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2. Identidade profissional: processos de construção identitária

2.2. Identidade profissional do psicólogo clínico

Para Bettoi (2003, p.63) a profissão de psicólogo carateriza-se por ser “uma instância das ações humanas, entendida como um conjunto de práticas específicas, realizadas por seres humanos, em contextos culturais coletivos situados, que se vai construindo e modificando, ao longo do tempo, no próprio exercício profissional”. Neste sentido Mazer e Melo-Silva (2010) referem que a construção da identidade profissional do psicólogo, pode geralmente, ser percebida como um conjunto de fatores pessoais e profissionais que englobam, quer a escolha do curso como profissão, quer o significado de ser psicólogo, sendo gradualmente construída (i.e., durante e após a formação acadêmica) através das suas vivências como profissional

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nesta área. A este propósito, Abdalla (199841, cit. Krawulski, 2004) no seu estudo sobre o processo de construção da identidade profissional durante a formação em Psicologia, havia já constatado que esse processo acontece como um movimento de fases distintas, que têm início com “uma identidade profissional constituída por representações sociais feitas a partir de estereótipos sobre a Psicologia e o ser psicólogo” (p.39) e que esta vai progredindo para uma identidade profissional assente na tomada de consciência da importância da psicologia, do papel do psicólogo e da diversidade de modalidades de atuação que este tem.

Segundo Krawulski (2004) contribuem para a identidade profissional do psicólogo, um conjunto de elementos próprios da categoria profissional, tais como: o corpo de conhecimentos, o conjunto de práticas, as normas de conduta na profissão; no fundo aquilo que Blin (199742, cit. Santos, 2005) apelidou de referencial comum no campo profissional, já anteriormente por nós abordado. No entanto, a estes acrescem outros constituintes como sejam: elementos da sua vida pessoal (i.e., a sua história de vida e a sua formação acadêmica), aos quais se associam as experiências de “mão na massa”, ou seja, do trabalho profissional em psicologia. Para a autora, é esta articulação que “confere caráter processual à identidade profissional, possibilitando entendê-la como construção” (Krawulski, 2004, p. 39).

A reforçar esta ideia, encontramos Mazer e Melo-Silva (2010) para os quais a formação da identidade do psicólogo está diretamente relacionada com a formação da identidade pessoal, já que tais formações são a combinação de diferentes papéis que se complementam e que, envolvendo a dimensão do trabalho, ligam a vida pessoal à profissional. Ao terminar a sua formação académica, o psicólogo, de modo análogo ao que acontece com outros profissionais, procura a sua inserção no mercado de trabalho. Nesse percurso é lhe possível ir desenvolvendo a sua identidade profissional, já que passa a partilhar um sentimento de pertença a um grupo específico, o qual tende a legitimar o seu exercício profissional. Todavia face ao contexto atual, e tendo em conta todas as mudanças ocorridas no mundo do trabalho na contemporaneidade, o processo de construção identitária, acaba por assumir caraterísticas particulares para os psicólogos. A esse respeito, Coutinho, et al. (2007) referem que a precariedade, a vulnerabilidade e a fragmentação nas relações de trabalho estabelecem dificuldades acrescidas para que as identificações se processem e a identidade profissional possa ser construída.

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Aballa, I. G. (1998). Ter equilíbrio para dar equilíbrio – profissão psicólogo?: um estudo sobre as representações sociais dos alunos de um curso de psicologia. São Paulo: Arte e Ciência.

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Krawulski (2004), na sua tese, contribuiu para uma compreensão mais alargada de como se constitui a identidade profissional do psicólogo. A autora defende que o processo de construção identitário ocorre no entrecruzamento dos movimentos do fazer, culminando numa constante transformação do ser, ou seja:

[...] a construção dessa identidade profissional aconteceu, portanto, no ir e vir dos movimentos do fazer, levando à transformação do ser, dialeticamente. Essa transformação expressa-se nas referências acerca de como a profissão impregnou a vida pessoal dos trabalhadores, modificando a sua perceção do mundo, seus valores, sua ética e sua postura diante da vida. Foi um processo que envolveu um movimento constante de construir desconstruir-reconstruir significados para o seu trabalho, e que implicou reconhecer e assimilar as transformações que foram ocorrendo nesses significados ao longo do percurso profissional e também em seu próprio ser, no imbricamento com o fazer (p. 163).

A partir dos resultados do seu estudo Krawulski (2004) classificou didaticamente o processo de construção da identidade profissional do psicólogo em cinco etapas: o querer ser, o saber, o fazer, o saber-fazer e o ser. O primeiro momento (o quer ser) refere-se à escolha profissional, em que há muitos estereótipos e desconhecimento acerca da profissão; o segundo momento (o saber) diz respeito à formação acadêmica, período de conhecimento, do saber; o terceiro momento (o fazer), por sua vez, refere-se ao período em que o saber adquirido na universidade é colocado em prática; o quarto momento (o saber-fazer) é o processo da construção da identidade profissional por meio dos movimentos do fazer ao longo do ciclo de vida do indivíduo; por fim, o quinto e último momento (o ser) ocorre quando o quarto momento adquiriu maior consistência na rotina do exercício profissional e quando todas as outras etapas são integradas dialeticamente na vida da pessoa.

Podemos verificar que neste processo estão presentes os elementos próprios desta categoria profissional, já anteriormente referidos, tais como: conhecimentos, práticas, normas de conduta. Estão também presentes elementos da vivência individual do profissional, como sejam a história de vida e a formação académica, associados à experiencia prática. Gradualmente as vivências no contexto do trabalho acabam por conduzir ao desenvolvimento de uma postura profissional sendo este um requisito fundamental para a definição da identidade profissional (Mazer & Melo-Silva, 2010).

A identidade profissional do psicólogo pode ser percebida como a experiência prática. Corona (200443, cit Mazer & Melo-Silva, 2010) destacam que a multiplicidade

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Corona, C. R. (2004). Trajetórias dos professores de psicologia do Espírito Santo: atuação e

identidade profissional. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em

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de práticas, os saberes e o processo de formação recaem na forma de atuação dos psicólogos e na forma como se concebem a si próprios. Contrapondo de certa maneira esta perspetiva, Figueiredo (199344, cit. Krawulski, 2004) considera que a multiplicidade de dimensões em termos das práticas, as diferentes formas de articular os saberes com as práticas profissionais, a diversidade das correntes teóricas e metodológicas, e a multiplicidade de transições e mudanças de trajetórias profissionais dos psicólogos, levam à fragilidade da noção de identidade profissional dentro da própria psicologia e, naturalmente, da identificação e construção de uma identidade