2.2 Identidade e território
2.2.2 Identidade Territorial
Como vimos anteriormente, o declínio da sociedade nacional e o surgimento da sociedade global permitiram redescobrir o eu (o indivíduo) e o local (o território) (HALL, 2005), pois a globalização promoveu efeitos paradoxais ao permeabilizar as fronteiras e individualizar os sujeitos. Como alertam Kegler e Froehlich (2013, p.10. destaques no original), ante um contexto de articulação entre global e local e da
mercadificação cultural e étnica, abre-se um mundo de possibilidades, no qual
isso, podemos gerenciar sentidos de identidade”. De acordo com os autores a gestão/ressignificação das identidades depende de nossa posição, “enquanto atores e instituições sociais, e dos recursos disponíveis que podemos mobilizar”.
Cabe ressalvar, que desde nosso ponto de vista, estas escolhas não são exatamente livres e nem todo leque de possibilidades está disponível a todos. Como já referimos, os habitantes do centro conhecem um rol de possibilidades maior do que aqueles da periferia – os quais, muitas vezes, mesmo conhecendo não as têm como alternativa acessível. Neste sentido, Giddens (2002, p.81) revela que “a seleção de estilos de vida é influenciada em grande parte por pressões de grupo e pela visibilidade de determinados estilos, ou limitada a determinadas condições socioeconômicas”.
Segundo Agier (2001, p.23), a extinção das “grandes narrativas” culminou em uma fase mundial de intensa criatividade, fundamentada em “múltiplas buscas identitárias e, simultaneamente, de novas culturas declarativas de identidade”. Nesse período mais recente, as identidades converteram-se em objeto de estudo e ganharam diversas adjetivações a partir da antropologia, da sociologia, da geografia, da história, da filosofia, etc.. As identidades transcenderam o individuo e passaram a ser sociais, étnicas, culturais, geográficas, territoriais, entre outras.
As identidades locais (regionais/territoriais) por um longo tempo serviram para evidenciar características naturais de uma determinada região (PAASI, 2003). A identidade territorial, por sua vez, vem ganhando campo e despertando muito interesse em virtude de ser percebida como fonte propulsora da construção de novas territorialidades e de processos de desenvolvimento locais (VENDRUSCOLO, 2009). Tal perspectiva orienta-se por Harvey (2007), o qual indica que as identidades locais/territoriais foram fortalecidas por uma conjuntura que flexibilizou as barreiras espaciais a partir da comunicação e das novas tecnologias de locomoção e informação.
Castells (1999, p.80) entende que a ativação desta dimensão territorial da identidade é uma contingência do mundo estruturado por processos cada vez mais globais, pois, desde seu ponto de vista, “não restou outra alternativa ao povo senão render-se ou reagir com base na fonte mais imediata de autoreconhecimento e organização autônoma: seu próprio território”. Nesta dinâmica reativa houve um apelo a diferentes aspectos locais que permitiam a construção de significado identitário em uma forma defensiva, pois “indefesas diante de um turbilhão global, as
pessoas agarram-se a si mesmas: qualquer coisa que possuíssem, e o que quer que fossem, transformou-se em sua identidade”.
Sem dúvida, o ato de pertencer a uma dada região converge a um sentido identitário que desafia as narrativas hegemônicas, “[...] aunque el concepto de identidad trascienda las fronteras (como en el caso de los emigrantes), el origen de este concepto se encuentra con frecuencia vinculado a un territorio (MOLANO, 2007), convertendo-se em elementos estratégicos na edificação de espaços sociopolíticos.
De acordo com Paasi (2003), trata-se do processo de institucionalização de uma região, cuja dinâmica consiste em erguer barreiras que delimitam o território, estabelecem simbologias e criam instituições. Sendo que tal processo, concomitantemente, dá origem e é condicionado pelos discursos, pelas práticas e pelos rituais que delimitam as fronteiras, as representações e as práticas institucionais. Nesta direção, Pollice (2010) alerta que a identidade é tanto uma consequência, quanto uma causa dos processos de territorialização.
Outra convergência pode ser encontrada nas conclusões de Ferreira (2010) que afirma que
É dando sentido ao lugar, bem como à ligação do indivíduo a este, que se reforçam as identidades e se produzem as comunidades. O lugar favorece um conjunto de referências e símbolos aos que lá vivem e que são percebidos pelos seus utilizadores e visitantes, influenciando comportamentos e criando sentido. (FERREIRA, 2010, p.4).
Confluindo a essas ponderações e sustentando nossa sequente assertiva, Haesbaert (1999, p.172) indica que “[...] toda identidade territorial é uma identidade social definida fundamentalmente através do território [...]”. Logo, desde nossa perspectiva, as identidades territoriais são, pois, um processo de construção que surte da relação entre o eu (coletivo e/ou individual) e os territórios simbólico- concretos, cumprindo com o propósito de fornecer bases sólidas de pertencimento35, diferenciação e visibilidade.
Para Amorin (2010), o sentimento de pertencimento é essencial, logo, a identidade territorial é estabelecida através da afirmação ou negação do indivíduo e seu grupo em relação a outros indivíduos e grupos no mesmo território.
35 Rogério Haesbaert alega que “as identidades não são construções totalmente arbitrárias ou
Neste sentido, também fazemos coro à assertiva de Olga Molano (2007) de que
[...] la búsqueda o reconstrucción de una identidad territorial constituye la razón evidente de individuos, de grupos, de localidades y de espacios motivados por un deseo de situarse, de enraizarse en una sociedad. De esta manera en particular, la connotación cultural regional es reconocida por todos, a través de las especificidades legadas por el pasado, y que se encuentran aún vivas: el idioma, los gustos, los comportamientos colectivos e individuales, la música, etc. (MOLANO, 2007, p.75)
Em suma, este processo cultural de delimitação e identificação é completamente interdependente, quer dizer, sem algum tipo de caracterização simbólico-valorativa pelos sujeitos o território não se concretiza, ao mesmo tempo não existe posição de sujeito sem uma territorialidade. Tal consideração encontra assento na afirmação de Haesbaert (1999, p.172) de que “não há território sem algum tipo de identificação e valoração simbólica (positiva ou negativa) do espaço pelos seus habitantes”. Apoiada neste autor Amorin (2010) alega que o território é o elemento estruturante da identidade e a base referencial de suas representações simbólicas e do pertencimento concreto.
Desde nosso ponto de vista as identidades apóiam-se sobre espaços historicamente construídos e são definidas a partir de campos decisionais de indivíduos e/ou grupos sociais em certos tempos e espaços. Quer dizer, elas não estão “presas” ao passado, são dinâmicas e se reconstroem cotidianamente ao sabor de relações sociais tecidas com os mais diversos atores. Assim, ressignificam e moldam dialeticamente sujeitos e territórios.
Kegler e Froehlich (2013, p.109) conduzem a outra reflexão ao assegurar que um olhar mais atento à identidade territorial pode revelar sentimentos contraditórios sobre o mesmo território. Ao invés de um sentido unívoco “esta poderá ter vieses diferentes e peculiares para cada ator e grupo envolvido em um mesmo evento, estabelecendo uma negociação de sentido sobre tal identificação”.
Paasi (2003) relembra uma vertente oposta sobre os territórios afirmando que o delineamento territorial e o estabelecimento de traços identitários, não raras vezes, têm sido artificialmente induzidos por agentes externos. O autor alega que os territórios muitas vezes têm surgido, rapidamente, das mesas de planejadores, políticos e coligações de negócios e não a partir de processos de regionalização históricos longos e das lutas diárias dos cidadãos.
Estes territórios configuram o que Pecqueur (2005) denomina território dado. Para o autor os territórios podem ser “dados” ou “construídos”, sendo que o primeiro surge (como imposição) de uma perspectiva político-administrativa, através de parâmetros exógenos que visam promover uma organização territorial. Tais territórios muitas vezes não são reconhecidos pelos atores locais, que possuem suas referências assentadas nos territórios construídos. Os territórios construídos, por sua vez, podem estar abrigados dentro de um território dado, mas são a expressão de identidades, conformadas pela mobilização de recursos pelos atores locais, a partir de seus próprios objetivos.
Por fim, corroboramos com a definição de Cotorruelo Menta (2001 apud RANABOLDO, 2009, p. 377) de que identidade territorial é
Identificación de los actores de la comunidad local con su territorio, sus organizaciones, sus productos y servicios. Desde afuera, la imagen territorial se refiere a la identificación externa que se hace del territorio. Como una marca, la imagen territorial personaliza e identifica los atractivos y productos del territorio permitiendo el reconocimiento supraregional o internacional de los que lo hace particular/diferente frente a los demás.
Além disso, as narrativas da identidade territorial são construções sociais alicerçadas em uma variedade de elementos: ideias sobre a natureza, paisagem, construção do meio ambiente, cultura/etnicidade, dialetos, sucesso/recessão econômica, relações periféricas/centrais, marginalização, imagens estereotipadas das pessoas/comunidades, ambos “nós” e “eles”, histórias atuais/inventadas (RAMÍREZ, 2007), convertendo a linguagem em uma “chave discursiva” na definição de uma identidade territorial (PAASI, 2003).
Kegler e Froehlich (2011, p.100), qualificam este argumento e aportam considerações sobre o papel relevante que a mídia pode desempenhar na construção da identidade territorial na medida em que pode dar visibilidade e “legitimar o discurso identitário dos territórios”.
Para finalizar Ramírez (2007) identifica que existem três linhas de pensamento que sustentam que as identidades criam as bases para o desenvolvimento dos territórios. Duas delas argumentam em torno de que a vinculação de produtos e serviços a um dado território pode ser objeto de valorização por parte das comunidades locais, promovendo, então, seu desenvolvimento. A terceira justifica a possibilidade da construção de redes alternativas de distribuição e comercialização de produtos, propiciando estilos de
vida diferenciados e a transnacionalização das cadeias agroalimentares. De acordo com o autor, todas estas “escolas” do pensamento estão fundamentadas na existência de produtos com identidade que refletem uma demanda hedônica e uma busca por diferenciação identitária daqueles que consomem.
Logo, como afirmam Kegler e Froehlich (2011) a identidade territorial é o substrato para a construção de dispositivos de reconhecimento e representação do território como é o caso das indicações geográficas. O componente territorial pode adquirir uma grande complexidade quando são analisados os processos de territorialização de alimentos visto que estas dinâmicas dependem de complexas articulações entre recursos, territórios, atores, sistemas de inovação e relações local- global e urbano-rural, crescentemente imbricadas.
Dessa forma, muitas dessas iniciativas não se desenvolvem sobre espaços contínuos, mas em espaços segmentados tanto do ponto de vista espacial (a exemplo, a crescente distância física, mas também simbólica, entre os produtores e os consumidores de um mesmo alimento), como no âmbito político-administrativo (o território que integrado em uma IG não tem razão de coincidir com os limites de uma região histórica ou com delimitação de uma “região de desenvolvimento”), como na dimensão socioeconômica (com grandes disparidades internas entre os atores de um território em termos de acesso a informação, possessão de recursos e capital social diferenciado).
Convergimos com tal percepção e finalizamos esta discussão relembrando que território e identidade são tão ligados, tão interdependentes que um é a manifestação do outro.