1 CAPITULO – SUBSÍDIOS DA FENOMENOLOGIA AO ENTENDIMENTO
1.1 IDENTIDADE COMO FENÔMENO DA SUBJETIVIDADE
Ao fazer referência à identidade missioneira, faz-se necessário expandir a investigação para aprofundar o entendimento sobre como ocorrem as Identidades. Indaga-se a respeito de sua existência, para tentar entender como ocorre este fenômeno e qual sua complexidade. Hall (2006) descreve um suporte de referências de grande magnitude, abordando as identidades atuais de maneira contundente. Alves (2012) informa sobre o sentido da palavra, a qual vem do grego Tautóles e do latim identitas, referindo-se ao caráter do que é idêntico. Tal conceito evoluiu, sendo
hoje denominado como um conjunto de características que distinguem as pessoas ou lugares, uns dos outros.
Em sua obra “A Identidade Cultural na Pós-Modernidade”, Stuart Hall (2006) desenvolve um estudo a respeito do tema, aludindo, inicialmente, que velhas identidades estão em declínio, especialmente pelo surgimento de novas identidades, que se verificam atualmente devido à notória fragmentação do individuo moderno. O autor comenta que as identidades modernas estão passando por um processo de “descentração”, se tornando assim, cada vez mais repartidas. Para o autor, tal fato ocorre devido às intensas transformações da sociedade, as quais fragmentam as paisagens culturais, segundo suas classes, gêneros, sexualidades, etnias, raças e nacionalidades, que anteriormente se caracterizavam por suas sólidas localizações enquanto indivíduos. Tal fato levaria a consequente perda identitária, resultante do processo de ausência de centro, ao que o autor chama de “descentração”.
Para Hall (2006) muitas vezes a identidade surge da interação pessoal com a sociedade, porém há uma crise nesse sentido, devido às grandes alterações sociais que são cada vez mais evidentes. A questão do sujeito vivido, o qual sempre possuiu uma identidade única e estável, também tem se fragmentado, pelo fato de muitas vezes possuir diversas identidades, algumas contraditórias, andando em direções opostas, não ressaltando uma identidade como a mais evidente.
Deste modo, existem dificuldades maiores no processo de identificação, visto que, o sujeito atual, tem grande tendência a não possuir uma identidade fixa e de caráter permanente. A forte mobilidade que é percebida nas identidades atuais acaba transformando-as continuamente, pois as mesmas, segundo o autor, estão intimamente ligadas aos sistemas culturais circundantes.
Atualmente, as mudanças repentinas e em caráter continuo que ocorrem no planeta, exercem um peso significativo sobre as identidades culturais. As alterações são profundas nesse sentido, onde se pode inferir a diferença de sociedades atuais e de sociedades tradicionais, aquelas que possuem um passado sempre enaltecido, com a valorização de símbolos que acabam perpetuando suas experiências para as próximas gerações.
Hall (2006) menciona o contexto da globalização como primordial nestas mudanças. Para o autor, existe forte interconexão entre diferentes áreas do globo, atingindo todo o planeta e, de certa maneira, modificando os processos identitários,
ao unir um todo neste contexto, originando novas formas individuais, com novas concepções sobre o sujeito em sua individualidade e consequente identidade.
As contribuições de Hall são de grande importância. Ao tratar de identidade o autor esclarece o que pensa na seguinte passagem: “Identidade é algo formado ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento” (HALL, 2006, p. 38). Em sequência o autor argumenta que as identidades nacionais compõem as principais fontes de identidade cultural, descrevendo que tais identidades não são coisas que nascem com o indivíduo, sendo elas formadas e transformadas no interior das representações, pois as nações nada mais são do que comunidades simbólicas com o poder de gerar sentimento de identidade e lealdade.
O pensamento de Hall (2006) traz a ideia de nação como comunidade imaginada, a qual insere identidades através de cinco aspectos fundamentais: (i) o primeiro deles são as narrativas acerca da própria nação (em sentido amplo de estado, gente, povo, habitante, país, pátria, terra, torrão) que se inserem no contexto, como as histórias, imagens, cenários, e também seus triunfos e perdas; (ii) o segundo aspecto considerado pelo autor é a ênfase dada às origens nacionais, onde se incentiva a continuidade das tradições; (iii) o terceiro aspecto diz respeito à invenção das tradições, nas quais se buscam atribuir valores e normas para a população por meio da repetição, dando continuidade a um passado histórico que se adeque ao contexto; (iv) o quarto aspecto fundamental é o fato de que uma nação para possuir uma identidade, precisa de um mito fundador, ou seja, o mesmo aspecto pode estar atrelado também a invenção, assim como as tradições; (v) o quinto e último aspecto diz respeito à identidade ligada à ideia de povo puro, original, formado por apenas uma etnia, desencadeando, muitas vezes, no preconceito a outros povos.
Para Castells (1999), que tem posicionamento contrário à ideia de comunidades imaginadas, algumas contradições entre teorias sociais e as experiências na prática contemporânea são resultantes do fato de o nacionalismo, assim como as nações, possuir vida própria, livre das condições impostas pelo Estado, mesmo estando inseridos em seus ideários culturais e políticos.
O quarto aspecto citado por Hall, é também comentado por Silva (2014) que ressalta que nas identidades nacionais, o uso do mito fundador é normal, onde tais identidades ocorrem pelo que foi proposto por Benedith Anderson como
“comunidades imaginadas”. De acordo com a análise de Silva (2014), tal fato ocorre com a intenção primeira de unir grupos de origens distintas em torno de uma história que possa os unir, onde se acabam criando laços imaginários de grupos que não possuíam nenhuma relação comum.
Silva (2014) afirma que o mito fundador normalmente remete a um momento crucial do passado, dando ênfase a alguns acontecimentos, os quais quase sempre se destacam por heroísmos, caráter épico ou pela grandeza do ocorrido, inaugurando as bases de uma suposta identidade nacional. Ressalta-se, assim, que pouco importa se os fatos contados são verdadeiros ou não. Na verdade, importam os seus resultados, visto que as narrativas fundadoras servem para identificar o seu povo, ligando os sentimentos e as afetividades com a sua história.
Por sua vez, Claval (2007) também ressalta a importância do mito fundador na institucionalização do espaço, aferindo que os ritos estabelecidos por diferentes sociedades fazem alusão ao rito de fundação, permitindo o reestabelecimento das condições originais no momento em que as práticas cotidianas fazem esquecê-las. De acordo com o autor, raízes antigas, históricas, míticas, ancestrais e étnicas acabam conferindo aos povos, o seu direito territorial, principalmente por o julgarem sagrado.
O caso das Missões se acomoda, de certa maneira, no que fora explorado acerca de comunidades imaginadas nas palavras de Silva (2014) quando o autor remete à iniciação de tais comunidades, forjadas com o intuito de unir pessoas de grupos e origens distintas, de maneira a ligá-las a algo maior, introduzindo nos distintos indivíduos, um sentimento comum que pode passar a relacioná-los. É o caso do “se sentir missioneiro”, que mesmo não sendo uma identidade nacional, pode ser vista de forma semelhante, visto que, a Região simboliza cada vez mais no presente, a importância do passado histórico das Missões. Findado o período Jesuítico-Guarani, os portugueses se estabeleceram na Região que, mais tarde, foi povoada por imigrantes europeus, com destaque para alemães, poloneses e italianos. Tais povos, que não foram personagens da história regional que se enaltece atualmente, hoje se assumem como missioneiros, onde são incentivados a viver a história regional, evidenciada em sua simbologia, a qual está identificada pelos elementos vinculados ao período histórico missioneiro, ainda que o mesmo tenha ocorrido num passado distante.
1.2 SENTIMENTO DE RELAÇÕES PROFUNDAS COM AS TRADIÇÕES