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Identidade, dramaturgia, história e educação

Partimos do pressuposto de que as mudanças no modo de vida muitas vezes são formas de resistência. Sobretudo na escola indígena, há forte pressão para que ela seja diferenciada, mas a ausência do uso de conhecimentos próprios e da língua indígena na rotina da escola é visível e muito criticada. No entanto, se os povos assim quiserem, eles têm o direito de privilegiar os conhecimentos ocidentais em suas escolas, inclusive de continuar a ser e permanecer trabalhando da forma que estão. Com base em críticas e valores sobre a questão, Eagleton 1990 apud Bhabha, 2003) considera que:

A questão política fundamental é a de reivindicar o mesmo direito que têm os outros de tornar-se aquilo que se quer ser, e não assumir alguma identidade pré-moldada que é simplesmente reprimida (Eagleton, 1990 apud Bhabha, 2003, p.332).

Por outro lado, mesmo diante de tantas mudanças, o uso da língua Wapichana pode ser importante, ter o poder de coesão social e ser um dos fatores fundamentais na construção da identidade Wapichana. Nos discursos das lideranças indígenas é evidente o desejo de que sua educação escolar seja diferenciada e bilíngue. Mas pelo que observamos e entendemos até então, na prática, as escolas buscam estratégias e conseguem inserir apenas uma pequena dose da própria arte, línguas e de suas narrativas nas aulas e apresentações culturais.

Sem dúvida as artes e especialmente o teatro tem muito a contribuir na discussão. Seja estabelecendo o debate, permitindo que o

público assista de fora “a vida como ela é” representada no teatro. Outro papel que a prática teatral vem assumindo é o de divulgar conhecimentos históricos em relação a valores, lugares e pessoas importantes para a cultura, os quais vinham perdendo espaço para as televisões nas comunidades por exemplo.

Nos textos criados até o momento, os indígenas, na maior parte das ocasiões estudantes de Universidade Federal de Roraima, professores e alunos das escolas indígenas, retrataram as formas de esquecimento forçado e a proibição, pelo Estado, do uso da língua indígena sofrido pelos povos.

Das situações dramatizadas, algumas foram vivenciadas pelos alunos e recontadas no teatro, outras foram histórias ouvidas e também houve pesquisa em fontes bibliográfi cas para construção dos textos teatrais. Há cenas em que a menina foge e casa com um não índio porque a família não aceita a união. Quando começa a cantar na língua Wapichana o marido crítica “já não disse para você não cantar nem falar essa língua feia!” (Texto criado pelos alunos na ofi cina de teatro de bonecos coordenada pela autora com a turma G do curso Licenciatura Intercultural, no Instituto Insikiran UFRR, 2009). Um casal vai à maloca em busca de uma adolescente para criar, a família consente porque considera bom para fi lha estudar na cidade, mas lá o trabalho é pesado e a menina não pode nem visitar sua família.

Dos muitos textos que pontuam sobre a história do uso das línguas, muitos escritos para teatro de bonecos, há a do garimpeiro que chega numa comunidade Macuxi. Inicialmente ele não entende nada do que falam, mas continua frequentando o lugar, faz “amizade”, espalha cachaça, alimentos, coloca para tocar forró e usa a mulher do tuxaua e outras para seu prazer.

Muitos textos contam as histórias de lideranças indígenas que vão à cidade, buscam uma professora para ministrar aulas. Ela chega na comunidade, e, além de não entender a língua, a considera feia, assim como os nomes dos alunos e, por isso, os troca por nomes como “José”, “Maria”. As crianças têm difi culdade de pronunciar os novos nomes. Por

isso, ela bate nos alunos com uma régua até eles aprenderem, assim, começa o ensino da língua portuguesa. No fi nal, a comunidade passa a falar apenas o português na escola.

Outros textos dramatizados contam histórias do “Kanaimé”, do “Jabuti e da Onça”, da “Origem do Tucunaré”, dentre outras tradicionais que falam dos cuidados que é preciso ter como, por exemplo, não andar só nas beiras dos rios, como a esperteza pode vencer a força bruta e da explicação para a origem das coisas.

Na mobilização para o fortalecimento do uso da língua Wapichana e das práticas culturais tradicionais, a prática teatral vem sendo bem aceita pelas comunidades. Há referência de apresentações teatrais nos anos 90, quando até queimavam casas de palha em cena, reproduzindo os massacres sofridos na luta pela terra. Tais descrições apontam para o fato de que não fomos nós a introduzir o teatro nas comunidades em Roraima. No entanto, o cuidado em escrever o roteiro e, depois, os textos em língua indígena, parece que criamos com os acadêmicos indígenas.

Na direção de valorizar a própria cultura, por exemplo, os indígenas organizados da Serra da Lua trabalham eventos como a Festa da Damurida (prato indígena a base de caldo de pimenta com peixe ou carne de caça cozida), que acontece todos os anos, no mês de novembro na comunidade Malacacheta, desde os anos 90; a Festa da Farinha que acontece na comunidade Manoa; a Festa do Beiju, que aconteceu algumas vezes na comunidade Tabalascada; a Festa do Caxiri (bebida fermentada de macaxeira), que acontece na comunidade Moscou; o Intercultural na comunidade Canauanin, que acontece em setembro, desde 2009. Todos eles realizados com o objetivo de fortalecer o uso cultural, o intercâmbio e a união entre as comunidades.

Observe-se, contudo, que estes eventos sofreram modifi cações no decorrer dos anos e se tornaram festas como quaisquer outras que acontecem nas comunidades, nas quais se ouve o mesmo forró da moda e que é tocado também na cidade e nas rádios locais; bebendo-se muita cachaça, cerveja e caxiri. Muitas vezes o motivo pelo qual o evento foi criado pelas lideranças da região, na prática, é esquecido.

Algumas escolas indígenas vêm trabalhando ofi cinas de artesanato, mas de forma esporádica e nem todas discutem sobre o porquê fazer; qual o valor dessa prática e seu signifi cado para a cultura Wapichana. Há ainda pouca refl exão sobre a capacidade de concentração do aluno trabalhada no artesanato e do valor do uso e da beleza dessas peças e das narrativas não verbais.4

Outro aspecto das práticas artesanais são os conhecimentos associados a questões ecológicas e de manejo. Há que se pesquisar a área que tem o material maduro e como retirá-lo, pedido de licença, observação do período do ano, mês, hora do dia e fase da lua; percepção de qual parte já está no ponto e atentar-se para que, se estiver colado em algo ferido, por exemplo, não realizar a retirada. Os antigos tanto sabem que para proteger há que se replantar, como também conhecem bem sobre o tratamento do material.

Nossos exercícios teatrais, inclusive, vêm sendo um espaço de olhar, interpretar e procurar outros signifi cados para o que ainda foi pouco pensado. A dramaturgia incipiente inclui narrativas que vinham sendo esquecidas e deixadas de lado. Como ouvi mais de uma vez, circulavam apenas quando faltava luz na comunidade.

Trabalharemos debruçados sobre os diferentes corpus históricos dos autores e narradores indígenas. Serão consideradas “práticas narrativas e poéticas ocidentais (escritas) e extra ocidentais (orais e/ou escritas)” que se “defrontam umas com as outras e se contaminam entre si” (Sá, 2012, p.9). Estaremos atentos às ambiguidades e contradições no diálogo com as fontes indígenas em Roraima.

Tomaremos as expressões dos sujeitos históricos indígenas também como documentos, mas não apenas isso. As “produções literárias indígenas” e sua dramaturgia serão consideradas também trabalhos modernistas dos mais signifi cativos. Ousaremos pensar em classifi cação diferente da que separa mitos, lendas, contos e história; interpretaremos

4 Ousamos pensar a prática artesanal como uma narrativa não verbal, pois

o fazer e o ensinar se dão pela repetição do movimento, mais do que pela explicação verbal.

as narrativas literárias e os textos sagrados. Ou “os textos poéticos e textos fi losófi cos e históricos” (Sá, 2012, p.14), observando a complexidade dos textos indígenas. E a autoria indígena será particularmente ressaltada, evidenciada como acontece entre os Kutuanhau dau’au; analisada e divulgada, sobretudo na língua Wapichana.