2. O Processo investigativo
2.1 Identificação da problemática e objetivos
A problemática em questão e que serve de ponto de partida para a construção do meu trabalho de investigação tem como questão de partida “Como promover a participação ativa das crianças na gestão do currículo?”. A minha escolha assenta não só na relevância e pertinência desta problemática nos dias de hoje, mas também no interesse que ela me foi despertando ao longo das minhas observações e intervenções.
Tendo em conta as minhas observações realizadas em contextos anteriores, fui-me apercebendo que muitas das vezes as crianças não têm um papel ativo na gestão/planeamento das suas próprias aprendizagens, podendo facilmente desmotivar-se ou desinteressar-se. Ou seja, não existe uma prática e uma comunicação que promova a gestão cooperada, pelas crianças, com o educador/professor, do currículo. Tal como afirma Pontecorvo (citado em Santana, 2013, p.53): “(…) a sequência pergunta do professor-resposta dos alunos, implícita ou explicitamente servindo objetivos avaliativos, é o tipo de comunicação dominante na escola, o que não favorece a construção de um pensamento em coletivo.”
No entanto, verifiquei que no contexto de jardim-de-infância em que realizei observação participante durante a licenciatura em Educação Básica, que se regia por o modelo pedagógico da Escola Moderna, existiam e eram colocadas em prática diversas formas participativas que incentivavam as crianças a expressarem os seus interesses e a participarem no próprio planeamento e gestão do currículo.
Desta forma, construí duas perguntas:
• Como promover um maior envolvimento das crianças na gestão do currículo, articulando-o com as suas vozes e interesses num processo cooperado, dialogado e negociado entre professores(as)/educadores(as) e crianças? • Como compatibilizar esses interesses com o currículo estabelecido, que pode
nem sempre corresponder ao que as crianças estão interessadas?
Isto, pois a participação das crianças constitui um direito que se traduz na oportunidade de cada criança ser ouvida e de ter as suas opiniões tidas em consideração. Expresso nos artigos 12.º, 13.º e 14.º da Convenção dos Direitos da Criança (CDC), este direito
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atribui aos adultos responsabilidades pela criação de condições para a sua implementação. Também as Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar (OCEPE) (2016), consideram de extrema importância ter em conta a criança “como agente do processo educativo e reconhecer-lhe o direito de ser ouvida nas decisões que lhe dizem respeito” (p.16), atribuindo- lhe um papel ativo no planeamento e avaliação do currículo, “constituindo esta participação uma estratégia de aprendizagem” (p.16). Esta participação proporciona aprendizagens a nível pessoal e social, cognitivo, linguagem e possibilita que o grupo aproveite as capacidades e saberes de cada criança individual.
Deste modo, é necessário que se crie um ambiente pedagógico em que seja valorizada a participação democrática direta, em que a democracia é considerada um valor a ser vivido de modo mais direto e autêntico possível, ou seja, um ambiente em que seja visível a negociação entre educadores e crianças que permita que todos possam exprimir as suas opiniões e que as crianças desenvolvam um papel ativo na própria aprendizagem (Folque, 2012).
Para além de ouvir as crianças e valorizar as suas ideias é necessário que o educador desempenhe um papel importantíssimo no apoio que dá ao grupo para as realizar, criando-se um ambiente de resolução conjunta de problemas em tarefas que as crianças não seriam capazes de resolver sozinhas (Folque, 2012).
O trabalho por projeto poderá também ajudar a quebrar com esta prática tradicionalista na escola e no jardim-de-infância, permitindo que as crianças tenham voz e sejam tidas em conta no desenvolvimento do currículo, pois tal como afirma Peças (1999, p.60):
“O projeto é a subversão da escola do tédio através do trabalho que nos acrescenta em saber e cidadania. (…) o projecto reivindica um cenário em que a gestão do tempo, a gestão dos conteúdos, a gestão dos recursos e dos mediadores do saber, a gestão dos impulsos, dos desejos, dos interesses, são pertença da turma e das crianças.” Assim, a atividade da criança é considerada um contributo fundamental na ação educativa, cabendo ao professor ou educador organizar o ambiente educativo, observando e ouvindo a criança, compreendendo-a e respondendo aos seus interesses e necessidades num processo de aprendizagem partilhado entre adultos e crianças.
Desta forma, de acordo com a problemática em questão, tive o interesse e o desejo de procurar e estabelecer uma prática que tivesse em conta certos aspetos “organizacionais, de modo a promoverem a construção de uma cultura de cooperação” (Santana, 2013, p.53) na gestão curricular, tanto nas salas de pré-escolar como em 1º Ciclo do Ensino Básico. Ou seja, uma pedagogia que procurasse transformar a educação e rompesse com o tradicionalismo da
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"escola", encarando as crianças como cidadãs com voz e com participação no seu processo de aprendizagem.
O objetivo geral do estudo foi, então, o seguinte:
• Compreender como promover o envolvimento das crianças na gestão do currículo no contexto de jardim de infância e 1º ciclo do Ensino Básico.
Para este objetivo geral, concorreram os seguintes objetivos específicos:
• Compreender como o envolvimento e a participação das crianças na gestão do currículo no contexto de 1º ciclo e de JI contribui ou não para aprendizagens com mais significado social.
• Compreender como o trabalho por projeto pode ser um instrumento potenciador da participação das crianças no desenvolvimento do currículo.
• Desenvolver processos de negociação cooperada capazes de estabelecer o equilíbrio entre os conteúdos do programa no 1º ciclo e os interesses das crianças;
• Desenvolver processos de negociação cooperada que permitam o envolvimento das crianças no planeamento e na avaliação.
• Potenciar a organização do ambiente educativo de modo a fomentar a participação das crianças na gestão cooperada do currículo.
• Implementar o trabalho por projeto de modo a promover a integração curricular e a participação das crianças no seu processo de aprendizagem.