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Identidade étnico-racial

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 60-64)

1 AS INFÂNCIAS E A EDUCAÇÃO INFANTIL

2.2 IDENTIDADE

2.2.1 Identidade étnico-racial

No intuito de compreender com mais propriedade o conceito, recorri aos

estudos de Munanga (2009), que discute os limites e as possibilidades para a

construção da identidade negra, destacando que no Brasil, atualmente, muito se fala

sobre, no entanto, sem uma definição contundente do seu significado, e elucida que

a identidade objetiva, difundida pelos estudiosos como características culturais,

linguísticas, entre outras é, de modo recorrente, confundida com a identidade

subjetiva, que é como o próprio grupo se define ou é definido pelos grupos próximos.

Para o autor supracitado, o conceito de identidade nasce no dado momento

em que há a tomada de consciência das diferenças entre os grupos - nós e outros -

esse processo depende do grau de consciência de cada indivíduo, portanto, não é

similar entre todos os negros, sendo permeado por diversas singularidades: religião;

classe social; engajamento político; região geográfica, entre outras.

Reconhecer-se numa identidade supõe, portanto, responder

afirmativamente a uma interpelação e estabelecer um sentido de

pertencimento a um grupo social de referência. Nesse processo, nada é

simples ou estável, pois múltiplas identidades podem cobrar, ao mesmo

tempo, lealdades distintas, divergentes, ou até contraditórias. Somos, então,

sujeitos de muitas identidades e essas múltiplas identidades sociais podem

ser, também, provisoriamente atraentes, parecendo-nos, depois,

descartáveis; elas podem ser então rejeitadas e abandonadas. (GOMES,

2005, p.42).

Em relação à identidade negra, essa diversidade contextual é mais

facilmente compreendida, segundo Munanga (2009), por meio da reflexão sobre os

fatores tidos como essenciais na formação da identidade ou personalidade coletiva,

dentre os quais: o fator histórico, o fator linguístico e o fator psicológico. O fator

histórico é responsável pela união cultural que sedimenta elementos diversos de

um povo por meio do sentimento de continuidade histórica vivido pela coletividade. A

consciência histórica constitui-se como elo com o passado que proporciona

segurança e justifica o esforço dos povos para conhecer sua história e transmiti-la a

gerações. Nesse sentido, na época da colonização a destruição dessa consciência

foi utilizada para fragilizar a população negra e diluir a coletividade. O fator

linguístico, que persiste nos terreiros religiosos como uma linguagem esotérica,

continua sendo um elemento de identidade. Em outras categorias foram criados

modos diversificados de linguagem e comunicação como: estilo de cabelos,

penteados e ritmos musicais, que contemplam marcas de identidade. O fator

psicológico conduz ao questionamento sobre o temperamento negro ser diferente

do temperamento branco e poder ser considerado uma marca de identidade, no

entanto, se puder ser encarado como diferente, tal fato deve-se ao condicionamento

histórico do negro e de suas estruturas sociais e não biológicas. Ao lado disso,

Munanga (2009) afirma que a identidade de um grupo é uma ideologia e que como

tal pode ser manipulada por uma ideologia dominante. Em suma, o autor acredita

que os fatores pontuados fazem parte da identidade coletiva, que se constitui na

herança de uma sociedade, e é transmitida de geração para geração por meio de

processos educativos.

A complexidade do ser negro em uma sociedade em que essa condição

aparece associada à pobreza, inferioridade, incompetência, feiúra, atraso

cultural tornam a construção da identidade racial dos negros e negras um

grande desafio (BENTO, 2011, p.99).

Nesse contexto Munanga (2009) questiona: é possível para os negros

construir sua identidade baseada na cor da pele, numa sociedade em que a

tendência geral é fugir da pele negra? Para ele, o negro tem problemas específicos

entre os quais destaca a alienação do seu corpo, de sua cor, de sua cultura e de sua

história, o que conduz a uma inferiorização e baixa autoestima. Um processo de

recuperação seria a busca da identidade que tem início pela aceitação dos atributos

físicos do negro, uma vez que, o corpo constitui a sede de todos os aspectos da

identidade.

Aceitando-se, o negro afirma-se cultural, moral, física e psiquicamente. Ele

se reivindica com paixão, a mesma que o fazia admirar e assimilar o branco.

Ele assumirá a cor negada e verá nela traços de beleza e feiúra como

qualquer ser humano “normal” (MUNANGA, 2009 p. 43).

Diante do exposto, torna-se relevante lembrar que as identidades são

históricas e culturalmente construídas e transformadas ao longo da vida do indivíduo

por meio das relações que ele estabelece e dos espaços nos quais transita, sendo a

instituição educativa, amiúde, um desses espaços, portanto, cabe indagar: o que as

instituições educativas devem ofertar às crianças no que tange à educação das

relações étnico-raciais? Como elas podem contribuir para a construção de

identidades étnico-raciais positivas?15

Cabe aqui articular a proposta de self como interjogo constante entre duas

instâncias, o eu e o mim propostos por Mead, com as análises sobre a identidade

étnico-racial de pesquisadores brasileiros (GOMES, 2003; MUNANGA, 2009;

BENTO, 2011). Encontramos na dupla percepção sobre o racismo dos estudos do

NEAB-UFPR uma chave importante (SILVA e ARAUJO, 2011; SILVA, TRIGO e

MARÇAL, 2013), pois estudamos o “racismo à brasileira”, as particularidades das

formas de expressão das hierarquias raciais construídas no Brasil. Mas tais

características particulares se relacionam com um processo mais amplo, centenário

e transnacional – por isso muito arraigado – de racialização dos negros africanos e

africanos da diáspora, processo que se relaciona com as formas de dominação

coloniais e pós-coloniais e se articulam com as interpretações racistas sobre os

africanos e africanos da diáspora (FOÉ, 2012; SILVA, TRIGO e MARÇAL, 2013).

Para a análise desses processos de racismo colonial, de como eles pesam

na construção da identidade negra, estabelecendo formas que são patológicas e

aprisionam a negros e brancos, Fanon (1983) oferece uma análise arguta em “pele

negra, máscaras brancas”. As formas de opressão racial estudadas pelo autor e sua

análise sobre como a identidade do negro se organiza de forma sempre tensa num

mundo pós-colonial no qual a norma é europeia/branca, dão subsídio para analisar

tais processos na realidade brasileira. Tem especial interesse para a análise da

construção da identidade, a condição de permanente tensão estabelecida nas

relações hierarquizadas entre brancos e negros que aprisionam a ambos no

“complexo de próspero” (FANON, 1983, p. 88), a identificação idealizada com o

colonizador hegemônico.

A sociedade norte-americana sempre foi objeto de comparação com o Brasil.

Analisando as formas de construção racial na sociedade norte-americana Du Bois

(1999) propõe o conceito de dupla consciência do negro americano, que se refere ao

fato dos negros se verem de forma contraditória e contraposta pelos olhos de seu

15 Cumpre elucidar que utilizarei o adjetivo “positiva” porque é referendado na legislação e na

bibliografia nacional (GOMES, 2005; MUNANGA, 2009; BENTO, 2011) com o sentido de ressaltar a

formação de uma identidade que contempla o orgulho do pertencimento étnico-racial. Observa-se

também seu uso na literatura internacional, em especial nos estudos dos EUA sobre a construção da

identidade negra por crianças americanas, relacionando o conceito de identidade “positiva” à

auto-imagem, auto-identificação e identidade que valoriza sua condição racial ao invés de negá-la e se

identificar com o branco hegemônico, conforme amplo estado da arte realizado por Cross Jr (1991).

grupo de referência negro, ao mesmo tempo em que pelos olhos hegemônicos do

branco. Assim, os estudos realizados pelo NEAB-UFPR permitem supor que o

conceito de “dupla consciência” tem uma aplicação em outros países da diáspora

negra e que ajudam a compreender as complexas formas de negociação entre o

indivíduo e a sociedade brasileira racializada, na qual a norma branca também é

operante.

No que se refere à literatura norte-americana, a obra de Cross Jr. (1991)

realiza um minucioso estado da arte sobre as pesquisas norte americanas acerca da

construção da identidade negra em crianças, e do impacto do racismo sobre tais

construções. Com base na revisão de oitenta e nove pesquisas norte americanas

sobre a construção da identidade negra, o referido autor identificou dois diferentes

fatores relacionados a essas teorias: identidade pessoal (com componentes de

autoconceito, autoconfiança, autoavaliação, competência interpessoal, ideal de ego,

traços de personalidade, introversão-extroversão e nível de ansiedade), e

parâmetros do grupo de referência (reference group orientation no original, com

componentes de identidade racial, identidade de grupo, consciência racial, ideologia

racial, estima racial, imagem racial e autoidentificação racial). A análise das diversas

pesquisas apontou para um período entre 1939 (primeiro estudo) e 1960 com alta

predominância da “identidade negativa”, marcada pela presença opressora do

preconceito racial como parâmetro para o grupo de referência e correlacionada com

construções “negativas” da personalidade individual (insegurança, baixa autoestima

e autoconfiança, ansiedade, personalidade danificada). No contexto americano, os

movimentos negros pelos direitos civis produziram outros parâmetros do grupo de

referência negro, que tiveram impacto nos próprios resultados dos estudos e nos

estudos sobre preferências raciais, isto é, a proporção de crianças negras que

expunham a preferência pelo negro passou a ser maior (CROSS JR, 1991). Na

contemporaneidade o autor analisa os impactos das discussões públicas sobre a

“negritude” (negrescence), que indicam que “não há uma única forma de ser negro”

na sociedade americana (CROSS JR, 1991).

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 60-64)