3. Profissão: Advogado 1 Profissionalismo
3.2 A imagem do profissional do Direito
3.2.1 Identidade profissional
A identidade é aquilo que identifica um grupo como tal, e por isso a identidade
profissional aparece como a identidade coletiva compartilhada com os membros de uma mesma classe profissional. O grupo profissional possui características comuns e que faz nascer uma identidade profissional que convive com a identidade individual ao mesmo tempo. A retomada do conceito de habitus de Pierre Bourdieu (apud Dubar, 2005) pode ser oportuna em sua interlocução com a construção de identidades:
68 Concebo o conceito de habitus como um instrumento
conceptual que me auxilia pensar a relação, a mediação entre os condicionamentos sociais exteriores e a subjetividade dos sujeitos. Trata-se de um conceito que, embora seja visto como um sistema engendrado no passado e orientando para uma ação no presente, ainda é um sistema em constante reformulação.
Habitus não é destino. Habitus é uma noção que me
auxilia a pensar as características de uma identidade social, de uma experiência biográfica, um sistema de orientação ora consciente ora inconsciente.
Habitus como uma matriz cultural que predispõe os
indivíduos a fazerem suas escolhas. Embora controvertida, creio que a teoria do habitus me habilita a pensar o processo de constituição das identidades sociais no mundo contemporâneo. (Bourdieu apud Dubar, 2005:89)
Ao relacionar habitus com identidade profissional, usando a concepção de Bourdieu, estou sugerindo que o habitus levará a uma identificação social. Tal identificação permite a construção das identidades individuais e a reprodução das estruturas sociais. Segundo o autor, tais estruturas são concebidas ao mesmo tempo como espaços estruturados segundo as mesmas posições e como relações de dominação entre posições constantemente reproduzidas, através de todas as formas de mudança que nunca constituem senão conversões de estratégias objetivas que não modificam a estruturação do espaço social. Nas palavras do autor:
A coexistência de distintas instâncias de socialização, com projetos múltiplos e uma maior circularidade de valores e referências identitárias, configura um campo da socialização híbrido e diversificado. [...] É possível ver essa nova configuração contribuindo para a construção de um
habitus, a construção de um novo sujeito social, agora não
apenas influenciado e determinado pelas instâncias tradicionais da socialização – a família e a escola. É possível identificar a ordem social contemporânea, fazendo emergir novas formas de interação social, contribuindo para a produção de um habitus alinhado às pressões modernas.
Reitero a necessidade de considerar o habitus um sistema flexível de disposição, não apenas resultado da sedimentação de uma vivência nas instituições sociais tradicionais, mas um sistema em construção, em constante mutação e, portanto, adaptável aos estímulos do mundo moderno: um habitus como trajetória, mediação do passado e do presente; habitus como história sendo feita; habitus como expressão de uma identidade social em construção, possibilitando a construção de uma identidade coletiva. (Bourdieu apud Dubar, 2005:91).
69 Por outro lado, uma posição inversa da identidade é defendida por Dubar, já que o autor dá ênfase ao processo de socialização na construção da identidade.
Claude Dubar (2005) ao analisar as identidades profissionais, defende que elas são construídas por meio da socialização não de identidades pessoais no sentido de designações singulares de si, mas construções sociais partilhadas com todos os que têm uma trajetória semelhante. O autor enfatiza e defende a centralidade colocada no campo profissional, pois entende que o trabalho na vida pessoal é algo essencial, uma vez que “a privação de trabalho é um sofrimento íntimo, um golpe na auto-estima tanto quanto uma perda de relação com os outros: uma ferida identitária geradora de desorganização social”. (Dubar, 2005:XXII). Isso não significa, no entanto, que a identidade no trabalho seja a única dimensão da identidade pessoal, o que ocorre, segundo o autor, é que o trabalho tem importância fundamental obrigando a transformação identitária, que traz muitas repercussões e conseqüências, especialmente a partir do final dos anos 60 em função das graves crises econômicas da época.
Ainda para Dubar (2005), importantes acontecimentos para a identidade social como a saída do sistema escolar e a conformação com o mercado de trabalho, constituem momentos essenciais da construção de uma identidade autônoma. E, certamente, é na confrontação com o mercado de trabalho que se situa a implicação identitária mais importante dos indivíduos da geração da crise. Nas palavras do autor:
É do resultado dessa primeira confrontação que dependerão as modalidades de construção de uma identidade profissional básica que constitua não somente uma identidade no trabalho, mas também e, sobretudo, uma projeção de si no futuro, a antecipação de uma trajetória de emprego e a elaboração de uma lógica de aprendizagem, ou melhor, de formação. (Dubar, 2005: 149)
A identidade como produto de sucessivas socializações é construída de acordo com a construção social do indivíduo. A multiplicidade dos grupos de pertencimento ou de referência pode ser apontada como uma das causas do fenômeno, e não só pela sua escolha profissional. Lacan demonstra a mesma posição: “o eu é um objeto constituído como uma
70 cebola: poderíamos descascá-lo e encontraríamos as identificações sucessivas que os construíram”. (apud Dubar, 2005: 24)
A socialização é um processo fundamental para a construção de identidades, compreendida como um processo de pertencimento e de relação. Socializar-se é assumir seu pertencimento a grupos, ou seja, assumir pessoalmente suas atitudes, a ponto de elas guiarem amplamente uma conduta sem que a própria pessoa se dê conta disso. (Dubar, 2005:24). E por esse motivo os sociólogos passaram a se debruçar sobre o estudo do que ficou conhecido como “sociologia das profissões”, especialmente a partir da década de 1960. O autor assinala que o termo profissões deve ser entendido de acordo com a concepção francesa que inclui todos os empregos e as profissões liberais e científicas, como os médicos e juristas; e lembra que o termo profissão deriva de “profissão de fé”, cumprida por ocasião das cerimônias rituais de admissão nas corporações de ofício da Idade Média a partir do século XV, em que só faziam parte da corporação aqueles que tinham direito ao corpo e por isso podiam fazer parte de uma corporação reconhecida. (Dubar, 2005:164)
A obra clássica da sociologia das profissões do americano Carr-Saunders e Wilson – “As profissões”31 - analisa a evolução do trabalho.
O autor americano citado por Dubar (2005) menciona a criação de associações profissionais como o caminho para a profissionalização, já que coloca uma linha de demarcação entre os profissionais e as pessoas não qualificadas. Tal demarcação permitirá o aumento do prestígio do ofício, e o que é mais importante, a associação profissional definirá e controlará as regras de conduta profissional ainda que qualificadas dos códigos de ética e de deontologia profissionais. E apontam como mais importante a formação específica fundamentada em “um corpo sistemático de teoria”. A advocacia tem tudo isso, não por acaso um dos primeiros estudos sistemáticos sobre as profissões em 1915, feito por Abraham Flexner32, reconheceu como profissões verdadeiras somente o exercício da medicina, do Direito, das técnicas de engenharia e das artes: literatura, pintura, música. Por largo período do século XX, o quadro de profissões universitárias foi marcado por esta classificação. (Dubar, 2005:171). Os chamados cursos profissionais – Medicina, Direito e
31 Carr-Saunders, A. M. e Wilson, P. A. The Professions. Great Britain: Oxford University Press. 1933. 32 Sobre o autor e a temática das profissões ver Flexner, Abraham. The American college: a criticism.
Lawrence A. Cremin (org.). Nova York, Arno Press. 1969; Universities: american, english, german. Nova York, Oxford University Press. 1930 e Do Americans really value education?. Cambridge, Harvard University Press. 1927.
71 Engenharia – compuseram no Brasil a estrutura do ensino superior. A Reforma de 1931, de Francisco Campos, foi uma primeira tentativa de romper com a estrutura de faculdades isoladas, profissionais, e criação de universidade – um campo estruturado de conhecimentos coordenados e sob o eixo da filosofia, ou, como queria Francisco Campos, da educação.
Hughes33 (apud Dubar, 2005), apresenta um critério essencial para existir uma profissão, que é a existência de instituições destinadas a proteger o diploma e a conservar o mandato de seus membros, afirmando que:
[....] as organizações profissionais devem manter os profissionais afastados do público dos profanos sempre prontos a acusá-los de charlatanismo ou de abuso de poder. A organização também deve, portanto, proteger o segredo e revalidar regularmente a licença e o mandato: estes constituem intermediários entre o Estado e os profissionais e anteparos entre eles e o público. A organização também deve zelar pela aprendizagem e pela reprodução do ritual entre os profissionais. O ritual constitui, com efeito, uma proteção indispensável contra os “riscos do ofício”, e sua importância depende da natureza do mandato: quanto maior o risco, mais desenvolvido deve ser o ritual. A organização deve ainda administrar a questão eminentemente crítica, dos erros profissionais. Enquanto os profanos consideram as técnicas profissionais um meio, para os profissionais, estas são uma arte. Assim, a organização desempenha uma função essencial de desculpabilização em caso de erro, contanto que as regras da arte tenham sido respeitadas. Mas, caso contrário, a função da organização é se desvencilhar das ovelhas tinhosas, dos falsários e dos incompetentes: eles não souberam administrar a essência de sua relação com o cliente, que é de ordem simbólica e deve se apoiar na confiança e no respeito estrito das regras profissionais, que é a deontologia. (Dubar, 2005:177)
Observamos dessa forma, que a construção da profissão do advogado no Brasil e a criação de um órgão regulador passa pelas mesmas causas e fundamentos apontadas pelos teóricos da sociologia das profissões.
Cabe a seguir a discussão em torno dos recursos de que a advocacia se utiliza para a construção e reconstrução da própria identidade, possível já que optamos pela perspectiva não-essencialista de identidade.
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