ENQUADRAMENTO TEÓRICO
3. TAJFEL E A TEORIA DA IDENTIDADE SOCIAL
3.1. A identidade social
As interações entre o indivíduo e o contexto social, ou seja, a forma como um indivíduo sente, pensa e se comporta nas várias situações com que se confronta, escoram-se, assim, segundo Tajfel (1982), na sua identidade social e na sua relação com a identidade social dos outros. Na sua conduta estão também presentes as relações que se estabelecem entre os vários grupos de que faz parte, bem como as relações destes com outros grupos.
O conceito de identidade social é, pois, nuclear na teoria, remetendo para as consequências da pertença do indivíduo a um ou a vários grupos, no sentido da “parcela do autoconceito dum indivíduo que deriva do seu conhecimento da sua pertença a um grupo (ou grupos) social, juntamente com o significado emocional
e de valor associado àquela pertença” (ibid, p.290)46
. Ou seja, a necessidade que
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Miranda (1998) salienta o carácter deliberadamente limitado da definição de Tajfel ao fazer decorrer o autoconceito das pertenças grupais, excluindo noções de “self” e de “self-identity”.
todos os indivíduos sentem de desenvolverem e manterem um conceito positivo de si próprios encontra respaldo na pertença a grupos que possam aportar e reforçar essa satisfação.
A perspetivação de um maior sucesso desses grupos de pertença comparativamente a outros aumenta, em consequência, o sentido positivo dessa identidade, podendo o contrário suscitar o conflito e a busca de mobilidade (Tajfel, 1982; Monteiro, 2013).
Vala (1997, p.10) aborda a questão da identidade social por via da resposta a duas questões que os indivíduos naturalmente se colocam. Se da questão «Quem sou eu?» decorrerá a pertença a categorias ou grupos sociais (auto- categorização), pois que neles assenta a organização social, da resposta a «O que significa pertencer a este grupo?» derivam “as atividades de comunicação através das quais são aprendidas ou criadas normas, símbolos, crenças e valores [integradas na construção da autoimagem] que tornam distintos os grupos que os indivíduos associaram à sua autoimagem daqueles que eles dissociaram dessa mesma autoimagem”.
Em ambos os casos, o conceito tem implícita uma ideia de grupo próxima da definição que Brown (1988), citado por Vala (1997, p.11), produziu, segundo a
qual ele existe “quando dois ou mais indivíduos se percebem como membros da
mesma categoria social e quando a existência dessa categoria é reconhecida por, pelo menos, um outro exterior a essa categoria”.
Definição em consonância com os critérios propostos por Tajfel (1982, 1982a) para a identificação de grupo, os quais podem ser internos (autoidentificação com um grupo) ou externos (a identificação do grupo e da pertença resulta de um consenso exterior).
Aí estão igualmente presentes aquelas que são as componentes de um grupo definidas pelo mesmo autor - uma componente sócio-cognitiva (a consciência de que se pertence a um corpo de pessoas onde existe um elevado grau de consenso e que, por tal, se vê e se sente como grupo); uma componente avaliativa (a conotação positiva ou negativa que o grupo e a pertença que lhe esteja associada conferem) e uma componente emocional, relativa às emoções
que a consciência de pertença e a conotação que lhe está associada suscitam
relativamente ao grupo próprio e aos outros grupos47 (Miranda,1998, p.600).
Tajfel (1970, 1982) destaca a relação dialética entre os contextos e as situações sociais e a expressão de pertença ao grupo que as três componentes exprimem. Sendo os encontros sociais marcados por expectativas por parte dos seus interlocutores relativamente a características e comportamentos mútuos decorrentes dos grupos de pertença, quanto maior essa consciência de pertença a determinado grupo, a dimensão das avaliações (positivas ou negativas) que essa pertença aporte e o investimento emocional que das duas decorra, maior a identidade de grupo que exibirá nessas interações que, individual ou coletivamente, tenha com outros grupos ou os seus membros.
Assim, à questão já assinalada – a de a visão positiva ou negativa que os
indivíduos têm de si e do que os rodeia ser fortemente influenciada e ter como origem aquela que é protagonizada pelo(s) grupo(s) a que pertence – acresce, no âmbito da análise do comportamento intergrupal, a de o indivíduo tender a valorizar de modo diferente aquele é o seu grupo (ou grupos) de pertença face aos que não o são. Como refere Tajfel,
“Quanto mais próxima estiver uma situação social (...) do pólo intergrupo
do continuum interpessoal-intergrupo, mais uniforme será o
comportamento dos indivíduos membros dos grupos em questão em relação aos membros dos grupos alheios.
Quanto mais próxima estiver uma situação social do pólo intergrupo, maior será a tendência dos membros do grupo próprio para tratar os membros do grupo alheio como itens indiferenciados numa categoria social unificada, ou seja, independentemente das diferenças individuais entre eles.”
(Tajfel, 1982, p.277) Desta tendência assinalada decorre igualmente uma questão central à sua teoria: a dicotomia endogrupo - exogrupo e a atribuição aos membros deste último de traços tidos como caracterizadores de todos os seus membros, pelo
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Vala & Castro (2013) fazem ainda referência às self-fulfilling proffecies que resultam do conceito de grupo e dos critérios – a expectativa de que se cumpram no indivíduo categorizado as crenças associadas a essa categoria; as expectativas criadas sobre si próprio pelo indivíduo relativamente à categoria em que é percepcionado.
enviesamento da designada homogeneidade do exogrupo, que aumenta quanto mais próximo nos situarmos do pólo intergrupal do continuum a que faz referência (Tajfel, 1982,1982a)48.
A sobreavaliação dessa homogeneidade, pela simplificação das representações cognitivas do exogrupo, conduz à despersonalização dos seus membros e à sequente desumanização (com os comportamentos que daí podem decorrer). Um mecanismo que, como refere o excerto em cima, tende igualmente a intensificar- se pela interpretação dos indivíduos da situação social como estando mais próxima do extremo intergrupal (Tajfel, 1982; Miranda, 1998; Billig, 2002).
Estas avaliações e juízos de valor que marcam a diferença entre um “nós” e um “eles”, sustêm uma diferenciação psicológica de grupo que corre a par de um processo cognitivo ao qual é igualmente conferido relevo na interação grupal – a categorização social.