petruska, presente na Figura 24. Tanto em Petruska (STRAVINSKY, 1911), como em Hircus, a melodia segue em blocos acordes paralelos. Contudo, em Hircus, modificou-se as durações.
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Como em outras obras contidas neste memorial, ocorreram rodadas de negociação com os resultados das operações sobre os materiais. Evidencia-se assim, uma imprecisão nos resultados bem como na descrição destes.
3.3.5 Metas
No tocante a esta instância, como a própria abordagem bottom-up prevê, houve pouco planejamento. Ao longo do percurso criativo, aplicou-se a proporção áurea na organização estrutural da obra. Neste ponto, a instrumentação se torna mais densa e a intensidade mais forte. O caminho até este clímax foi feito desenhando contornos, sob a forma de curvas dramáticas (SCHILLINGER, 2004; BELKIN, 2008, p. 32).
Gráfico 4 – Sonograma da obra Hircus extraído a partir do MIDI
Fonte: O autor (2019).
Pode ser observado no Gráfico 4, as variações de intensidade (dB52) mostradas ao longo do tempo, descrito no sonograma do áudio extraído a partir do MIDI.
3.3.6 Resultados
Elencou-se como resultados: (1) a organização estrutural pré-compositiva53; (2) a partitura da obra de Hircus, para quinteto de cellos; (3) a descrição do processo criativo na forma deste memorial; e (4) a apresentação da obra no recital da classe de Performance e Criação Contemporânea, no Hall da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMUFRN), dia 27 de novembro de 2018.
52Decibel (dB).
53Listou-se a organização pré-compositiva como um resultado pois entende-se que se pode
implementar um plano em outras obras. Basta mudar, por exemplo, os materiais (melodias, alturas e durações, instrumentação e outros).
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3.3.7 Comentários conclusivos
Durante o percurso criativo da obra Hircus, realizou-se negociações com o planejamento que foi sendo feito. Assim, guiando-se, em última análise, pela intuição, o autor desta pesquisa foi percorrendo caminhos desconhecidos e deparando-se com situações nas quais, para resolver algum problema, apenas repetia-se trechos, excluía-se compassos, apagava-se notas e reavaliava-se outras.
Percebeu-se que, com um plano prévio, que listasse (quase) tudo o que pudesse fazer, seria possível seguir com mais consciência e se focar mais em determinadas áreas do fazer compositivo. Uma vantagem da abordagem que trata de princípios prévios e metas (top-down) é que se pode conceber um plano e implementá- lo em tantas obras quanto se desejar.
Até agora, não se pode deixar passar desapercebido o fato da ordem em que os elementos musicais foram descritos neste memorial. Nas obras Uirapuru,
Algoritmico e Hircus, as instâncias Materiais e Técnicas tiveram a primazia. Metas e
Princípios foram relatados por último, justamente, por também terem sido considerados, apenas, muito superficialmente, ao longo deste processo compositivo. O uso do Modelo de Silva (2010a), nesta ordem, também retrata a natureza deste processo, tipicamente bottom-up.
Quadro 8 – Aplicação do Modelo de Silva (2010a) na obra Hircus
INSTÂNCIA CONTEÚDO USO DA INSTÂNCIA
IDEIAS
Utilização da justaposição de segmentos para fazer a estrutura formal da obra.
Ideário inexistente.
MATERIAIS
Duração: 4 min (aprox.). Andamento: Allegro, 120 BPM. Forma e Métrica: justaposição de segmentos, variando entre métricas 3/4, 5/8 e 2/4.
Instrumentação: quinteto de cellos. Alturas e durações: estabelecidas de maneira arbitrária.
Previamente estabelecidos.
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(cont.) Quadro 8 – Aplicação do Modelo de Silva (2010a) na obra Hircus
INSTÂNCIA CONTEÚDO USO DA INSTÂNCIA
TÉCNICAS Aplicação de contorno, justaposição de segmentos, combinações instrumentais. Negociação com os resultados das operações. PRINCÍPIOS Abordagem de design compositivo bottom-up (SILVA, 2010), composição baseada em modelos (LASKE, 1991), ressignificação e negociação. Não previamente estabelecidos METAS No tocante a esta instância houve pouco planejamento prévio.
Imposição arbitrária de intensidades, visando criar um contorno até um clímax.
Fonte: O autor (2019).