II. QUILOMBO DO URUBU E O LEVANTE EM 1826
3.1 Identidade de Zeferina
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Sobre os povos Kimbundu vide PEGADO, Ana Maria. In: Revista Angolana de Cultura Mensagem 5. Portugal: Editorial Caminho, 1990, p.3-9.
A identidade de Zeferina tem sido resgatada nas bocas dos (as) militantes políticos da resistência do subúrbio baiano. Sobretudo nos terreiros, a identidade dessa líder guerreira foi salvaguardada e, hoje, essa história de luta contra o sistema escravista travada em 1826 no Quilombo do Urubu é relembrada enquanto elemento que confere poder e reconstrução de identidade individual e coletiva dos atuais quilombolas a partir de suas origens guerreiras e de ancestralidade.
No dia 20 de novembro, acontece, em celebração ao Dia Nacional da Consciência Negra, o Arrastão Zumbi, da Suburbana até o Parque São Bartolomeu. Neste dia, celebra-se a imortalidade de Zumbi e o espírito guerreiro de Zeferina, a líder quilombola, é invocado enquanto referencial na luta de resistência, e todos os participantes exigem reparação na saúde, educação, atitudes contra a discriminação de ordem racial, de gênero enquanto direito, dos cidadãos negros brasileiros.
Mas, o que o Dia Nacional da Consciência Negra tem a ver com a luta de Zeferina? Do ponto de vista histórico, sabe-se que esse dia refere-se à morte do grande herói Zumbi de Palmares. Por isto, acredita-se que a comunidade afro-descendente da Suburbana tem ligação direta com tais festividades, e, em se tratando de uma heroína como Zeferina, essa identificação é mais forte ainda.
No Arrastão Zumbi da Suburbana, Zeferina é vista como a líder negra que se destacou na organização de lutas em defesa da comunidade quilombola e é convocada a alimentar a caminhada atual. O Arrastão Zumbi representa um elo histórico e político que nos une à África e à diáspora negra. Zumbi, Zeferina, Luiza Mahin, os revolucionários de Búzios, os Malês, os negreiros e suas sacerdotisas e sacerdotes, os
blocos afro e suas lideranças - os quilombolas de hoje e de ontem - são a base de nossa resistência negra.
No bairro de Pirajá e arredores, celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, a partir da rememoração da luta de Zumbi, de Zeferina e tantas outras pessoas negras que lutaram pela libertação e respeito aos seus direitos se constitui num momento de reafirmação de uma consciência negra, valorização de talentos da juventude suburbana, promoção da auto-estima e ocasião de denúncias contra qualquer distinção, exclusão, restrições ou preferências baseadas na raça, cor e descendência.
O Arrastão Zumbi faz um trajeto que vai do bairro de Escada (Suburbana) ao Parque São Bartolomeu, área de localização de um antigo quilombo conhecido pelo nome de Urubu, que contou com a liderança de Zeferina e tem sua história marcada por resistências às várias tentativas de destruição por ordens do Estado baiano (início do século XIX).
O Arrastão do 20 de Novembro é o ponto alto da comemoração ao Dia Nacional de Consciência Negra, mas, excepcionalmente, no ano de 2002, aconteceu em 21 de março, em atenção ao dia que marca a Luta Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial. A organização do evento tem a participação dos Agentes de Pastoral Negros - APN’s de Salvador, do Mocambo Dandara, do Grupo Cultural Malês, do Movimento Artístico Capoeira de Raízes, do Grupo Pastoral, das Igrejas Presbiterianas Unidas e Católicas, da Associação Quilombo Zeferina, do Partido dos Trabalhadores - PT, do Grupo de Sacerdotisas do Parque, das escolas públicas, dos grupos ecológicos do Parque São Bartolomeu, dos estudantes universitários, do Pré-
Vestibular Quilombo do Urubu, de cantores, políticos, lideranças religiosas e outras representações.
Partindo do pressuposto de que no imaginário da comunidade de Pirajá e arredores Zeferina exerceu a liderança no Quilombo do Urubu e de que essa história de luta de resistência vem sendo reconstruída e re-significada enquanto referencial de resistência às exclusões sociais atuais, pergunta-se: o que os textos históricos dizem sobre ela? E a tradição oral?
Na historiografia oficial, Zeferina é trazida para o centro das atenções dos escritores escravistas coloniais e dos comprometidos com as questões negras, sendo mencionada superficialmente enquanto líder do Quilombo do Urubu. Zeferina recebe títulos de rainha, chefe, quilombola, guerreira, ligada a uma casa de candomblé localizada no centro desse quilombo e que por ocasião do levante foi presa e obrigada a exercer trabalho forçado (como, por exemplo, as citações de Clovis Moura, Maria Lúcia de Barros Mott, Walter Passos, Kátia Mattoso, Heitor Frisotti, entre outros).
Na maioria dos relatos que mencionam a líder Zeferina, é comum encontrar partes que afirmam que ela enfrentou os soldados até o fim, armada com arco e flecha. O presidente da província, maior autoridade da época na Bahia, reconheceu nela capacidade de liderança, chamando-a de rainha (REIS, 1986, p.75).
Segundo Maria Inês Cortes de Oliveira, Zeferina é de origem angolana que, na primeira metade do século XIX, foi trazida ainda criança nos braços de sua mãe Amália, e já na condição de escrava (OLIVEIRA, 1989, p.178).
Segundo a história oral5, Zeferina faz parte de uma passagem da história da Bahia, foi uma descendente direta de escravos e fundou o Quilombo do Urubu para proteger a si e seu povo da escravidão. Ali, junto com os índios, organizou os escravos fugitivos, sendo uma grande liderança de um quilombo situado na região do Cabula e que, ali, foi uma grande guerreira que, bravamente e com habilidade, lutou com as tropas policiais para libertar “sua gente” da submissão e opressão. Por ser líder, ela foi levada presa e morreu na carceragem local. Os seus restos mortais foram sepultados em algum lugar do Cabula.
A tradição oral conta que ela foi uma escrava, guerreira e que com seu arco e flecha fez a revolução do povo escravizado, contando com a proteção dos seus antepassados e orixás. E ainda afirma-se que as redondezas onde foi fundado o quilombo serviam de resistência para as tropas portuguesas que ali sempre tentavam invadir sem sucesso. Ela tem uma história de luta e resistência que é exemplo para todos nós e de que há uma música que se refere a ela como uma líder negra e quilombola.
A líder Zeferina foi uma escrava, quilombola que, ao persistir seu ideal de liberdade, protagonizou a história de resistência quilombola dentro de uma especificidade de gênero em Urubu. Hoje, a comunidade da Suburbana luta para manter viva a memória de resistência dessa líder guerreira como meio de se apropriar de uma herança enquanto referencial de resistência na luta contra a exclusão social atual.
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O conteúdo dos dois parágrafos a seguir tem a finalidade de contribuir de forma complementar na reconstrução da identidade da líder Zeferina e é resultado de entrevistas feitas em 22/01 a 08/03 do corrente ano, com 20 lideranças negras e moradores locais, sobretudo religiosas, pertencentes ao candomblé. Os entrevistados eram de ambos os sexos e com idade entre 30 a 63 anos conforme apêndice.
Portanto, é fácil compreender que, sobretudo para comunidade suburbana, rememorar essa história de resistência, de organização, de liderança e de luta quilombola a partir da negra Zeferina é também exercer um poder de resistência, traduzido no desejo e na busca de capacidade para desenvolver uma relação comunitária de solidariedade, de transgressão e pela vida, por justiça e de táticas de sobrevivência, diante da situação de exclusão social vigente nessa periferia baiana.
É possível suspeitar que essa mulher africana, devido a sua prática revolucionária, a favor do seu povo, sobretudo no levante de 1826, através da tradição oral, tenha recebido conhecimento, desde criança, do sistema matrilinear de origem banto, presente na cultura tradicional africana.
Tudo leva a crer que o poder de Zeferina, visível na sua atuação como sujeito participante do processo contraditório ao sistema escravista, teve raiz histórica na cultura africana. Esse saber herdado chegou até Zeferina através do processo de educação informal materna. Essa tradição oral de resistência cultural serviu para salvaguardar um arcabouço que envolveu conhecimento histórico, mítico e místico de resistência de matriz do sistema matrilinear de Angola. Ainda mais, suspeita-se que o poder de Zeferina tenha vindo da herança de sua ancestralidade e de que tenha sido uma das sacerdotisas do Candomblé de Caboclo que se localizou no centro desse quilombo.
Mas, antes de iniciar o exercício de imaginação criativa a fim de reconstruir o poder de Zeferina com base nas suspeitas acima, cabe apresentar uma breve discussão teórico-reflexiva do termo poder, enquanto possibilidades conceituais que melhor
aproximem ao tipo de poder que se imagina ter sido exercido por Zeferina no Quilombo do Urubu.