2.1 IDENTIDADE PROFISSIONAL DOCENTE
2.1.1 Identidade Profissional Docente do Professor de Educação Física
Educação Física precisa entrar em crise urgentemente. Precisa questionar criticamente seus valores. Precisa ser capaz de justificar-se a si mesma. Precisa procurar sua identidade (MEDINA, 1992, p. 35).
O mundo contemporâneo nos faz vivenciar as constantes mudanças nas práticas educacionais. Essas mudanças têm provocado uma reflexão entre as pessoas que fazem parte desse processo da educação em todos os segmentos. “A expansão de todas as mudanças na educação é resultado do processo de liquidez da ciência e da tecnologia que vem transformando os padrões de produção e de relações de trabalho e, portanto, exigindo dos futuros profissionais e educadores, uma constante reciclagem dos conhecimentos, diferentes habilidades, novos valores e novas atitudes.” (NASCIMENTO, 2012, p. 30).
Tal situação tem revelado a necessidade de uma formação permanente desses profissionais, exigindo mudanças na prática pedagógica. Para Freire (1996), isso significa “[...] uma formação de uma prática docente crítica, implicante do pensar certo, onde envolva o movimento dinâmico, dialético entre o fazer e o pensar sobre o fazer”.
As transformações econômicas, políticas, sociais e culturais destes tempos abriram caminhos para novas e complexas tendências nas relações sociais. Mudanças nos padrões de consumo e nos processos de produção contribuíram para o surgimento de novas identidades. Segundo Nunes (2007), o fluxo migratório e o desenvolvimento tecnológico cada vez mais rápido aproximam as desigualdades e conectam as pessoas ao mundo em milésimos de segundos. As identidades hibridizam-se. O sujeito pós-moderno é composto por múltiplas identidades, algumas contraditórias ou não resolvidas (HALL, 1998, p. 12).
Hall (1999) afirma que se a identidade é uma construção histórica e cultural, esse processo ocorre nas relações, isto é, a identidade é relacional. Neste sentido, as identidades definem-se nas relações com os outros, definem-se por meio das relações de poder (HALL, 1999, p. 109). Definir identidade é um ato político.
Na contemporaneidade, emergem desafios de ordem social, tecnológica, científica, entre outros, cujas exigências requerem uma reflexão permanente sobre o processo de (re)construção da identidade pessoal e profissional dos professores. No cenário mundial, principalmente a partir do final do século XX e início do século XXI, ressurgiu certa atenção para a Educação Superior como possibilidade da melhoria da qualidade da educação, em diversos países. No cenário internacional, ganharam destaque algumas derivadas da Declaração de Bolonha, movimento de reforma e integração da Educação Superior na Europa.
Também na América Latina, são evidentes mudanças no sistema da Educação Superior, mediante disponibilização de financiamentos, documentos, diagnósticos, estratégias enquanto referência para reformas educacionais (ARRUDA, 2011; DOURADO, 2002; GENTILLI, 2000). No Brasil, as mudanças na Educação Superior foram e são concretizadas ao longo da história da educação no país, por iniciativas sociais, políticas, econômicas, caracterizadas ora como avanços e ora como retrocessos. Essas mudanças estão sempre relacionadas às políticas públicas que vem para subsidiar a valorização do magistério, as condições de trabalho, a formação de professores, a formação dos estudantes, a autonomia universitária, a reformulação dos projetos pedagógicos institucionais, o acesso e a permanência no ensino superior, sempre no sentido de melhorar a qualidade de ensino no país.
A legitimação do conhecimento está conectada com a forma de (re) apresentar a realidade e com as formas de conhecer o mundo. É aqui que o poder se associa com a representação (NUNES, 2007, p. 111). Assim, pode-se compreender a escolha e a manutenção de alguns conteúdos no currículo da Educação Física na escola. Como documento de identidade esse currículo da Educação Física privilegia certas identidades, neste caso, dos grupos culturais dominantes.
Então, vem novamente a pergunta: que identidade profissional deverá ser construída no processo de formação de professores? Tudo parece resolvido, mas pouco direcionamento se vê nos currículos de licenciatura em prol do desenvolvimento da criticidade ou disciplinas que amparem os futuros professores para a reflexão dos problemas sociais na escola. As Diretrizes Curriculares destacam a integração teoria-prática como estratégia para intervenções sociais, destacando o papel da prática de ensino, do estágio curricular e das atividades acadêmicas (NISTA-PICCOLO, 2010, p. 102).
Afonso et al. (2012) acreditam que ainda serão necessários longos anos para a consolidação de uma proposta inovadora, que implique mudanças paradigmáticas nos currículos do ensino superior. Para tanto, a partir das configurações curriculares para os Cursos de Licenciatura em Educação Física (CNE/CES/07/2004), sugerem a necessidade de se dissociar teoria e prática tanto nos estágios, quanto na prática como componente curricular, para o fortalecimento das discussões e práticas inovadoras para a formação inicial, desde o primeiro semestre do curso.
A prática como componente curricular pode estar inserida e explicitada no contexto programático das diferentes unidades do conhecimento constitutivas da organização curricular do curso, ou podem ser viabilizadas sob a forma de oficinas, laboratórios, entre outros tipos de organização que permitam aos graduandos vivenciarem o nexo
entre as dimensões conceituais e a aplicabilidade do conhecimento (AFONSO et al., 2012, p. 309).
Tanto as proposições normativas, quanto os caminhos propostos por Afonso et al. (2012), pressupõe uma organização institucional de um projeto coletivo acordado entre as unidades de conhecimento, que tenha claro qual a sociedade pretendida por seu currículo e qual identidade profissional pretende para seu egresso, todavia isso raramente se verifica.
O currículo precisa ser fruto de uma ação coletiva. Inicialmente desenhado por um colegiado composto por representante daqueles que nele atuarão como sujeitos, mas experimentado e avaliado por cada ator por constantemente. É imprescindível que a sua elaboração se dê a partir de análise do campo de atuação do profissional. Que se tenha clareza da visão de homem, mulher, mundo, sociedade, área de conhecimento que cercam o currículo (NEIRA, 2009, p. 123).
Diante dessas afirmações, é importante a análise das implicações do currículo na formação das identidades sociais. O currículo e as coisas que ele divulga tendem a naturalizar as identidades sociais, tornando-se essência (NUNES, 2007, p. 114).
Segundo Nunes (2007), o currículo da Educação Física, como campo cultural de luta pela significação, tem proporcionado excelentes condições para os grupos dominantes manifestarem sua hegemonia sobre lugares e pessoas representadas como inferiores. Conforme Moreira e Silva (2005), se o currículo é um documento de identidade, a preocupação docente centraliza-se em formar o professor para analisar essas dinâmicas sociais e atuar nas transformações sociais. O primeiro passo é proporcionar aos docentes uma reflexão da relação do currículo com a sociedade.
Esse entendimento remete à cultura profissional, ou seja, ao patrimônio de conhecimentos que asseguram a sobrevivência do grupo. E tais conhecimentos precisam ser reconhecidos e legitimados socialmente. Assim, a identidade profissional do professor envolve aspectos relacionados ao ser e estar na profissão, pois, conforme Guimarães (2004, p. 91-92), refere-se “[...] ao desenvolvimento de conhecimentos, requisitos profissionais e disposições mais ou menos duráveis em relação à profissão”. Entende-se, portanto, que a identidade profissional permeia toda história de vida do docente, estando diretamente relacionada com a forma como o professor compreende e representa a sua profissão.
A identidade profissional docente está intimamente ligada à maneira como os professores, individual e coletivamente, compreendem e reconhecem a sua profissão e como a profissão docente é representada e construída socialmente. Assim, as características
profissionais são formadas na relação interdependente entre a constituição histórica e objetiva do ser professor.
Nesse sentido, Molina Neto e Giles (2003) defendem a docência como marca mais significativa da identidade do profissional de Educação Física, já que a docência “[...] se coloca como uma possibilidade de identificar o profissional de Educação Física com bastante nitidez”. (MOLINA NETO; GILES, 2003, p. 254). Sendo assim, “o que caracteriza a identidade profissional docente é a relação que se estabelece entre as diferentes concepções de ensino, de planejamento, de seleção de conteúdos, de objetivos, de opção metodológica, de escolha de determinados materiais e equipamentos, de verificação do conhecimento, em síntese, de execução e avaliação dos processos pedagógicos.” (MOLINA NETO; GILES, 2003).
A identidade profissional docente “é um processo em construção contínua, que se configura no tempo e no espaço, através da articulação entre as experiências e o repertório corporal, acumulados enquanto discentes, na sua experiência vivida, na formação inicial e contínua e no exercício da atividade profissional.” (MOLINA NETO; GILES, 2003; MOLINA, 2003). E esse processo ocorre em articulação com os outros, pois é “pertencendo a uma comunidade acadêmica e social que estas configurações tomam sentido.” (GILES, 2003, p. 288). Ela retrata as características específicas de um dado grupo que se materializa no conjunto de qualidades e habilidades no saber específico. De acordo com Benites e Souza Neto (2011), esses requisitos necessários ao professor diferem de acordo com a área de atuação docente e não são adquiridos de um dia para o outro.
Ainda que os professores de Educação Física apresentem características comuns aos demais docentes, esses apresentam habilidades singulares e diferentes da do professor de Química, Física, História, por exemplo. Logo, a identidade docente e a disciplina com que o professor atua evidenciam características e saberes específicos, que dão sustentação à identidade profissional docente. Nesse sentido, a ação pedagógica do professor de Educação Física contribui para a construção da identidade profissional de um coletivo docente, à medida que, ao desenvolver competências comuns, permite que esses se reconheçam entre si e se diferenciem dos demais professores.
Para Farias e Nascimento (2012), cada área de atuação na Educação Física tem aspectos distintos em sua identidade. Desta forma, os aspectos identitários se configuram pelas especificidades do objeto de trabalho. A identidade docente é uma construção social e pessoal e tem relação com a formação inicial e permanente dos professores, assim como as
experiências vivenciadas no contexto escolar. Deste modo, a identidade docente se constitui tanto na formação quanto nas experiências de trabalho.
Lembra-se que Folle et al. (2009) ao pesquisarem professores em diferentes ciclos de desenvolvimento profissional docente, descreveram que, no momento da entrada na carreira, o choque com o real foi atenuado pela aproximação do professor com o meio onde irá atuar. Os autores, ainda, colocam que é possível perceber a participação dos saberes disciplinares e curriculares, do trabalho de conclusão de curso e do estágio curricular supervisionado obrigatório como elementos da formação inicial indispensáveis nessa relação com a realidade educacional.
Tardif (2005) observa que o trabalho docente não é apenas um objeto do saber das ciências da educação, ele é, também, uma atividade que mobiliza diversos saberes que podem ser chamados de pedagógicos. Além desses saberes, a prática docente incorpora os saberes sociais definidos e selecionados pela instituição universitária, entre eles os saberes disciplinares, que são saberes que correspondem aos diversos campos do conhecimento, aos saberes de que dispõe nossa sociedade, que se encontram, hoje, integradas nas universidades sob a forma de unidades de aprendizagem.
Em suma, entende-se que a diversidade de campos de atuação associada à multiplicidade de orientações teóricas em disputa, cria um quadro que tem dificultado a construção de uma orientação clara do que seria o exercício do professor de Educação Física. Esses fatores demonstrariam a existência de certa fragilidade na identidade profissional da Educação Física. Cabe, ainda, evidenciar que os processos identitários vão se constituindo ao longo da vida, passando pela formação escolar, formação inicial, formação continuada e atuação profissional, além das influências sociais, econômicas, políticas, culturais, dentre outras. Diante do exposto, é importante analisar a identidade profissional constituída nos Cursos de Educação Física, a partir de seus currículos e projetos pedagógicos.