5. Análise das construções adversativas e das construções
5.1 Adversativas e concessivas: inserção textual, uso argumentativo e
5.1.1 Identidade de tipo textual nos segmentos da construção
Para o tratamento dos tipos textuais presentes nos segmentos das construções em estudo, apresentam-se, primeiramente, os dados referentes à construção adversativa:
Tipo textual nos segmentos da construção adversativa
Tipo textual Nº %
Narração 55 18,4%
Descrição 28 9,3%
Dissertação 215 72,1%
TOTAL 298 94,6%
No que se refere às adversativas, pode-se dizer que a maior frequência de segmentos com tipo textual dissertativo se justifica pela natureza essencialmente argumentativa do gênero editorial: o editorialista procura expor ideias e apresentar fatos com o intuito de levar o interlocutor à reflexão. O tipo textual dissertativo, portanto, serviria à função argumentativa,
visto que, como já se apontou, por meio da dissertação, busca-se refletir, avaliar, expor ideias. O segundo tipo textual mais frequente nos segmentos da construção adversativa é,
como se vê, a narração, o que parece dever-se ao fato de que, no editorial, relatam-se os fatos ocorridos para, em seguida, opinar sobre eles. Entretanto, como se mostrará na análise dos dados, algumas construções adversativas com tipo textual narrativo trazem, por exemplo, crítica, servindo, assim, à função argumentativa, o que justificaria a porcentagem relativamente significativa de construções adversativas com tipo textual narrativo.
A menor ocorrência do tipo textual descritivo nos segmentos da construção adversativa, por sua vez, já era esperada, dado que o editorial se caracteriza por apresentar situações de fatos e opinar sobre eles. Mesmo que as sequências descritivas tragam, muitas vezes, qualificações, elas vêm seguidas, em geral, por sequências dissertativas, pois o objetivo principal do editorial é discutir os fatos, oferecendo, assim, uma orientação ao leitor.
Visto isso, restaria observar se a relação entre os tipos textuais e os valores semânticos presentes na construção adversativa se mostra significativa para a análise. Apresenta-se quadro a seguir para verificar essa questão:
CONSTRUÇÃO ADVERSATIVA
TIPO TEXTUAL
VALORES SEMÂNTICOS
Contraposição em direção oposta
C ont ra pos iç ão na m es m a di re çã o C ont ra pos iç ão em di re çã o in de pe nde nt e E lim in aç ão V alo re s nã o pr evi sto s TOTAL C ont ra ste R es tr iç ão N ega çã o de in fe rê nc ia C om pe ns a ção Narração 21,9% 9 9 8,4% 21 30,8% 6 19,3% --- --- 3 33,3% 7 35% 55 18,4% Descrição 17% 7 7,5% 8 8,8% 6 12,9% 4 6,25% 1 14,2% 1 --- 5% 1 9,3% 28 Dissertação 60% 25 83,9% 89 60,2% 41 67,7% 21 93,7% 15 85,7% 6 66,6% 6 60% 12 72,1% 215 TOTAL 13,7% 41 35,5% 106 22,8% 68 10,4% 31 5,3% 16 2,3% 7 3% 9 6,7% 20 94,6% 298
Antes que se trate da relação entre os tipos textuais e os valores semânticos presentes nas adversativas, comentam-se os resultados obtidos em relação aos valores semânticos em específico.
No que diz respeito aos valores semânticos, observa-se que os dois mais frequentes são o de restrição e o de negação de inferência, o que parece dever-se ao fato de que nas adversativas que trazem esses valores geralmente há concessão, mecanismo largamente empregado em gêneros altamente argumentativos, como o editorial.
Por outro lado, a baixa ocorrência de construções com contraste não era esperada, visto que se trata de um dos valores mais comumente atribuídos às adversativas por gramáticos tradicionais e por linguistas em geral. Entretanto, lembre-se que não foram analisadas as adversativas em correlação, o que pode ter influído nesse resultado obtido. Além disso, nas adversativas contrastivas, não fica tão evidente, muitas vezes, a presença de concessão, que, como se disse, é muito utilizada em gêneros argumentativos.
A baixa ocorrência de adversativas com valor de compensação também não era esperada, pois, nesse tipo de construção, pesam-se pontos positivos e pontos negativos. A presença de pontos negativos no segmento adversativo serviria, por exemplo, para criticar, intenção comunicativa que é bastante comum no gênero editorial. No entanto, o próprio fato de o segmento adversativo trazer argumento defendido pelo locutor já parece ser suficiente para demonstrar o que ele considera como ponto negativo ou não, o que justificaria a baixa frequência do valor de compensação no córpus analisado.
Por outro lado, a baixa frequência de adversativas com eliminação não surpreende, pois esse valor seria mais próprio de textos narrativos, nos quais a anulação ou interrupção de ações ou processos contribui para dar maior dinamismo aos fatos narrados.
Verifica-se, também, que são pouco frequentes as adversativas com contraposição na mesma direção e as adversativas com contraposição em direção independente, o que se explicaria pelo fato de que, nesses casos, a relação de desigualdade é menos caracterizada.
Por fim, nota-se que há valores não previstos, aqueles que não se incluem na tipologia aqui adotada (a de Neves (2000)). Tais valores, entretanto, não são tão frequentes, o que se justifica pelo fato de que, como já se mencionou no capítulo 4, nesses casos, a relação adversativa entre os segmentos não fica tão clara.
Vistos esses resultados em relação aos valores semânticos, passa-se, agora, a associá- los aos tipos textuais presentes nas adversativas.
A partir dos dados registrados no quadro 2, verifica-se que a adversativa apresenta de forma mais frequente o tipo textual dissertativo, independentemente do valor semântico
presente na construção. Isso corresponde à expectativa, visto que o córpus deste trabalho é constituído de apenas um gênero, o editorial, que possui, predominantemente, tipo textual dissertativo.
Entretanto, alguns dados se revelam significativos para esta análise. Observa-se que em apenas três casos são numerosas (mais de 80%) as ocorrências com tipo textual dissertativo: quando estão envolvidos os valores de restrição, de contraposição na mesma direção e de contraposição em direção independente.
Isso ocorre no caso das adversativas restritivas porque, como se verá, o valor de restrição favorece o aparecimento de certas funções textuais que, pelo que sugerem os resultados obtidos, são mais relacionadas ao tipo dissertativo: a relativizadora e a questionadora. Além disso, como se mostrará, esse valor semântico favorece a presença de adendo no segmento adversativo, função discursiva que também parece estar mais ligada ao tipo dissertativo, já que é acionada para reforçar argumento defendido pelo locutor, contribuindo, assim, para convencer o interlocutor de algo.
Nas adversativas com contraposição na mesma direção, também há mais casos de tipo textual dissertativo porque, nestas, não se acrescentam, simplesmente, informações, mas argumentos. Nas adversativas com contraposição em direção independente ocorre algo semelhante: os segmentos adversativos são mais voltados para acrescentar um argumento ainda não considerado.
Por outro lado, nota-se que em três tipos de construção há mais de 30% de ocorrências com tipo textual narrativo: nas adversativas com negação de inferência, com eliminação e com valores não previstos.
Lembre-se que, em Grote et al. (1997), mostra-se que as construções contrastivas que expressam concessão podem ser utilizadas para informar sobre eventos inesperados. Verifica- se que nas adversativas com negação de inferência que expressam concessão fica mais evidenciado o efeito de surpresa produzido para informar sobre eventos inesperados, o que se justificaria pelo próprio fato de que, ao negar-se inferência, quebra-se a expectativa. As adversativas com valor de eliminação, embora não expressem concessão, não deixam de manifestar de forma bastante evidente o efeito de surpresa, pois a anulação de ações ou de processos também contribui para quebrar a expectativa. Isso explicaria a frequência significativa de adversativas com negação de inferência e com eliminação que trazem tipo textual narrativo.
No caso das adversativas com valores não previstos, verifica-se que, em geral, o fato de tais construções não exibirem de forma tão clara o caráter opositivo, como já se mostrou,
pode ter contribuído para que elas sejam utilizadas mais frequentemente para acrescentar informações.
Por fim, observa-se que, nos casos em que as adversativas trazem contraste ou compensação, as porcentagens registradas em relação aos diferentes tipos textuais se distribuem de forma mais equilibrada do que nos casos restantes de valores semânticos apresentados no quadro 2 (embora seja mais frequente o tipo textual dissertativo). Isso aconteceria devido à presença de características peculiares das adversativas que trazem os valores de contraste e de compensação. Nas adversativas contrastivas opõem-se elementos em sentido estrito e nas adversativas com valor de compensação pesam-se pontos positivos e negativos. Parece que tais características não levariam tais tipos de construções a favorecer a presença de uma tipologia textual em específico107.
Na análise dos dados, retomam-se algumas dessas observações feitas a respeito da relação entre os tipos textuais e os valores semânticos presentes nas adversativas. Faça-se a ressalva, porém, de que se examinam mais detidamente as adversativas que trazem os valores compartilhados com as concessivas: o de contraste, de restrição e de negação de inferência.
Adiante, registram-se os resultados referentes à relação entre tipos textuais e valores semânticos das concessivas para compará-las com as adversativas. No entanto, trata-se primeiramente dos tipos textuais isoladamente, observando-se os dados presentes neste quadro:
Tipo textual nos segmentos da construção concessiva
Tipo textual Nº %
Narração 6 16,6%
Descrição 3 8,3%
Dissertação 27 75%
TOTAL 36 100%
Quadro 3. Tipo textual nos segmentos da construção concessiva
Verifica-se que, da mesma forma que ocorre na construção adversativa, na concessiva o tipo textual dissertativo é mais frequente. As justificativas apresentadas quando se tratou das
107 Vale comentar que Duque (2008), analisando o mas na fala e na escrita (e em diversos gêneros discursivos),
registra que o valor de compensação ocorre, principalmente, em segmentos com tipo textual descritivo. No córpus aqui analisado, o valor de compensação não aparece com frequência em segmentos com tipo descritivo, o que poderia ser explicado pelo fato de que o córpus deste trabalho é constituído de apenas um gênero, que privilegia a presença do tipo textual dissertativo, como já se disse.
adversativas também se aplicam no caso das concessivas. O tipo textual dissertativo seria o mais recorrente pela própria natureza do córpus. Nota-se, também, que as porcentagens referentes a cada tipo textual se aproximam daquelas registradas no quadro 1, que traz os dados atinentes às adversativas.
Recorreu-se ao córpus de controle para observar se esses dados se confirmam:
Tipo textual nos segmentos da construção concessiva
Córpus de controle Tipo textual Nº % Narração 10 13,8% Descrição 6 8,3% Dissertação 56 77,7% TOTAL 72 100%Quadro 4. Tipo textual nos segmentos da construção concessiva (córpus de controle)
Nota-se que, no córpus de controle, a porcentagem referente às concessivas com sequência dissertativa se aproxima daquela registrada no córpus inicial, o que confirma os dados obtidos.
Apesar disso, observou-se que, no córpus inicial, as concessivas trazem, em relação às adversativas, uma porcentagem ligeiramente menor de casos em que há tipo narrativo. Tal resultado se confirma no córpus de controle, pois, neste, as porcentagens referentes ao tipo narrativo se aproxima daquelas registradas no quadro 3. Tal diferença entre as adversativas e as concessivas será justificada na análise a ser empreendida.
Visto isso, passa-se a registrar, agora, os resultados obtidos no exame da relação entre os tipos textuais e os valores semânticos das concessivas:
CONSTRUÇÃO CONCESSIVA
Tipo textual
VALORES SEMÂNTICOS
Contraste Restrição Negação de
inferência TOTAL
Narração --- 25% 1 17,8% 5 16,6% 6
Dissertação 75% 3 25% 1 82,1% 23 75% 27
TOTAL 11,1% 4 11,1% 4 77,7% 28 100% 36
Quadro 5. Tipo textual e valores semânticos na construção concessiva
A primeira observação a fazer é que a maioria das concessivas traz valor de negação de inferência, o que era de esperar, pois, como se apontou no capítulo 2, trata-se de um valor mais próprio dessas construções.
No que diz respeito à relação entre tipos textuais e valores semânticos, verifica-se que o tipo dissertativo predomina quando estão envolvidas apenas as construções com contraste e com negação de inferência.
Além disso, nota-se que há, em relação às adversativas, um número relativamente maior de concessivas com negação de inferência que trazem tipo dissertativo e um número relativamente menor de concessivas com esse valor que apresentam tipo narrativo.
Faz-se necessário, porém, analisar os resultados obtidos no córpus de controle para verificar se esses dados se confirmam:
CONSTRUÇÃO CONCESSIVA Córpus de controle
Tipo textual
VALORES SEMÂNTICOS
Contraste Restrição Negação de inferência TOTAL
Narração 16,6% 1 12,5% 1 13,7% 8 10 13,8% Descrição 16,6% 1 25% 2 5,1% 3 8,3% 6 Dissertação 66,6% 4 62,5% 5 81% 47 77,7% 56 TOTAL 8,3% 6 11,1% 8 80,5% 58 100% 72
Quadro 6. Tipo textual e valores semânticos na construção concessiva (córpus de controle)
A partir dos resultados registrados no quadro 6, nota-se que o valor semântico de negação de inferência ainda é predominante, o que era de esperar. Observa-se, também, que o valor de restrição é o segundo mais recorrente, mas não é possível chegar a conclusões
definitivas, visto que, mesmo no córpus de controle, o número de ocorrências não se mostra suficiente.
No que se refere à relação entre tipo textual e valor semântico, verifica-se que o tipo dissertativo prevalece não apenas nas concessivas com negação de inferência e com contraste, mas também nas concessivas com restrição, o que corresponde à expectativa, já que o gênero editorial traz, predominantemente, o tipo textual dissertativo.
Nota-se, também, no quadro 6, que as porcentagens registradas em relação às concessivas que trazem, ao mesmo tempo, negação de inferência e tipo dissertativo e às concessivas que apresentam, ao mesmo tempo, negação de inferência e tipo narrativo se aproximam daquelas obtidas no quadro 5.
No que concerne às concessivas restritivas, também se observa que, apesar de predominar o tipo textual dissertativo, a porcentagem que representa esse tipo de construção não chega a atingir 80% (no córpus inicial e no de controle), diferentemente do que se dá nas adversativas restritivas. Contudo, como foram identificadas apenas 8 concessivas restritivas, não é possível dizer se essa distinção entre as adversativas e as concessivas se confirma.
Feitas essas considerações, analisam-se, adiante, as adversativas e as concessivas tendo-se em vista, entre outros aspectos, os tipos textuais, as funções textuais e os valores semânticos identificados nessas construções. Ressalte-se que serão tratados os valores semânticos das construções referidas quando se obtiverem resultados que se mostrarem relevantes para os objetivos propostos neste trabalho.
A seguir, analisa-se, separadamente, cada tipo textual presente nas construções em estudo. Inicia-se a discussão com o tipo textual mais frequente nas adversativas e nas concessivas: o dissertativo.
A) Adversativas e concessivas com tipo textual dissertativo
Não é novidade que as adversativas e as concessivas, quando trazem tipo textual dissertativo, são utilizadas, normalmente, para convencer o interlocutor de algo. Assim, o que se pretende investigar, levando-se em conta as funções presentes nessas construções, é a forma pela qual as particularidades de cada construção influem para a determinação de diferentes efeitos de sentido.
Em relação às adversativas e às concessivas com tipo textual dissertativo, ocorrem nos segmentos dessas construções, em geral, as funções de avaliação e/ou opinião e de constatação, mas a função de avaliação e/ou opinião é mais frequente em ambas as construções.
O mais comum é que, nessas construções, a função de avaliação e/ou opinião apareça em ambos os segmentos, independentemente do valor semântico108 envolvido. Isso ocorre em pouco mais de 79% das adversativas e em pouco mais de 70% das concessivas (no córpus inicial e no de controle).
A grande recorrência da função de avaliação e/ou opinião tanto nas adversativas quanto nas concessivas se justifica pelo fato de que, no editorial, para sustentar um ponto de vista, com o intuito de convencer o interlocutor, o locutor deve apresentar avaliações e opiniões sobre os fatos relatados. Visto isso, caberia verificar quais seriam as possíveis motivações para a utilização de uma construção em vez de outra.
Para iniciar a discussão, apresentam-se, primeiramente, construções adversativas nas quais há função de avaliação e/ou opinião:
129) A obra é muito discutível, mas a atitude do bispo é indefensável. (OESP, 21/12/07) 130) Mesquita, cujas credenciais técnicas para ocupar o cargo são inquestionáveis, não é o
maior nem o único culpado pelo desastre que se avizinha, mas faria melhor se não tentasse travestir o fracasso de modernidade. (FSP, 17/11/07)
131) O cenário pode ser preocupante para alguns analistas, mas o Brasil pode estar diante
de uma oportunidade preciosa de bons negócios. (OESP, 16/12/07)
Quando se apresenta avaliação e/ou opinião em ambos os segmentos da construção adversativa, como ocorre em 129, 130 e 131, a avaliação ou opinião expressa no segmento inicial serve para fazer prevalecer a avaliação ou opinião que se apresentará no segmento adversativo, que traz argumento defendido pelo locutor. Assim, reconhece-se uma possível avaliação ou opinião do interlocutor para, em seguida, fazer-se prevalecer a avaliação ou opinião do locutor.
Como se vê, é evidente que a predominância de uma avaliação ou opinião se dá pelo próprio fato de ela ser apresentada no segmento adversativo, no qual se mantém a “preferência” (GARCÍA, 1994). Em 129, por exemplo, verifica-se que o locutor pretende chamar atenção para a atitude reprovável do bispo, e não para o fato de que a obra é discutível. Isso fica mais claro quando se observa que o texto progride levando em conta a direção indicada por esse argumento: no último período do editorial, diz-se que “A sua
108 A partir daqui, sempre que se fizer referência a valor semântico, trata-se, especificamente, dos valores
compartilhados entre as adversativas e as concessivas: de contraste, negação de inferência e restrição. No entanto, quando se discorrer sobre a inserção dessas construções em trechos narrativos, faz-se alusão ao valor de eliminação, que é particular das adversativas.
transgressão [a do bispo], insista-se, foi a tentativa de prevalecer sobre o governo de uma nação em que Estado e Igreja são entes distintos”.
Na concessiva, a predominância de uma avaliação ou opinião também se dá pelo fato de essa construção ser incluída na “lei da preferência” (GARCÍA, 1994):
132) A escalada autocrática de Chávez é notória, embora ocorra sem ruptura formal da
democracia. (FSP, 25/11/07)
133) Por esse motivo, é bastante provável que também os dados do emprego industrial no
País relativos a novembro, embora possam indicar queda na comparação com outubro, confirmem a melhora em relação a 2006. (OESP, 15/12/07)
Em 132 e 133, a avaliação e/ou opinião que prevalece é, obviamente, aquela que aparece no segmento nuclear, no qual está presente a preferência. Em 132, por exemplo, o locutor pretende destacar um ponto negativo de Chávez: a sua escalada autocrática. No editorial, o texto progride levando em conta a direção indicada por esse argumento, pois se objetiva mostrar a inconveniência de o Brasil aceitar a Venezuela como sócia plena no Mercosul, como se verifica neste trecho, que aparece em uma porção posterior do editorial:
Dar a Chávez o poder de veto no Mercosul seria caminhar no sentido contrário.
Entretanto, há que diferenciar as concessivas das adversativas segundo a posição sintática em que se manifesta o segmento concessivo na maior parte das ocorrências. Nota-se que, na maioria das concessivas que trazem avaliação e/ou opinião em ambos os segmentos, o segmento adverbial vem na posição anteposta (em cerca de 68% e em 71% das ocorrências do córpus inicial e do de controle, respectivamente), como se exemplifica a seguir:
134) Embora o caráter protecionista da medida seja óbvio, seria ocioso bradar contra ela. (FSP, 17/12/07)
135) Embora seja difícil convencer o usuário disso, o modelo paulista é defensável. (FSP, 15/11/07)
136) Embora mostrem alguma divergência, estimativas feitas por órgãos do governo e por
institutos privados coincidem num ponto: a agricultura prepara-se para quebrar novos recordes, agora não só de produção, mas também de renda. (OESP, 12/11/07)
A possibilidade de antepor o segmento concessivo ao segmento nuclear faz que seja produzido um efeito de sentido particular. Nesses casos, por meio da anteposição do segmento concessivo, já se antecipa que a avaliação ou opinião apresentada nesse segmento não é a que prevalecerá, reforçando-se, assim, o argumento que virá no segmento posterior.
Desse modo, pode-se afirmar que, embora seja possível apresentar avaliação e/ou opinião tanto nas adversativas quanto nas concessivas, em geral se opta por utilizar a construção concessiva, por exemplo, para antecipar que o locutor fará objeções ao argumento (à avaliação ou opinião) do interlocutor.
Contudo, quando a construção concessiva que traz avaliação e/ou opinião tem valor de restrição, o segmento adverbial ocorre, no córpus de controle, na posição posposta em 50% dos casos registrados, como se vê a seguir:
137) Nunca antes neste mundo, parafraseando o presidente Lula, as condições materiais de
existência de tantas centenas de milhões de pessoas mudaram espetacularmente para melhor em tão pouco tempo – embora os beneficiários desse salto quântico ainda sejam apenas mais ou menos 1/3 da população de 1,3 bilhão. (OESP, 22/10/07)
Acredita-se que a frequência significativa de segmentos concessivos pospostos nos casos em que há restrição se deve ao fato de que esse valor seria mais relacionado a uma pós- reflexão.109 Em 137, por exemplo, para que se especifique, no segmento concessivo, a quantidade de pessoas beneficiadas, deve-se ter em mente que já foi dito anteriormente que certas pessoas foram beneficiadas.
Nas demais concessivas restritivas que trazem avaliação em ambos os segmentos, há, no córpus de controle, segmento adverbial intercalado em 25% dos casos e segmento