Capítulo 5 – Análise e discussão de resultados
5.3. Caracterização das viagens
5.3.1. Identificação das componentes das viagens
No âmbito da identificação das componentes da viagem não existe um consenso. Contudo, quando se analisa a composição do produto turístico, composto por todos os elementos que os visitantes podem utilizar desde que saem de casa numa viagem turística até ao regresso, é possível identificar diversos elementos que podem constituir componentes importantes das viagens, como se pode constatar na tabela 5.4.
Tabela 5.4 - Componentes da viagem
Referência
bibliográfica Elementos do produto turístico que podem constituir importantes componentes da viagem
Cooper et al.
(1993) Alojamento Transporte Atrações McIntosh et
al. (1995:269) Recursos naturais Infraestruturas Transporte Hospitalidade e recursos culturais Middleton e
Clarke (2001) Atrações do destino e meio ambiente Serviços e equipamentos e infraestruturas do destino Acessibilidade para e no destino Imagem do
destino Preço para o consumidor
Pode concluir-se que o transporte é uma das componentes identificada por vários autores, sendo que Middleton e Clarke (2001) apresentam uma análise mais abrangente da área dos transportes que designam por “acessibilidade para e no destino”. Apesar de não ser tão evidente verifica-se que, também o alojamento é uma componente identificada por vários autores, que, segundo McIntosh et al. (1995:269), pertence à componente “infraestruturas”, que considera a construção desenvolvida debaixo de terra e à superfície, isto é, as redes de águas, esgotos, gás, elétricas, de comunicações e sistemas de drenagem, as vias de comunicação (autoestradas, aeroportos, rede ferroviária e estradas), estacionamentos, marinas e docas, estações de autocarros e comboios, outras construções para serviços diversos (ex: empreendimentos turísticos, restaurantes, centros comerciais, museus, lojas e outras estruturas similares). Por sua vez, Middleton e Clarke (2001) integram o alojamento na componente “serviços e equipamentos e infraestruturas do destino”. Outra componente identificada por Cooper et al. (1993) é o conjunto das “atrações”. McIntosh et
al. (1995:269) mencionam “recursos naturais”, “infraestruturas” (designadamente os museus,
lojas) e “hospitalidade e recursos culturais”. Midleton e Clarke (2001), assim como, Cooper et al. (1993) agregam, numa única componente, as atrações do destino e o meio ambiente. Por outro lado, Middleton e Clarke (2001) tendo em consideração que a análise do produto turístico que apresentam se enquadra no âmbito do marketing, para além destas componentes comuns aos vários autores em análise, acrescentam mais duas componentes do produto turístico - a “imagem do destino” e o “preço para o consumidor”.
Considera-se relevante fazer uma análise mais detalhada relativamente às principais componentes comuns identificadas, isto é, o transporte, o alojamento e as atrações.
5.3.1.1. Transporte
Segundo Burkart e Medlik (1981:47) citados por Cooper et al. (1993:175) o transporte pode ser definido como o meio para alcançar o destino e também como o meio de deslocação no destino. Segundo McIntosh et al. (1995:95-96) o turismo e o transporte são indissociáveis, pois as pessoas que viajam deslocam-se através de diversos meios, desde a deslocação a pé até à utilização do
avião supersónico. Middleton e Clarke (2001) apresentam uma análise mais abrangente pois salientam outros aspetos especifícos associados ao transporte, seja público ou privado. Deste modo, integram na componente “acessibilidade para e no destino” as infraestruturas (estradas, parques de estacionamento, aeroportos, caminhos de ferro, portos marítimos, percursos aquáticos interiores e marinas), equipamento (dimensão, velocidade e variedade de transportes públicos), fatores operacionais (rotas existentes, frequência dos serviços, preços praticados e preços das portagens), regulamentação governamental (regulamentação aplicada nas operações dos transportes).
Cooper et al. (1993:176) e McIntosh et al. (1995:95-96) classificam o transporte em categorias semelhantes, designadamente: aéreo, rodoviário, ferroviário e aquático. A estas quatro categorias McIntosh et al. (1995:95-96) acrescentam mais uma, que identificam como “outro”, na qual consideram , por exemplo, o pedestre, bicicleta, transporte na neve e veículos de tração animal. Considerando que o produto turístico integra tudo o que turista consome, não apenas no destino mas também no trajeto até ao destino, como referem Cooper et al. (1993:175), o transporte providencia alguns elementos chave do produto. Neste contexto, Cooper et al. (1993:175), mencionam ainda que numa viagem com transporte aéreo, o custo do transporte pode representar 55% do custo da viagem e, no caso de viagens de longo curso, esta percentagem pode ser superior.
De modo a realçar mais ainda a importância do transporte, Cooper et al. (1993:176) indicam que nalguns casos o próprio transporte é o motivo da viagem, como é o caso de:
− Produtos ferroviários: o Palácio sobre Rodas (Índia), o Comboio Azul (África do Sul) e o Expresso do Oriente;
− Produtos aéreos: viagens curtas no Concorde, voos nostálgicos em aviões antigos;
− Produtos marítimos: cruzeiros temáticos tais como produtos do Carnival Cruise Line.
5.3.1.2. Alojamento
Conforme referem Cooper et al. (1993:161), o alojamento é uma componente essencial do turismo, pois este pode implicar uma estada fora do local habitual de residência. Cooper et al. (1993:162), através de um estudo efetuado no Reino Unido, em 1990, a turistas nacionais e internacionais, demonstram que nas despesas totais da viagem (alojamento, alimentação, compras, transporte, lazer e serviços) o que respeita ao alojamento corresponde a 32,3% e 37,0%, respetivamente. Estes mesmos autores (1993:162) referem ainda que apenas metade das noites passadas fora da residência habitual são pagas, a outra metade é passada em casa de amigos, familiares, em caravanas próprias ou segundas casas. Em termos de categorização dos meios de alojamento Cooper et al. (1993:164) referem que o alojamento turístico pode variar de acordo com os seguintes critérios:
• Ter ou não serviços
Durante as estadas em alojamento com serviços o cliente espera que lhe sejam prestados serviços, tais como troca de toalhas, arrumação diária do quarto, ou ainda, nalguns casos, abertura da cama ao final do dia. Por outro lado, ninguém espera estes serviços num parque de
campismo ou em apartamentos que são exemplos de alojamento sem serviços. Mesmo neste grupo de empreendimentos, nalgumas situações é possível a prestação de determinados serviços mediante um pagamento extra.
• Próprio ou pago
A maioria do alojamento utilizado pelos turistas é pago. As segundas casas e o alojamento de timesharing constituem um setor em crescimento no âmbito do alojamento próprio que acrescem ao elevado número de caravanas próprias.
• Principal objetivo/ocupação secundária
Algum alojamento é providenciado em unidades que são designadas especificamente para este objetivo e cujo principal propósito é prestar serviços de alojamento. Isto inclui hotéis, “guest- house”, aldeias de férias, etc. Outros alojamentos para turistas são assegurados em estabelecimentos cujo principal objetivo não é o serviço de alojamento. Neste segundo caso, podem considerar-se casas agrárias, universidades e escolas, ou aluguer de quartos em casas privadas.
• Casas estáticas ou móveis
Apesar da maioria dos tipos de alojamento serem fixos ao chão de forma firme, outros são fixos de forma temporária e outros ainda podem ser movimentados livremente. Por exemplo, os parques de caravanismo tendem a usar caravanas estáticas mas que podem ser movimentadas de forma mais fácil do que uma construção tradicional.
• Objetivo da visita
A designação de alguns tipos de alojamento está associada ao objetivo da visita, enquanto outros são mais abrangentes, pois os serviços que disponibilizam correspondem a necessidades variadas. Assim, os campos de férias, tal como o próprio nome sugere, destinam-se a turistas em férias e não são viáveis para turismo de negócios. Os hotéis, por sua vez, podem receber, em simultâneo, hóspedes com estadas com diferentes objetivos, necessitando no entanto de uma gestão adequada para evitar conflitos de interesses.
Middleton e Clarke (2001), como foi referido anteriormente, integram o alojamento nos serviços e equipamentos e infraestruturas no destino. A componente “serviços e equipamentos e infraestruturas no destino”, segundo Middleton e Clarke (2001), é constituída pelos elementos que permitem que os turistas permaneçam no destino, pois correspondem às infraestruturas e serviços existentes no destino ou com ligação a estes. Neste contexto, incluem as unidades de alojamento (por exemplo: hotéis, apartamentos, villas, parques de caravanismo, parques de campismo, condomínios), os restaurantes, bares e cafés (desde fast-food e restaurantes de luxo), o transporte no destino (taxis, aluguer de automóveis, entre outros), atividades ou interesses desportivos (nomeadamente, escolas de esqui, escolas de surf, clubes de golfe, estádios, centros artísticos), outros equipamentos (por exemplo, escolas de línguas, clubes de saúde) ou ainda serviços informativos, aluguer de equipamento e polícia turística que integram noutros serviços. Das duas análises apresentadas verifica-se que ambas realçam o papel do serviço de alojamento como componente fundamental no produto turístico, pois esta determina a possibilidade do
turista poder ou não permanecer num determinado destino. Estas análises permitem ainda constatar que a prestação do serviço de alojamento pode ser efetuada por um conjunto muito considerável de opções de alojamento.
5.3.1.3. Atrações
Na tabela 5.4 verifica-se que existem identificações diversas das atrações (atrações, atrações do destino e meio ambiente e, ainda, recursos naturais, hospitalidade e recursos culturais), mas que se referem a fatores muito similares. Deste modo, tendo em consideração que são atividades integradas nas viagens permitindo o seu enriquecimento, tornando-as mais atrativas entende-se que a designação atrações é a mais indicada para estes elementos.
Cooper et al. (1993:204) salientam as atrações no produto turístico e caracterizam-nas como naturais ou feitas pelo homem. Existem inúmeros tipos de atrações e, neste sentido, propõem uma classificação em função da dimensão, da seguinte forma:
− Propriedade;
− Capacidade;
− Capacidade de atração;
− Permanência;
− Tipo.
Peters (1969) citado por Cooper et al. (1993:204) classificou as atrações por tipo, e distinguiu-as entre naturais e não naturais. Nas não-naturais considerou as que se seguem:
• Cultural – religião, cultura moderna, museus, galerias de arte, estações arqueológicas e construções;
• Tradições – folclore, cultura animada, festivais;
• Eventos – desportos (Jogos Olímpicos, Taça do Mundo), eventos culturais (noivados reais).
Nas naturais incluem elementos como áreas protegidas, a vida selvagem, monumentos naturais como sejam as Cataratas do Niagara ou o Grand Canyon.
No que respeita ao tipo, McIntosh et al. (1995:269) propõem a categorização das atrações em “recursos naturais” e “hospitalidade e recursos culturais”:
1. Recursos naturais - Esta categoria é considerada fundamental na oferta, pois corresponde
aos recursos naturais disponíveis para usufruto dos visitantes. Esta categoria inclui elementos como sejam o ar, o clima, o relevo, o terreno, a flora, a fauna, praias, belezas naturais e a água nas suas várias vertentes.
2. Hospitalidade e recursos culturais. Nesta categoria incluem-se todas as formas ou
manifestações culturais que possibilitem o sucesso da experiência do turista, como por exemplo o “aloha” no Hawai e a hospitalidade dos residentes, entre outras. São ainda consideradas ofertas culturais como exposições, literatura, história, música, arte dramática, dança, desporto, compras e outras atividades.
Clawson e Knetsch (1966, citados por Cooper et al., 1993:205) associam a classificação das atrações à sua naturalidade e artificialidade. Neste contexto, Clawson e Knetsch (1966, citados por Cooper et al. 1993:205) consideram:
i. Atrações naturais aquelas que se baseiam no recurso, cujo enfoque principal é a qualidade, com a mínima interferência humana, muitas vezes distantes dos utilizadores e cujo recurso determina a atividade (ex: observação da paisagem, interesse científico e histórico, caminhadas, alpinismo, pesca e caça);
ii. Atrações artificiais as que se baseiam em quaisquer recursos disponíveis, muitas vezes feitas pelo Homem, desenvolvidas artificialmente, localizadas em grandes centros populacionais, com uma utilização intensiva e, muitas vezes, com efeitos sazonais, encerrando na época baixa. Incluem nestas atividades, entre outras, o golfe e o ténis. Por sua vez, Middleton e Clarke (2001) salientam o papel da componente que identificam como “atrações do destino e o meio ambiente”, pois consideram que esta determina a escolha do turista. Nesta componente, Middleton e Clarke (2001) incluem atrações: naturais, construídas, culturais e sociais. Nas atrações naturais consideram, por exemplo, as paisagens, praias, clima, flora, fauna e os recursos naturais. Em termos de atrações construídas exemplificam com prédios e infraestruturas turísticas incluindo arquitetura histórica e moderna, monumentos, parques, jardins, centros de convenções, marinas, pistas de esqui, arqueologia industrial, comércio de especialidades, cursos de golfe, entre outros. No que respeita a atrações culturais são referidas, por exemplo, a história, o folclore, religião e a arte, teatro, música, dança, museus, eventos especiais e festivais. Relativamente às atrações sociais referem formas de vida e costumes, a linguagem e oportunidades de encontros sociais. Deve, ainda, referir-se que Middleton e Clarke (2001) mencionam que, por vezes, é difícil distinguir entre atrações e equipamentos e infraestruturas, pois nalguns casos as infra-estruturas ou serviços do destino são simultaneamente atrações, pois, por exemplo, um determinado hotel, uma pista de esqui ou um campo de golfe, podem, pelas respetivas características, tornar-se a atração principal do destino onde se inserem.