1 AS INFÂNCIAS E A EDUCAÇÃO INFANTIL
2.2 IDENTIDADE
2.2.1 Identidade étnico-racial
No intuito de compreender com mais propriedade o conceito, recorri aos
estudos de Munanga (2009), que discute os limites e as possibilidades para a
construção da identidade negra, destacando que no Brasil, atualmente, muito se fala
sobre, no entanto, sem uma definição contundente do seu significado, e elucida que
a identidade objetiva, difundida pelos estudiosos como características culturais,
linguísticas, entre outras é, de modo recorrente, confundida com a identidade
subjetiva, que é como o próprio grupo se define ou é definido pelos grupos próximos.
Para o autor supracitado, o conceito de identidade nasce no dado momento
em que há a tomada de consciência das diferenças entre os grupos - nós e outros -
esse processo depende do grau de consciência de cada indivíduo, portanto, não é
similar entre todos os negros, sendo permeado por diversas singularidades: religião;
classe social; engajamento político; região geográfica, entre outras.
Reconhecer-se numa identidade supõe, portanto, responder
afirmativamente a uma interpelação e estabelecer um sentido de
pertencimento a um grupo social de referência. Nesse processo, nada é
simples ou estável, pois múltiplas identidades podem cobrar, ao mesmo
tempo, lealdades distintas, divergentes, ou até contraditórias. Somos, então,
sujeitos de muitas identidades e essas múltiplas identidades sociais podem
ser, também, provisoriamente atraentes, parecendo-nos, depois,
descartáveis; elas podem ser então rejeitadas e abandonadas. (GOMES,
2005, p.42).
Em relação à identidade negra, essa diversidade contextual é mais
facilmente compreendida, segundo Munanga (2009), por meio da reflexão sobre os
fatores tidos como essenciais na formação da identidade ou personalidade coletiva,
dentre os quais: o fator histórico, o fator linguístico e o fator psicológico. O fator
histórico é responsável pela união cultural que sedimenta elementos diversos de
um povo por meio do sentimento de continuidade histórica vivido pela coletividade. A
consciência histórica constitui-se como elo com o passado que proporciona
segurança e justifica o esforço dos povos para conhecer sua história e transmiti-la a
gerações. Nesse sentido, na época da colonização a destruição dessa consciência
foi utilizada para fragilizar a população negra e diluir a coletividade. O fator
linguístico, que persiste nos terreiros religiosos como uma linguagem esotérica,
continua sendo um elemento de identidade. Em outras categorias foram criados
modos diversificados de linguagem e comunicação como: estilo de cabelos,
penteados e ritmos musicais, que contemplam marcas de identidade. O fator
psicológico conduz ao questionamento sobre o temperamento negro ser diferente
do temperamento branco e poder ser considerado uma marca de identidade, no
entanto, se puder ser encarado como diferente, tal fato deve-se ao condicionamento
histórico do negro e de suas estruturas sociais e não biológicas. Ao lado disso,
Munanga (2009) afirma que a identidade de um grupo é uma ideologia e que como
tal pode ser manipulada por uma ideologia dominante. Em suma, o autor acredita
que os fatores pontuados fazem parte da identidade coletiva, que se constitui na
herança de uma sociedade, e é transmitida de geração para geração por meio de
processos educativos.
A complexidade do ser negro em uma sociedade em que essa condição
aparece associada à pobreza, inferioridade, incompetência, feiúra, atraso
cultural tornam a construção da identidade racial dos negros e negras um
grande desafio (BENTO, 2011, p.99).
Nesse contexto Munanga (2009) questiona: é possível para os negros
construir sua identidade baseada na cor da pele, numa sociedade em que a
tendência geral é fugir da pele negra? Para ele, o negro tem problemas específicos
entre os quais destaca a alienação do seu corpo, de sua cor, de sua cultura e de sua
história, o que conduz a uma inferiorização e baixa autoestima. Um processo de
recuperação seria a busca da identidade que tem início pela aceitação dos atributos
físicos do negro, uma vez que, o corpo constitui a sede de todos os aspectos da
identidade.
Aceitando-se, o negro afirma-se cultural, moral, física e psiquicamente. Ele
se reivindica com paixão, a mesma que o fazia admirar e assimilar o branco.
Ele assumirá a cor negada e verá nela traços de beleza e feiúra como
qualquer ser humano “normal” (MUNANGA, 2009 p. 43).
Diante do exposto, torna-se relevante lembrar que as identidades são
históricas e culturalmente construídas e transformadas ao longo da vida do indivíduo
por meio das relações que ele estabelece e dos espaços nos quais transita, sendo a
instituição educativa, amiúde, um desses espaços, portanto, cabe indagar: o que as
instituições educativas devem ofertar às crianças no que tange à educação das
relações étnico-raciais? Como elas podem contribuir para a construção de
identidades étnico-raciais positivas?15
Cabe aqui articular a proposta de self como interjogo constante entre duas
instâncias, o eu e o mim propostos por Mead, com as análises sobre a identidade
étnico-racial de pesquisadores brasileiros (GOMES, 2003; MUNANGA, 2009;
BENTO, 2011). Encontramos na dupla percepção sobre o racismo dos estudos do
NEAB-UFPR uma chave importante (SILVA e ARAUJO, 2011; SILVA, TRIGO e
MARÇAL, 2013), pois estudamos o “racismo à brasileira”, as particularidades das
formas de expressão das hierarquias raciais construídas no Brasil. Mas tais
características particulares se relacionam com um processo mais amplo, centenário
e transnacional – por isso muito arraigado – de racialização dos negros africanos e
africanos da diáspora, processo que se relaciona com as formas de dominação
coloniais e pós-coloniais e se articulam com as interpretações racistas sobre os
africanos e africanos da diáspora (FOÉ, 2012; SILVA, TRIGO e MARÇAL, 2013).
Para a análise desses processos de racismo colonial, de como eles pesam
na construção da identidade negra, estabelecendo formas que são patológicas e
aprisionam a negros e brancos, Fanon (1983) oferece uma análise arguta em “pele
negra, máscaras brancas”. As formas de opressão racial estudadas pelo autor e sua
análise sobre como a identidade do negro se organiza de forma sempre tensa num
mundo pós-colonial no qual a norma é europeia/branca, dão subsídio para analisar
tais processos na realidade brasileira. Tem especial interesse para a análise da
construção da identidade, a condição de permanente tensão estabelecida nas
relações hierarquizadas entre brancos e negros que aprisionam a ambos no
“complexo de próspero” (FANON, 1983, p. 88), a identificação idealizada com o
colonizador hegemônico.
A sociedade norte-americana sempre foi objeto de comparação com o Brasil.
Analisando as formas de construção racial na sociedade norte-americana Du Bois
(1999) propõe o conceito de dupla consciência do negro americano, que se refere ao
fato dos negros se verem de forma contraditória e contraposta pelos olhos de seu
15 Cumpre elucidar que utilizarei o adjetivo “positiva” porque é referendado na legislação e na
bibliografia nacional (GOMES, 2005; MUNANGA, 2009; BENTO, 2011) com o sentido de ressaltar a
formação de uma identidade que contempla o orgulho do pertencimento étnico-racial. Observa-se
também seu uso na literatura internacional, em especial nos estudos dos EUA sobre a construção da
identidade negra por crianças americanas, relacionando o conceito de identidade “positiva” à
auto-imagem, auto-identificação e identidade que valoriza sua condição racial ao invés de negá-la e se
identificar com o branco hegemônico, conforme amplo estado da arte realizado por Cross Jr (1991).
grupo de referência negro, ao mesmo tempo em que pelos olhos hegemônicos do
branco. Assim, os estudos realizados pelo NEAB-UFPR permitem supor que o
conceito de “dupla consciência” tem uma aplicação em outros países da diáspora
negra e que ajudam a compreender as complexas formas de negociação entre o
indivíduo e a sociedade brasileira racializada, na qual a norma branca também é
operante.
No que se refere à literatura norte-americana, a obra de Cross Jr. (1991)
realiza um minucioso estado da arte sobre as pesquisas norte americanas acerca da
construção da identidade negra em crianças, e do impacto do racismo sobre tais
construções. Com base na revisão de oitenta e nove pesquisas norte americanas
sobre a construção da identidade negra, o referido autor identificou dois diferentes
fatores relacionados a essas teorias: identidade pessoal (com componentes de
autoconceito, autoconfiança, autoavaliação, competência interpessoal, ideal de ego,
traços de personalidade, introversão-extroversão e nível de ansiedade), e
parâmetros do grupo de referência (reference group orientation no original, com
componentes de identidade racial, identidade de grupo, consciência racial, ideologia
racial, estima racial, imagem racial e autoidentificação racial). A análise das diversas
pesquisas apontou para um período entre 1939 (primeiro estudo) e 1960 com alta
predominância da “identidade negativa”, marcada pela presença opressora do
preconceito racial como parâmetro para o grupo de referência e correlacionada com
construções “negativas” da personalidade individual (insegurança, baixa autoestima
e autoconfiança, ansiedade, personalidade danificada). No contexto americano, os
movimentos negros pelos direitos civis produziram outros parâmetros do grupo de
referência negro, que tiveram impacto nos próprios resultados dos estudos e nos
estudos sobre preferências raciais, isto é, a proporção de crianças negras que
expunham a preferência pelo negro passou a ser maior (CROSS JR, 1991). Na
contemporaneidade o autor analisa os impactos das discussões públicas sobre a
“negritude” (negrescence), que indicam que “não há uma única forma de ser negro”
na sociedade americana (CROSS JR, 1991).
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
(páginas 60-64)