2.2 ESTUDOS DE IDENTIDADE E AQUISIÇÃO DE SEGUNDA LÍNGUA
2.2.2 Identidades imaginadas e comunidades imaginadas
Como vimos na seção anterior, Norton (2000; 2013) argumenta que a teoria de SLA precisa desenvolver uma concepção de identidade que seja entendida com referência a estruturas sociais maiores e constantemente injustas que são reproduzidas na interação social do dia a dia. Em Norton (2000, p. 5), observamos que identidade é o termo usado “para referenciar como uma pessoa entende sua relação com o mundo, como essa relação é construída através do tempo e do espaço, e como a pessoa entende as possibilidades para o futuro.”
Nessa perspectiva Norton e Toohey (2011, p. 422), apontam que, “juntamente ao construto referente à identidade, existem as comunidades imaginadas e que na vida moderna, as pessoas interagem diretamente com membros de muitas comunidades; elas podem estar envolvidas com a comunidade de seu bairro, de seu trabalho, com a comunidade educacional ou com a médica”.
No que se refere a essas comunidades,ocorre que elas podem se desenvolver em locais reais, como a sala de aula, por exemplo, mas também se desenvolvem e povoam a imaginação dos indivíduos como comunidades da imaginação. Com relação a isso, Wenger (1998, p. 176) esclarece que:
A imaginação é um componente importante da nossa experiência do mundo e do nosso senso de lugar nela. Pode fazer uma grande diferença para nossa experiência de identidade e o potencial de aprendizado inerente às nossas atividades. [...]Meu uso do conceito de imaginação refere-se a um processo de expansão de nosso eu, transcendendo nosso tempo e espaço e criando novas imagens do mundo e de nós mesmos. A imaginação, nesse sentido, é como estar olhando para uma semente de maçã e vendo uma árvore. (tradução minha)25
O autor defende que o termo imaginação como foi concebido por ele não é apenas um processo individual, pois engloba a forma como as nações definem suas histórias na busca de uma raiz comum em um processo social e como o indivíduo recorre à imaginação para vislumbrar o presente como uma continuação da herança compartilhada. Desse modo, o personagem criativo da imaginação está ancorado na interação social e nas experiências comuns.
Cunhado por Anderson (1991), o termo comunidades imaginadas informa inicialmente que as nações são comunidades imaginadas, porque os membros de até mesmo as menores nações nunca irão conhecer muitos de seus membros conterrâneos, encontrar-se com eles, ou mesmo ouvir sobre eles e, ainda assim, as mentes de cada um vive a imagem de sua comunidade (NORTON, 1991). Dessa forma, segundo Norton (1991), imaginando nós mesmos aliados com outros sujeitos através do tempo e do espaço, nós podemos sentir um senso de comunidade com pessoas com quem não nos encontramos ainda e com as quais nós poderemos nunca ter qualquer relação direta.
O termo comunidades imaginadas foi aplicado por Norton no processo de SLA, por lhe causar interesse as relações entre comunidades imaginadas e identidades imaginadas. Para a autora (NORTON, 2011, p. 422), existe um foco no futuro quando os aprendizes imaginam quem eles devam ser e de quais comunidades devem participar
25 No original: “Imagination is an important component of our experience of the world and our sense of place in it. It can make a big difference for our experience of identity and the potential for learning inherent in our activities. […]My use of the concept of imagination refers to a process of expanding our self by transcending our time and space and creating new images of the world and ourselves. Imagination in this sense is looking at an apple seed and seeing a tree.” (WENGER, 1998, p. 176).
quando eles aprendem uma língua. Segundo a pesquisadora, para muitos aprendizes a comunidade da língua-alvo não é somente a reconstrução de comunidades passadas ou de relações historicamente reconstituídas, mas uma comunidade da imaginação, da comunidade desejada que oferece possibilidades de outras opções identitárias no futuro.
Kanno & Norton (2003, p. 248) argumentam que “uma concepção de comunidades imaginadas nos permite melhorar nossa compreensão da aprendizagem nas dimensões temporal e espacial”. Para as autoras, em uma dimensão temporal, a noção de comunidades imaginadas nos permite relacionar as visões do futuro dos aprendizes de línguas com suas ações e identidades predominantes. Em outras palavras, seria uma maneira de afirmar que o que ainda não aconteceu no futuro pode ser uma razão e motivação para o que os aprendizes fazem no presente.
Já do ponto de vista espacial, podemos examinar a interação entre aprendizes de línguas com outras pessoas que não necessariamente estejam no mesmo lugar fisicamente, porém ainda sim exercem influência na construção da sua identidade.
Assim, é possível explorar como a afiliação do aprendiz com suas comunidades imaginadas pode afetar a trajetória de aprendizagem, pois tais comunidades, segundo Norton (2013), não são menos reais do que aquelas nas quais os aprendizes têm engajamento diário e podem, até mesmo, ter um impacto maior nas suas ações e investimentos recentes.
Como exposto acima, a noção de comunidades imaginadas nos possibilita refletir sobre a imaginação como um dos modos de participar de uma comunidade.
Além disso, nessa perspectiva podemos também pensar e dialogar sobre uma dimensão imaginada da identidade, e a partir disso, ampliar o debate sobre a mobilidade da identidade em sua possibilidade de transcender o tempo e o espaço.
No que corresponde a este trabalho, o conceito de comunidades imaginadas é importante devido à compreensão não fechada de identidade adotada aqui e por permitir ampliar a discussão sobre a constituição e as dimensões das identidades das/os aprendizes investigados. Além disso, o aspecto imaginado das comunidades permite identificar as comunidades imaginadas de que as/os aprendizes ouvintes almejam fazer parte e tentar compreender como elas impactam na constituição de suas identidades.