Capítulo 1 – Nacionalismo
1.1 Origem e definição dos conceitos
1.1.4 Identidade nacional
O outro importante conceito a ser definido aqui é o de identidade nacional. Mas antes é necessário explicitar significados de identidade, uma vez que a identidade nacional constitui apenas uma das diversas formas de identidade existentes.
A identidade representa uma forma de se reconhecer próximo a uma variedade de afiliações coletivas. Há uma característica essencial presente em qualquer identidade: é necessariamente a visão que o ator em questão tem de si mesmo. Ela existe ou não, não há a possibilidade de estar latente e ser desperta.
Tampouco pode ser presumida por características objetivas. A identidade é percepção (GREENFELD, 1998, p. 22).
A individualidade é composta por múltiplos papéis e identidades, como familiar, religiosa, territorial, étnica, dentre outras (SMITH, 1991, p. 17). Isso permite que uma pessoa seja ao mesmo tempo membro de uma religião, tenha sua profissão, sua orientação sexual e seja membro de uma comunidade étnica: a individualidade é composta por identidades múltiplas, a existência de uma identidade, ou ainda, entender-se pertencente a uma identidade não exclui esta pessoa de outras identidades a qual pertença. Assim, “cada um de nós temos múltiplas identidades, do mais íntimo círculo familiar ao mais amplo circulo social, e além disso, emu ma sociedade livre muitas destas identidades se tornam cada vez mais simbólicas e opcionais” (SMITH, 2010, p. 21).
As formas de identidades coletivas enfocam o referencial do indivíduo. É também possível entender também entende tais identidades como culturais e em determinados casos como comunidades calcadas em mitos e memórias compartilhadas. Estes dois “níveis” de análise da identidade, individual e cultural, costumam gerar confusão. As comunidades culturais são compostas por indivíduos, mas não podem ser consideradas como um coletivo ou um agregado de indivíduos que compartilham algo em comum e vivem juntos. Da mesma forma, as ações de um indivíduo em particular não podem ser previstas a partir apenas da comunidade a qual seja membro (SMITH, 2010, p. 21).
Nos casos em que a identidade coletiva esta assentada em elementos culturais, como comunidades étnicas, denominações religiosas e nações, isto se torna ainda mais evidente:
Coletividades culturais são muito mais estáveis porque os elementos culturais básicos de que são construídos - memórias, valores, símbolos, mitos e tradições - tendem a ser mais persistentes e vinculantes; representam elementos recorrentes de continuidade
coletiva e diferença. Estes elementos são incorporados em memórias coletivas [...]. Nestes casos, o elemento cultural coletivo é particularmente relevante e durável, e precisa ser analisado separadamente das questões de identificação individual (SMITH, 2010, p. 21-22, tradução nossa).
As identidades coletivas culturais não são imutáveis. Apesar de serem construídas e formadas muitas vezes em longos intervalos de tempo, tais identidades culturais passam por mudanças e alterações, bem como podem ser extintas. As mudanças podem ser graduais ou podem ocorrer de forma subida e descontinuada. A diferença existente das identidades culturais para outras formas de identidade coletiva é “o ritmo de mudança cultural geralmente mais lento e num intervalo de tempo mais longo, e seus resultados requerem métodos de análise ao longo da longue durée15” (SMITH, 2010, p. 22, tradução nossa).
O conceito proposto então por Smith refere-se “a proocessos de ‘reinterpretação’ dos padrões de memórias, valores, símbolos, mitos e tradições que compõem a herança distinta da nação” (SMITH, 2010, p. 22, tradução nossa).
Há que se enfatizar também o componente político presente na identidade nacional, pois, o que entendemos por esta “implica uma consciência de comunidade política, por mais tênue que seja. Uma comunidade política, por sua vez, subentende pelo menos algumas instituições comuns” (SMITH, 1991, p. 22).
A identidade étnica e a identidade nacional são distintas, inclusive em seu caráter político. É comum à identidade nacional adotar algumas características étnicas presentes na identidade étnica, mas
15 E expressão longue durée é utilizado no etnosimbolismo para retratar um processo histórico de longa duração,
consideração que proporciona longa perspectiva de tempo na análise de ciências sociais. Apesar de ser usada esta expressão iremos nos referir a ele como um “processo histórico de longa duração”, para restringir seu significado ao escopo deste trabalho.
A etnicidade, em si mesma, não é de forma nenhuma conducente à nacionalidade. As características “étnicas” formam uma certa categoria de matéria prima que pode ser organizada e tornada significativa de várias maneiras, transformando-se assim em elementos de qualquer número de identidades. A identidade nacional, em contraste, fornece um princípio organizativo aplicável a diferentes materiais, aos quais garante então significado, transformando-os por isso em elementos de uma identidade específica (GREENFELD, 1998, p. 23).
Há um último ponto a ser tratado acerca de questões de definição de identidade nacional e nacionalismo que é o seu possível declínio com o desenvolvimento da globalização, notadamente a partir da última década do século XX. Neste sentido, em livro originalmente publicado em 1990 Hobsbawm apregoa o declínio do nacionalismo. Em suas palavras, “apresar de sua evidente proeminência, o nacionalismo é, historicamente, menos importante. Não é mais, como antes, um programa político global, como se poderia dizer que foi nos séculos XIX e início do XX” (HOBSBAWM, 2004, p. 214). Para o autor, a história do século XXI não poderia ser escrita dentro dos limites de nações e Estados-nação, mas sim dentro de uma lógica maior.
Em estudo publicado em 2012, Gal Ariely adota metodologia quantitativa para conduzir um estudo comparado em sessenta e três países. Seu intuito é analisar qual a relação existente entre o nível de globalização e a percepção da população acerca das diferentes dimensões da identidade nacional. Dentre as conclusões alcançadas, a pesquisa demonstra que
Altos níveis de identificação nacional e nacionalismo não estão relacionados ao nível de globalização de um país. A propagação da globalização não reduz a identificação de um povo com sua comunidade nacional ou sua visão de seu país como melhor que outros países (ARIELY, 2012, p. 476, tradução nossa).
Assim, Hobsbawm faz a seguinte afirmação acerca do nacionalismo, que este fenômeno “já passou seu apogeu. A coruja de Minerva que traz sabedoria, disse Hegel, voa no crepúsculo. É um bom sinal que agora está circundando ao redor das nações e do nacionalismo” (HOBSBAWM, 2004, p. 215). Acreditamos que o apogeu das nações e do nacionalismo ainda não tenha passado e o voo da coruja de Minerva ao redor das nações e nacionalismo seja para melhor compreendê-los.