2.2. Da Profissionalidade Docente
2.2.1. Identidade Profissional
Baseados sempre em levantamentos teóricos, percebemos que a construção da identidade do professor acontece de maneira gradual ao longo da sua carreira profissional, sendo formada por fases que envolvem um caminho a ser percorrido, desde a formação inicial até a aposentadoria, momento este de maturidade profissional máxima, que o identifica finalmente através de todo o profissionalismo adquirido e vivido durante o tempo de trabalho exercido.
Quando partimos para a prática, em busca de um conceito para identidade profissional e a definimos dentro de um contexto social, deparamos com algumas controvérsias entre o perfil identitário idealizado pelo professor e a expectativa externa criada sobre o seu trabalho, ao longo da sua história em determinado contexto. Assim, podemos afirmar, com base em Pimenta (1997), que “a identidade não é um dado imutável, nem externo, que possa ser adquirido. Mas, é um processo de construção do sujeito historicamente situado” (p.75).
Nesse mesmo aspecto e evocando Dubar (2005), podemos avançar e compreender claramente que além das questões pessoais em busca do seu próprio perfil identitário, o professor também enfrenta as questões sociais envolvidas neste caminho. Dubar (1995,
citado em Pizzi, Fumes, Freitas & Freitas, 2012, p.168), diz que “entre os atos de atribuição e atos/sentimentos de pertença, há uma tensão permanente que caracteriza o processo de construção/desconstrução da identidade, configurada pelas identificações/não identificações nas relações sociais”.
Em busca de contextualizarmos o estudo sobre identidade profissional, podemo- nos valer da opinião de Mortola (2010), que afirma:
la identidad, en su expression personal, enuncia el sentido de sí mismo que porta un sujeto en el marco de un nosotros. Es así que se entiende la identidad personal como el sentido de sí mismo – o la autoimagen – que orienta y hace significativas las acciones que lleva adellante un sujeto. Esta identidad personal le permite a los sujetos reconocerse a sí mismos (quién soy), pensarse hacia el future (que quiero ser) e verse en relacíon con outros (quién soy para los demás). Las identidades personales se incluyen siempre en las identidades colectivas, es dicer, los individuos definen lo que son desde el reconocimiento de su pertencia a ciertos colectivos o categorías sociales con las que se identifican. (p.2)
Na linha teórica de Sousa e Fino (2003), ainda podemos corroborar dizendo que a identidade profissional é de competência personalizada, ou seja, cada professor busca a sua, confrontando-se consigo mesmo e com os outros professores:
O sujeito constrói a sua identidade pessoal a partir não só da relação consigo próprio, no conflito entre imagens de si (presentes, passadas e idealmente projectadas), como, a partir da relação que ele estabelece com o outro, no reconhecimento desse outro e da diferença entre ambos. (p.1)
Assim, “toda identidad se constituye dentro de la tension entre la lógica de equivalência (de lo igual) y la lógica de la diferencia (de lo distinto)” (Mortola, 2010, p. 3), e neste aspecto da percepção comparativa, o professor se desenvolve profissionalmente, buscando significados pessoais e coletivos inseridos nos contextos sociais e voltados para o bem comum dos sistemas educacionais.
É importante perceber a identidade profissional sob o aspecto social, pois muitos dos pormenores sobre a formação profissional do docente ficam mais evidentes no que diz respeito ao desenvolvimento e à identidade do professor, e toda a abrangência pessoal, interpessoal e social que a envolve. Nesta perspectiva, Marcelo (2009) relata a relação entre a identidade profissional e o aspecto intersubjetivo deste desenvolvimento, e afirma que esta se “caracteriza como um processo evolutivo, um processo de interpretação de si mesmo como pessoa dentro de um determinado contexto” (p. 112).
É importante perceber que o contexto, o modo e o tempo utilizado na busca pela identidade profissional, devem ser observados, e nesta perspectiva esclarece Dubar
(2005) que a identidade, então, corresponde ao “resultado a um só tempo estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, conjuntamente, constroem os indivíduos e definem as instituições” (p.170).
Valemo-nos de Pizzi, Fumes, Freitas e Freitas (2012) e podemos complementar dizendo que se identificamos a teoria das “formas identitárias”, cujas identidades são assumidas de acordo com o contexto vivido, reconhecemos o motivo dos conflitos vivenciados pelos professores, neste processo de busca pela sua identidade profissional: sempre estarão numa zona de tensão de “avaliação informal” que levará em conta a opinião dos outros a seu respeito e o seu sentido de pertença, em que o professor se identifica como profissional (p.170).
Para complementar, Lieberman (1996) fala da identidade profissional sob o aspecto do “caminho da aprendizagem profissional”, envolvendo as aprendizagens dentro e fora das escolas nos contextos formais e informais e Dubar (2005) soma ao contexto das aprendizagens profissionais, todos os aspectos sociais, que englobam as representações próprias do professor e as cobranças externas que ele enfrenta.
Outro aspecto importante a mencionar é o que Marcelo (2009) chama de “mundos vividos” pelos professores, ou seja, várias questões internas e externas, ligadas à profissão, porém, vivenciadas dentro do contexto individualizado de cada profissional. Neste sentido, o perfil identitário do docente pode ser traçado, levando em consideração todas as aprendizagens acadêmicas (formações iniciais e continuadas) e posteriormente, profissionais ao longo do percurso de trabalho, observando a representação individual (contexto pessoal do professor) e a representação de desenvolvimento (contexto profissional do professor), estando todas estas dimensões inseridas no contexto social (escola, família, políticas educacionais, etc). Para Mortola (2010), “as identidades sociales se construyen en la articulación problemática y plena de tensiones entre dos planos: um biográfico e otro social o relacional” (p.31).
É importante conceber também que o trabalho do docente é influenciado por contextos políticos, por isso é imprescindivel que o professor esteja envolvido nas decisões que influenciam as suas práticas e concebem os processos de formação e avaliação voltados para o seu desenvolvimento profissional.
E, para finalizar, procuramos idealizar este item do trabalho em outra linha de reflexão construtiva, no contexto da pesquisa que estamos realizando no âmbito do tema avaliação do desempenho docente. Percebemos que, quando o profissional docente procura moldar o seu perfil identitário através do seu auto reconhecimento como
profissional, vinculado ao contexto social e pararelo às identidades coletivas e às opiniões externas, podemos afirmar que, neste caminho da busca, é imprescindível que aconteça o processo de ADD.
É no mesmo trajeto da formação continuada, da consolidação, da inserção e da progressão profissional do professor, que ele deve receber o feedback avaliativo, para evoluir na sua profissão e firmar-se cada vez mais com uma identidade profissional satisfatória, tanto para o sistema educacional, como para a sua realização enquanto profissional.
Concluímos então, que a identidade profissional e a avaliação do desempenho docente podem ser construídas e definidas paralelamente e dimensionadas no processo de busca do conhecimento para auxiliar no desenvolvimento profissional.