Ao discorrer sobre a problemática da identidade na esfera da sociologia, compreendemos pelos aportes teóricos apresentados os fenômenos que circundam a construção identitária. Neste sentido, ao utilizarmos este conceito pudemos encontrar na presente pesquisa algumas reflexões sobre as teorias neste campo da identidade e confrontá-las com os dados.
Para iniciar este assunto me reporto a Bauman (2005) diante de sua analogia do jogo da construção de identidade como um quebra-cabeça, no qual se desconhece o
192 desenho final, mas o importante é o encaixar das peças, que vão configurando uma arte. Acho muito interessante tal pensamento ao refletir sobre a constituição identitária segundo as afinidades, que leva os sujeitos a direcionarem seus caminhos. Ao fazer suas escolhas, elas vão se moldando e configurando um sujeito dotado de valores, conhecimentos, saberes, etc. Mas o que mais me chama a atenção nesta analogia com os dados da pesquisa é a falta de uma imagem final para estes professores ao se verem atuando no ensino da agroecologia. Sendo assim, sua interação com este jogo é dotado de muita insegurança e de aspectos um tanto quanto desafiadores.
Ao nascermos recebemos através da educação familiar o processo de socialização primária, que se configura numa relação de aprendizados ao interagir com o universo fora do corpo. Esta necessidade de se relacionar faz com que busquemos a aprovação das pessoas que nos cercam. Mas no processo de socialização secundária o universo profissional nos leva a fazer escolhas de onde queremos encontrar afinidades para o exercício que, até segunda ordem, nos acompanhará durante um processo de construção profissional. E assim interagimos com este universo ainda muito jovem, mas destinados a responder uma pergunta do senso comum “o que você vai ser quando crescer?”. Nos estudos de Berger e Luckmann (1996) podemos compreender que na socialização secundária ainda carregamos a base do primeiro processo de socialização. Assim, ao fazermos uso nesta pesquisa de histórias de vida e trajetórias, buscamos elementos para refletir sobre a base das escolhas profissionais destes educadores. O que encontramos foi uma identificação com a área das Ciências Agrárias, e podemos afirmar que todos estes professores apresentam esta característica.
Ao pensar na questão apresentada da crise de paradigmas que a educação profissional agrícola enfrenta, vemos que estes professores se encontram no „olho do furacão‟ deste processo. Pois estão atuando em um curso ainda em construção, no qual a maioria deles não teve formação, e que os colocam no processo de vivenciar esta crise paradigmática na sua prática docente. Não podemos deixar de observar que isto cria uma oportunidade de enxergar outras perspectivas de formação deste campo científico, que pode se caracterizar como um „despertar‟ para o que antes não se fazia necessário, ou não os atingia diretamente.
Acontece que além desta disputa de paradigmas, a agroecologia se desdobra numa reflexão sobre os impactos socioambientais das atividades agropecuárias, o que
193 me faz observar que muitos destes professores não tiveram esta reflexão crítica em seu processo formativo. E agora com sua atuação na agroecologia estão passando por este processo, de olhar para outros caminhos e buscar novos conhecimentos, o que caracteriza uma nova abordagem de sua construção profissional. Enquanto isso, outros que tiveram a busca e conscientização crítica pela agroecologia durante sua trajetória, se encontram em outro momento, que é de colocar em prática um ideal de formação, mas que ainda assim é desconhecido e não parte de uma referência concreta.
Se este encontro com a agroecologia representa ou não um despertar para a questão, isto é respondido ao verificarmos que os professores buscam uma formação diferenciada, e que eles se sentem incomodados em jogar este quebra-cabeça sem saber a imagem final. A insegurança é uma das principais características observadas neste processo de experimentação. Bauman nos alerta ainda que se caminha ao encontro do desconhecido, acompanhado pela ansiedade e a expectativa. A principal informação que temos do atual momento na configuração identitária destes educadores da agroecologia é que eles vivenciam o momento das incertezas, o que leva alguns professores a se fecharem para esta aventura e outros a se aventurarem por esta busca. Em uma dimensão maior, a questão impacta outros elementos que compões este processo de socialização: o espaço profissional e a configuração histórica da educação agrícola.
Além do campo de trabalho docente, esta situação se reflete nas duas identidades profissionais em perspectiva. Uma já consolidada com um campo de atuação configurado (no caso, o professor agrônomo), e outra ainda em processo de territorialização (o técnico e o tecnólogo). Neste processo o educador interage com as instabilidades e as lutas que serão travadas para que o profissional agroecólogo conquiste seu espaço de atuação. Trazemos as contribuições de Dubar (2005) em nossas considerações sobre a construção conjunta desta identidade profissional, porém o educador precisa se inserir ou não neste processo de identificação com o espaço do agroecólogo, visto que ele não é um agroecólogo. A sua identificação com esta área pode levar a um reconhecimento de seu papel formador deste campo de atuação profissional. Isto faria com que este professor reconhecesse dentre as suas identidades adquiridas, as afinidades que convergem para esta interação no processo de construção das duas perspectivas, tanto do educador como do profissional em agroecologia. Tal afirmação se baseia na convergência das esferas profissionais, quando constatamos que
194 os professores entrevistados, tendo ou não formação na área, se encontram e interagem no mesmo processo de busca por uma identidade de educador da agroecologia.
Ao refletir sobre este aspecto, tenho como referência as narrativas dos professores, onde eles nos afirmam esta busca, mas ao mesmo tempo não podemos deixar de considerar o inesperado, ou até mesmo o não despertar para a consciência agroecológica. Quando a atuação no ensino da agroecologia pode ser uma identidade experimental, mas não familiarizada, o que Baumam denomina de „identidade até segunda ordem‟, podemos encontrar professores com um discurso sobre a importância da agroecologia, mas sem internalizar esta perspectiva, somente atuando nestes cursos por uma questão profissional e não ideológica. Portanto, o que podemos inferir é que esta atuação gera algum impacto na perspectiva de construção de identidades, mas não podemos medí-la, visto que é subjetiva e pessoal.
De qualquer forma podemos continuar nossa reflexão sobre a formação docente. Entendo que este processo é construído no decorrer da trajetória profissional e que, ao se deparar com os desafios do cotidiano, faz-se necessário a busca para ultrapassar tais barreiras. Mas a questão provocativa desta pesquisa é de que a agroecologia não se limita a uma técnica, visto seu cerne de militância social e sua projeção filosófica, como apontada nas concepções destes educadores. Assim, ao se deparar com a necessidade de conhecer a agroecologia este educador pode encarar este desafio de diferentes formas, até mesmo tratando-a como uma técnica de produção ambientalmente sustentável. Temos constatado esta característica em muitas das definições de agroecologia. O que concluímos é que, ao interagir com este campo de formação, o educador pode se afinar ou não com o movimento da agroecologia enquanto ideologia.
Esta questão impacta no desenho histórico da formação em agroecologia na educação formal profissional, visto que estes profissionais agroecólogos configuram no imaginário social uma identidade profissional. Na busca por um ideal de formação em agroecologia estes cursos são estruturados pelos educadores que vivenciam tal conflito identitário questionado em nossas considerações. Sendo assim, observamos que as bases epistemológicas de formação nestes cursos podem estar amparadas nos princípios da agroecologia enquanto militância social e política, como por outro lado, podem configurar uma formação simplesmente ambientalista das técnicas agrícolas. Meus questionamentos quanto ao processo de identificação com a agroecologia destes
195 educadores é de que a partir dela se configuram suas estruturas de formação dos cursos de agroecologia. Mas estamos explorando inicialmente os „rabiscos‟ deste desenho histórico e teremos muitos outros processos que influenciarão na elaboração desta arte. O que nos cabe aqui é contribuir para tais questionamentos com considerações cabíveis, mas sem apresentar muitas respostas.
Assim temos como diálogo neste campo teórico das identidades, um educador que conflita com os paradigmas de sua formação acadêmica diante do desafio de se constituir um educador em agroecologia. A insegurança é um pilar que sustenta esta busca por um campo de identidade profissional ainda em construção embrionária, gerando o momento de experimentação e de incertezas. Neste cenário que ocorrem as fragmentações das identidades, como teorizado com Stuart Hall (2000), na medida em que este processo interage com as mudanças políticas e estruturais da formação das Ciências Agrárias, através da incorporação do paradigma da agroecologia na educação formal.
Ao observarmos o quadro apresentado, temos de um lado a busca subjetiva de uma conscientização sobre os princípios da agroecologia e as afinidades com este movimento, e por outro a simples incorporação do debate ambiental nas técnicas agropecuárias. De qualquer forma em qualquer destas perspectivas os professores almejam por uma formação sólida em agroecologia, e caracterizam esta busca pela construção identitária enquanto profissional docente nesta área. Que inclusive parte de uma base de formação científica estruturada já consolidada, nos permitindo concluir que este processo não começa do zero, mas configura uma reconstituição identitária no campo profissional das Ciências Agrárias.
O que é importante de se observar são os caminhos que tais reflexões apontam, visto que esta dissertação alerta para a necessidade de um processo formativo destes educadores, mas tendo como base os processos de militância que articulam os princípios da agroecologia nas esferas social, política, cultural, econômica e ambiental. Desta forma, para que a agroecologia não seja apropriada pelas estruturas hegemônicas de poder, é necessário fortalecer este movimento e partir do processo de formação.
Outra perspectiva que vejo ao longo prazo deste processo é de que este conflito identitário do educador das Ciências Agrárias se aproxima de todos os atores da
196 educação profissional, ao passo que observando os caminhos das atividades humanas podemos ver que cedo ou tarde será inevitável compreender a necessidade de mudar o rumo da história. E isto só será possível com a atuação política, a presença do humanismo nas relações interpessoais e a sensibilidade da consciência planetária para a sobrevivência da sociedade, construídas por uma educação crítica e emancipadora.