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N. Sra – Nossa Senhora Nov – Novembro

I. 2 Identificação da tipologia e estudos tipológicos

Complementando a bibliografia de cariz monográfico, existe um conjunto de obras que focam questões relacionadas com a caracterização da produção arquitectónica das Misericórdias durante o século XVI; sendo um dos assuntos mais recorrente a pretensa especificidade tipológica apresentada por algumas igrejas que integram os edifícios das confrarias.

Como veremos, estas igrejas quinhentistas seguiram diferentes tipologias arquitectónicas; algumas destas tipologias seguem os modelos de outras construções religiosas da centúria de quinhentos e outras propõem um modelo tipológico distinto designado por vários autores como igreja “tipo Misericórdia”. O estudo mais aprofundado sobre esta questão é da autoria de Rafael Moreira, denomina-se As Misericórdias: um Património Artístico da Humanidade e foi publicado em 2000 no catálogo 500 Anos das Misericórdias Portuguesas: solidariedade de geração em geração144. São cerca de trinta páginas dedicadas a debater a arquitectura das igrejas das Misericórdias; este estudo é o mais abrangente e global, em termos geográficos e cronológicos, procurando uma síntese.

Rafael Moreira considera o tema da tipologia arquitectónica das igrejas das Misericórdias: “um dos capítulos mais densos e originais – mas incompreensivelmente, talvez o menos estudado – dentro da história da arquitectura portuguesa e do mundo luso, sem paralelo no resto do mundo”145. Dado o conteúdo deste artigo que, para além da identificação da tipologia,

144 MOREIRA, Rafael - As Misericórdias: um património artístico da humanidade. In 500 Anos das Misericórdias Portuguesas: solidariedade de geração em geração. Lisboa: Comissão

para as Comemorações dos 500 anos das Misericórdia, 2000.

apresenta uma proposta evolutiva da mesma, a sua análise é feita no sub- capítulo seguinte.

O estudo de Rafael Moreira foi precedido de outros importantes contributos para a definição da tipologia específica das igrejas das Misericórdias.

António Nogueira Gonçalves, em consequência do trabalho desenvolvido no âmbito do inventário artístico publicado em 1953 pela Academia Nacional de Belas-Artes, analisou várias Igrejas das Misericórdias do centro do país; desta análise o autor concluiu que estas igrejas “apresentam-se umas, com um aspecto de tipo particular, outras com o geral de qualquer igreja”146.

Neste contexto, o autor definiu o que entendia por arquitectura “habitual nas Misericórdias do baixo Mondego”. Nomeadamente, utilizando a expressão igreja do “tipo de Misericórdia”147; e acrescenta que, estas igrejas “do tipo de misericórdia apresentam de essencial”: larga nave, três retábulos na parede do topo da cabeceira, inseridos em arcos “abertos no topo da mesma nave”; estes retábulos são designados por capelas, podendo aparecer fundidos numa composição única, estando sempre “levantados sobre um envasamento que forma plano alto e ao qual se sobe por duas escadas laterais ou só por uma medial”148.

O outro elemento essencial “era a tribuna alta, aberta em parede lateral, dando da Casa do Despacho para a igreja. Essa tribuna, era um largo vão, rectangular, subdividido por colunas que sustentavam um entablamento”. Nos edifícios mais modestos a tribuna era substituída por “banco corrido, posto na capela-mor ou no corpo, com espaldar ou dele desprovido”149.

Na obra A Azulejaria em Portugal no Século XVIII, de 1979, João dos Santos Simões refere-se à igreja da Misericórdia de Torres Vedras como: “belo

146 GONÇALVES, António Nogueira - O Escultor João de Ruão e a Misericórdia de Coimbra. Revista Ocidente. Lisboa: Editorial Império, vol. LXVI, 313, Maio (1964), p. 223. 147 GONÇALVES, António Nogueira - O Escultor João de Ruão e a Misericórdia de Coimbra, p. 223.

148 CORREIA, Vergílio, GONÇALVES António Nogueira, - Inventário artístico de Portugal: distrito de Coimbra. Lisboa: Academia Nacional de Belas Artes, 1953, pp. XXVII e 151. 149 GONÇALVES, António Nogueira - O Escultor João de Ruão e a Misericórdia de Coimbra, pp. 223-224.

exemplar de templo feito propositadamente para Misericórdia, com sua nave, tribuna de mesários, capela-mor sobre elevada, dando para um transepto pouco fundo, tribuna para doentes, sacristia com entrada independente”150. Nesta subtil afirmação e recorrendo a uma igreja concreta, o autor demonstra uma consciência das características destes edifícios, e partindo destas conclui serem igrejas construídas propositadamente para Misericórdia, ou seja, com características diferenciadores face a outro tipo de arquitectura religiosa.

Também Túlio Espanca, nos volumes do Inventário Artístico de Portugal dedicados ao distrito de Beja e Évora, referencia elementos tipológicos característicos das igrejas das Misericórdias: “o retábulo da capela-mor, elevado sobre supedâneo de quatro degraus de pedra regional respeitando a planta tradicional das Misericórdias Portuguesas” (referindo-se a Alvito), “o santuário [cruzeiro], respeitando a disposição tradicional das Misericórdias, eleva-se sobre quatro degraus de tijoleira antiga” (referindo-se a Vila Alva), “o altar-mor, elevado em supedâneo de quatro degraus – respeitando a disposição clássica das Misericórdias portuguesas [...]” (referindo-se a Alcáçovas) e referindo-se a Beja, “segundo o exemplo adoptado nas corporações similares [outras Misericórdias], este tramo [cruzeiro] eleva-se em supedâneo”151.

José Horta Correia, no estudo que fez sobre a arquitectura do Algarve, publicado em 1987, também registou os elementos tipológicos comuns às igrejas das Misericórdias: “igrejas de nave única com planta rectangular. [...] deste tipo são quase todas as Misericórdias, embora frequentemente sem capela-mor diferenciada”152.

Em vários artigos sobre património artístico das Misericórdia, Vítor Serrão, definiu com clareza as características das igrejas das Misericórdias,

150 SIMÕES, João Miguel dos Santos - A Azulejaria em Portugal no Século XVIII. Lisboa:

Fundação Calouste Gulbenkian, 1979, p. 332.

151 ESPANCA, Túlio - Inventário artístico de Portugal: distrito de Beja, concelhos de Alvito, Beja, Cuba, Ferreira do Alentejo e Vidigueira. Lisboa: Academia Nacional de Belas Artes, 1992, vol. 1, pp. 34-35, 106, 293.

152 CORREIA, José Eduardo Horta - A Arquitectura Religiosa do Algarve de 1520-1600.

diferenciadoras da restante produção arquitectónica religiosa da mesma época: “nave única, cobertura de abóbada de berço, tribuna de mesários [...] e destaque ao corpo elevado do presbitério, no topo, aí se erguendo o retábulo- mor153.

A Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), actual IRU – Instituto de Reabilitação Urbana, desenvolveu, através do SIPA – Sistema Integrado do Património Arquitectónico (antigo IPA – Inventário do Património Arquitectónico), “investigações interdisciplinares de áreas específicas do património”. Estes estudos originaram o “desenvolvimento de estudos de tipologias construtivas e estilísticas e de programas iconográficos, inovadores para a história da arquitectura e da arte portuguesa”154.

Neste âmbito a instituição promove desde 1999, através de um protocolo celebrado com a União das Misericórdias Portuguesas, um inventário temático sobre o património arquitectónico das Santas Casas da Misericórdia, que prevê a actualização de fichas dos imóveis já inventariados e a inventariação de novos imóveis155; este protocolo foi actualizado em 2010.

Com base no trabalho desenvolvido, a coordenadora do projecto, Paula Noé, realizou estudos sobre as tipologias arquitectónicas das igrejas156. Estes estudos propõem uma leitura regional, sendo a unidade de trabalho o distrito; ou seja, a identificação e análise tipológica é feita analisando e comparando

153 SERRÃO, Vítor - O pintor maneirista Tomás Luís e o antigo retábulo da Igreja da Misericórdia de Aldeia Galega do Ribatejo (1591-1597). Artis. Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, n.º 1, Out (2002), pp. 211 - 235; SERRÃO, Vítor - As sete obras corporais de Misericórdia pintadas no retábulo maneirista da Misericórdia de Silves. Monumentos. Lisboa: Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais, n.º 23, (2005), p. 116.

154 75 DGEMN: conhecer, inovar, conservar, informar. Lisboa: Direcção Geral dos Edifícios

e Monumentos Nacionais, D.L. 2004, p. 57. Cfr., www.monumentos.pt.

155 75 DGEMN: conhecer, inovar, conservar, informar, p. 57; TOJAL, Alexandre Arménio,

PINTO, Paulo Campos - Bandeiras das Misericórdias (Natália Correia Guedes coord.). Lisboa: Comissão para as Comemorações dos 500 anos das Misericórdias, 2002, p. 13. Para conhecimento dos outros inventários temáticos ver 75 DGEMN: conhecer, inovar, conservar, informar, p. 57.

156 NOÉ, Paula - O Inventário do Património Arquitectónico das Misericórdias: ensaio tipológico: as Igrejas da Misericórdia do Distrito de Viana do Castelo. Outros contributos para este tema constam das fichas de inventário das igrejas das Misericórdias nos campos relativos às tipologias e/ou características particulares, com comparações também feitas a nível regional.

todos os exemplares do distrito, independentemente da sua cronologia construtiva.

O primeiro a ser publicado refere-se ao distrito de Viana do Castelo157 e o segundo ao de Coimbra158; e procuram identificar e descrever as características de cada elemento que compõem o espaço arquitectónico: planimetria, organização da fachada principal e das laterais, portal principal, relação com outras construções, coro alto, tribuna dos mesários, púlpito, retábulos, cobertura interior e programa decorativo.

Este último trabalho inclui um importante mapa que procura cartografar as tipologias planimétricas e de localização das tribunas de 243 igrejas da Misericórdia, tendo a autora diferenciado as seguintes variantes159:

 Nave e capela-mor com zona dos mesários indefinida;  Nave e capela-mor com tribuna rasgada;

 Nave e capela-mor com tribuna para cadeiral;  Nave e capela-mor com cadeiral;

 Nave e presbitério e zona dos mesários indefinida;  Nave e presbitério com tribuna rasgada;

 Nave e presbitério com tribuna para cadeiral;  Nave e presbitério com cadeiral;

 Nave e presbitério com tribuna rasgada e cadeiral;  Nave simples e zona dos mesários indefinida;  Nave simples com tribuna rasgada.

Apesar de nem todos os símbolos estarem legendados e de se poder discutir a operatividade de se comparar planimetrias e tribunas de diferentes épocas, logo com estéticas e princípios funcionais diferenciados, este mapa apresenta uma ideia geral da distribuição geográfica das várias tipologias arquitectónicas das igrejas das Misericórdias.

157 NOÉ, Paula - O Inventário do Património Arquitectónico das Misericórdias: ensaio tipológico: as Igrejas da Misericórdia do Distrito de Viana do Castelo.

158 NOÉ, Paula - As igrejas de Misericórdia do distrito de Coimbra: ensaio de classificação tipológica.

159 NOÉ, Paula - As igrejas de Misericórdia do distrito de Coimbra: ensaio de classificação tipológica, p. 200.

Concluindo, a definição e caracterização das ditas especificidades tipológicas apresentadas por algumas igrejas das Misericórdias estão estabelecidas desde meados do século XX.

No entanto, consideramos pertinente o desenvolvimento de investigações com outras abordagens e critérios, tal como a nossa, privilegiando um entendimento do fenómeno arquitectónico no contexto das Misericórdias como um organismo social e cultural.

Para tal, considerámos fundamental algo que não se verifica nos estudos realizados até ao momento: o levantamento sistemático e exaustivo de todos os edifícios que se integrem em determinados critérios pré-definidos para poder caracterizar e aferir de forma segura a representatividade de cada tipologia construtiva e variantes.

Outra questão relevante será integrar a tipologias das igrejas das Misericórdias no contexto da arquitectura portuguesa quinhentista e estudar relações de influência e modelos. Ou seja, avaliar as especificidades identificadas pela bibliografia, se determinados elementos arquitectónico são específicos ou apenas característicos das igrejas das Misericórdias; e, em que e como efectivamente estas construções se diferenciam da restante produção arquitectónica quinhentista.