1.3. Memória educativa e os vínculos do desejo
1.3.1. Identidade e formação docente: constituição para a Língua Portuguesa
A ameça à identidade do professor é o que se discute, por meio de uma justificativa necessária de formação para o encontro da heteregenoidade do corpo discente o qual surge na contemporaneidade. Ou seja, não é uma formação do seu saber, é esse saber que é ameaçado em detrimento da necessidade de realinhar os laços sociais do aluno com o professor. Nesse sentido, se “aluno é um lugar discursivo que sustenta, do outro lado o lugar do professor”, ainda, se diante de uma “criança que não responde ou responde pouco como aluno, o professor se vê ameaçado fundamentalmente em seu saber”(VANTOLINE, 2018, p.42), até por que perder o objeto de desejo é para Kehl (2004) como perder o objeto de ser.
Sobre essa relação entre aluno e professor, Vantoline (2018, p. 28) acredita no não ordenamento entre esses dois sujeitos, aluno e professor, não havendo quem vem primeiro, “um só se define como tal a partir da presença polarizada do outro”. Para tanto, o termo sujeito, independente da sua posição nas nominalizações em “sujeito-professor” e “professor-sujeito”, importa enquanto elemento que “não existe in obsentia ou in efígie”, contudo como parte do outro, por isso, não só “professor”, e sim o “professor” que é sujeito e o “sujeito” que é professor, e o é por uma dimensão transferencial.
Sujeito-professor, termo composto, não por puro capricho de formação entre duas palavras, mas por justificar o que Vantoline (2018) disserta acerca do serviço da psicanálise em estabelecer uma proporção entre o professor e o aluno, no reconhecimento do sujeito por meio da transferência, ou seja, o vínculo profissional tem algo da constituição desse sujeito, o qual se viu diante de um sujeito-professor, razão desse espaço transferencial da constituição do professor-sujeito.
Da mesma forma que Sartre coloca o homem entre o seu existir e sua essência; a psicanálise o sujeito entre o seu possível existir e sua impossível “verdade” (VANTOLINE,
2018), assim é o professor-sujeito, que existe em consonância com as marcas que justificam a profissão: o sujeito-professor. Este, busca constantemente sua “verdade”, impossível de ser alcançada, esperando, então, que o aluno seja essa ponte entre o seu existir e sua “verdade”, ou seja, o caminho para o encontro consigo mesmo.
Já dizia Isaac Newton: dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Contudo, eu preciso desses dois corpos para me posicionar nesse mesmo espaço; necessário é esse aluno para a existência desse professor, como também é necessário o professor para a existência desse aluno, um não ocupa o lugar do outro, mas estão no mesmo espaço que os justificam. Então não sou só eu; eu só o sou diante do outro que está no mesmo espaço; eu só o sei, em função de saber que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, estão no mesmo espaço.
Diante disso, importa diferenciar o sujeito epistêmico do sujeito do inconsciente. E será na dimensão do professor que essa diferença será estabelecida. Vantoline (2018) usa o termo “engenhosidade” com referência à capacidade de o professor, mesmo diante de um saber prévio, improvisar diante do ambiente dinâmico e imprevisível em que ele está cada vez mais inserido, fazendo emergir desse cenário pedagógico a sua subjetividade, para além do simples conhecimento proclamado pelos racionalistas.
A engenhosidade do professor da qual Vantoline (2018, p. 65) faz menção, perpassa por duas estruturas anteriores à dinâmica atual dessa habilidade de improvisação do professor:
Evidence based practices e Reflexive practice, em que esta considera a engenhosidade enquanto
ponto de reflexão na e sobre a ação, ou seja, o conhecimento está baseado no acúmulo de experiências dessas ações; enquanto que aquela considera a engenhosidade docente algo secundário, uma vez que as ações docentes precisam ser tuteladas por um aparato estatístico para comprovar sua devida experiência. Condições estas que estão mais para o sujeito epistêmico, em que “o conhecimento derivado dessa reflexão é, em princípio, transmissível a outros, mas deverá sempre ser relativizado por este outro a cada nova situação, na qual deverá prevalecer o mesmo princípio da ação reflexiva”.
O sujeito da educação, como afirma Freud (1925), é esse sujeito do inconsciente, o mesmo sujeito do desejo, ou melhor, “é o mesmo sujeito do desejo sexual infantil e inconsciente: não há um sem o outro, e vice-versa, no interior da única existência que conta – aquela do campo da palavra e da linguagem” (LAJONQUIÈRE, 2010, p. 79). Cabe, então, à psicanálise pensar esse sujeito do desejo, esse sujeito do inconsciente, para além do epistêmico, em toda a educação, no reverso do indivíduo da pedagogia.
Acreditar que a criança, o sujeito, mesmo ainda quando bebê, desenvolver-se-á em um adulto, na qual sua condição de desenvolvimento das “capacidades cognitivas” e da
“afetividade” estará baseada apenas na aquisição da fala e da palavra, é um equívoco de orientação naturalista, para Lajonquière (2010). A Língua Portuguesa está, sim, implicada no desenvolvimento, ou melhor, na constituição desse sujeito do inconsciente, todavia, é o sujeito do desejo que está diante da composição dessa fala, dessa palavra, que resultarão na Língua, não o contrário.
O domínio que o Homo Sapiens tem da função significante, o que os difere dos outros hominídeos, resultou na incapacidade de manter a mesma informação sem causar diferença na propagação de determinada mensagem, conforme preceitua Lajonquière (2010), por empréstimo de Moreno (2002). Isso revela o quanto que o fazer discursivo do sentido produz o “avesso de sombra”, efeito do descentramento da subjetividade, sobre isso, Lajonquière (2010) disserta que:
O postulado desse avesso de sombra das representações – o desejo – é necessário para pensar as transformações ditas subjetivas. Caso contrário, seríamos obrigados a recorrer a uma instância autônoma à instituição discursiva capaz de engendrar as formas subjetivas e, assim, ficaríamos à mercê das garras de qualquer idealismo. A psicanálise permite sustentar que as próprias práticas de produção de subjetividade engendram também “o outro” do sujeito, ou seja, o desejo, suscetível de relançar, uma e outra vez, o sistema trifásico do laço social à produção de um enodeamento que contemple a inconsistência de origem (p.89).
Nesse sentido, a subjetividade é uma linguagem singular que contém os registros do real, simbólico e imaginário. Não havendo, portanto, no campo discursivo, uma dialética da demanda e do desejo sem a articulação dos complexos de Édipo e de Castração.