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4.2 O ENCONTRO DOS OBJETIVOS DE PESQUISA E INFORMAÇÕES DE

4.2.2 IDENTIDADES E PAPÉIS SOCIAIS ASSUMIDOS PELOS SUJEITOS DA

Nas nossas entrevistas, interessamo-nos por saber qual era a ocupação dos egressos, porque queríamos refletir se, uma vez formados pela LEdoC, eles se dispunham a assumir tarefas nas suas comunidades e escolas. Constatamos que todas as pessoas entrevistadas assumem tarefas na escola ou relacionadas à educação, e somente uma delas está em atuação docente na cidade. Francisca é professora e agente de serviços e higiene em uma escola de assentamento; Rita é professora e lavradora em comunidade Quilombola; Maria é Coordenadora de escolas do Campo no DF, pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, no DF e entorno; Antônia é professora em uma escola particular, em Formosa - GO.

Barton (1994) entende que o letramento é uma atividade social e pode ser melhor descrito em termos de práticas de letramento, com as quais as pessoas se envolvem em eventos de letramento. Quando falamos da atuação dos sujeitos da pesquisa, estamos nos referindo às práticas sociais, o que inclui práticas discursivas e de letramento, nas quais eles estão inseridos nas suas comunidades.

Francisca nos relata outras práticas de letramento nas quais está inserida de forma paralela à sua ocupação, como a participação nas reuniões e a realização de trabalhos acadêmicos e do PIBID.

Quando tem reuniões eu faço parte, ou com os alunos do PIBID, se tem algum trabalho a gente trabalha junto. E, assim, Não desliguei, porque assim, é um trabalho lá na faculdade deles, mas quando traz a gente acaba interagindo, trabalhando junto novamente, porque /:= Gente, tem 14 ano que eu trabalho na escola, aí não tem como desligar, ou desligar da comunidade. (...) 14 anos ((ri)). É muito tempo! Então, assim, as criança pequenininha passa por mim e depois, agora, eles grande, tão passando por mim novamente (FRANCISCA, 2015).

Percebe-se a atuação de Francisca com um foco grande na escola, e essa instituição é também um espaço de acolhimento aos sujeitos e construção das relações dentro do assentamento. Com o longo tempo de trabalho na escola e sua permanência no assentamento, Francisca tem a oportunidade de contribuir nas tarefas acadêmicas de pessoas que foram seus alunos no Ensino Fundamental. Percebemos, no seu discurso, uma professora que vai além das atividades docentes demandadas pelo Município, ela se coloca como uma pessoa disponível para ajudar outros sujeitos na construção de outros saberes, no domínio e apropriação de outros letramentos.

As principais agências de letramento apontadas por Francisca são a escola, o Assentamento e a Faculdade. Na primeira estão reunidas as práticas de letramento de reuniões e atividades acadêmicas, sustentadas pelos eventos de letramento, materializados na leitura e escrita de textos que fazem parte dessa prática. Para Barton (1994), ao longo de suas vidas diárias as pessoas se envolvem em uma larga série de eventos de letramento. O evento se refere aos momentos da vida diária que a escrita desempenha um determinado papel. Sabemos ser natureza das atividades acadêmicas a leitura, debate e escrita de textos. As práticas de letramento são definidas por Barton como as práticas sociais associadas à escrita. Percebe-se que são nas práticas sociais que se desenvolvem as práticas discursivas e de letramento.

Para Rita, o tempo de cultivo do conhecimento de seus alunos, na sua atuação como professora, é também o tempo de cultivo da roça, onde exerce na função de lavradora.

Além de professora, eu trabalho também de lavradora, na roça. Eu pranto mandioca, pranto milho, arroz também, né? Porque às vezes a gente é professora, mas naquela comunidade, mesmo sendo professora, a gente também já foi lavradora, como eu sou lavradora. Então, eu sou professora- lavradora, porque eu trabalho de agriculturinha também pra prantar minhas

roça pra mim colher meus mantimento também pra tá ajudando (RITA, 2015).

Apesar de a fala de Rita não revelar explicitamente, acreditamos que o trabalho na roça seja mais do que uma escolha. A vida em comunidades camponesas permite uma relação direta com a roça, de uma forma ou de outra, nos envolvemos nas atividades de agricultura. Entretanto, traços do discurso de Rita, associados aos conhecimentos prévios que temos da (des)valorização da profissão docente, permitem-nos inferir que o trabalho na roça seja também uma forma de complementar o salário de professora, que certamente é insuficiente para as despesas dela e de sua família. Não é difícil fazer essa associação se considerarmos a desvalorização da profissão que se reflete, dentre outros fatores, em baixos salários.

É no final do seu discurso que Rita nos permite fazer essa inferência, quando ela afirma: “eu trabalho de agriculturinha também pra prantar minhas roça pra mim colher meus mantimento também pra tá ajudando”. O uso da palavra agricultura no diminutivo (agriculturinha) para se referir a algo pequeno, ou seja, não são grandes extensões territoriais que ela cultiva, mas para tá ajudando nos seus mantimentos. O discurso de Rita revela a complexidade de identidade e de papéis sociais assumidos por ela, ora como professora ora como lavradora, cujas ocupações complementam a sua formação e vivência cotidiana.

Maria, por não viver na comunidade, possui um discurso que, embora ela se faça presente, revela um distanciamento da comunidade.

Eu levei a brinquedoteca né, fui a fundadora dessa brinquedoteca, porque eu já trabalhava na Pastoral da Criança, aí lá tem a capacitação pra brinquedista, aí eu sou brinquedista da Pastoral da Criança, aí eu falei “-Eu tenho que trazer esse trabalho pra cá, aqui que tem as crianças que precisa”. Na cidade, às vezes a gente faz e não aparece muita gente, né? Fazer aqueles brinquedos de garrafa peti, essas coisas. Eu falei: “-Eu tenho que trazer pra cá”. Montei essa brinquedoteca lá. Aí tinha muitas doações, as crianças gostavam e tudo. Agora, aí eu continuei nessa, tudo o que eu via por fora eu levava. Agora mesmo eu tô levando uns cursos do SENAR, porque primeiro eu levei a fibra de bananeira, ontem encerrou um de bordado. Eles fala que eu sou a mobilizadora desses cursos. (...) É isso, além da educação, que pra mim é educação também, que é a escola do Campo em movimento. Ela tem que tá movimentando não só quadro e giz, matemática português, tem que tá tendo outras formações também, né? Que é essa aí do artesanato. Eu acho muito importante essa aí do artesanato, porque o artesanato nasceu junto com a agricultura, né? Quando o homem descobriu que podia plantar já partiu pro artesanato, fazer enxada, as ferramentas pra plantar. Então, sempre eu tô levando. O grupo de artesanato de lá foi eu quem comecei levar, formar as mulheres pra. E agora eu tô falando pra elas, agora eu vou partir pra dar aula no ensino fundamental, não sei ainda em que lugar eu vou ficar, elas também tem que correr atrás, né? (MARIA, 2015).

Maria apresenta-se como uma pessoa de muitas iniciativas em favor da comunidade, nas quais ela tem um protagonismo. Percebe-se isso nas seguintes passagens: “Eu levei a brinquedoteca; fui a fundadora; eu tenho que trazer esse trabalho; aí eu continuei nessa, tudo o que eu via por fora eu levava; eu tô levando uns cursos do SENAR, porque primeiro eu levei a fibra de bananeira”. A contribuição de Maria, decerto, é muito positiva. Segundo ela, as pessoas de lá a veem como “a mobilizadora desses cursos”.

Verificamos, na fala de Maria, uma diversidade de práticas de letramento vivenciadas pela comunidade por meio de sua colaboração. É importante a percepção dela de que essas atividades também fazem parte da educação. “É isso, além da educação, que pra mim é educação também, que é a escola do Campo em movimento. Ela tem que tá movimentando não só quadro e giz, matemática português, tem que tá tendo outras formações também, né?”

Notamos que esses sujeitos estão inseridos em variados contextos de letramento, participando de práticas e eventos de letramento de acordo com a demanda das comunidades onde vivem. Os discursos presentes nesta seção permitem-nos confirmar que os educandos, por meio de seus discursos, apresentam identidades camponesas empenhadas na luta pela transformação de suas realidades. Os papéis assumidos por eles em suas comunidades e escolas, o protagonismo de luta pelo direito à terra, a firmeza na denúncia do descaso do poder público em relação à Educação do Campo são exemplos de identidades coletivas empenhadas na construção do seu espaço de vivência em um lugar de maior justiça social.