4.2 CARACTERIZAÇÃO DOS SUJEITOS DA PESQUISA E DE SUAS PRÁTICAS
4.2.1 Identificação das professoras entrevistadas
O critério para escolha dos sujeitos da pesquisa foi o de serem professores responsáveis pelas turmas de 4ªs séries onde o PROERD estava sendo aplicado.
Eram cinco professoras20 no total. Das professoras entrevistadas três delas moram na mesma região da escola, e duas moram em uma região próxima.
Elas residem há bastante tempo nos seus respectivos bairros, compreendendo um espaço de tempo que vai dos três aos vinte e seis anos de residência. Apenas uma dessas professoras nasceu em Curitiba, as demais são do interior do Estado do Paraná, e estão na capital há mais de vinte anos.
Quatro professoras são casadas e uma é separada, todas têm filhos (de um a quatro) e residem com os mesmos; apenas uma tem filhos casados e netos. As famílias são pequenas variando de três a quatro pessoas. Quanto à formação, três delas possuem o terceiro grau completo, com especialização, tendo cursado faculdade particular; duas são formadas em Pedagogia e a outra é formada em História.
As demais professoras têm apenas o segundo grau, com habilitação para o magistério. Elas informaram que pensaram em fazer curso superior, no entanto, alegaram que não tiveram condições financeiras. Como indica, a professora “não deu porque a situação financeira era difícil, a minha intenção era fazer faculdade.
Um dos meus objetivos é ter uma faculdade, eu gostaria de fazer história ou letras”
(Lúcia). Ambas as professoras ainda demonstram o desejo de estudar, no entanto, só pretendem fazê-lo depois que se aposentarem.
19 Quadro 9 em anexo
20 Todos os nomes atribuídos às professoras na apresentação dos resultados são fictícios. Suas falas aparecerão no corpo do texto sempre em itálico com o intuito de não confundi-la com as dos autores citados neste trabalho.
Todas as professoras exercem o magistério há bastante tempo, compreendendo um período que vai dos sete aos vinte e nove anos de profissão. O tempo de trabalho na atual escola também pode ser considerado longo, pois vai dos cinco aos quinze anos, com exceção de uma que trabalha há apenas cinco meses nesta escola. Uma das professoras já foi diretora de escola e atualmente também lecionar em presídios, com educação de jovens e adultos. Quatro professoras trabalham, apenas na atual escola. Essas quatro professoras também já lecionaram em série anteriores nessa mesma escola, hoje, no entanto, apenas uma leciona, tanto para quartas séries, como para quintas séries do ensino fundamental.
As professoras acham o trabalho bastante gratificante e dão diferentes justificas para tal sentimento. “Eu me realizo com os meus alunos” (Clara).
“Hum... só o fato de a criança aprender a ler, isso é uma coisa que gratifica muito” (Maria).
“Eu acho que é exatamente isso, o retorno, pelo menos nessa faixa etária das crianças, você tem um retorno muito grande, e isso faz com que você se anime apesar de todos os pesares” (Joana).
Sobre as experiências anteriores, apenas duas professoras exerceram atividades não relacionadas com o magistério, uma trabalhou como secretária, a outra foi bancária e gerente de produção em uma fábrica. As outras três, apesar de só terem exercido o magistério até então, já lecionaram em classes diferentes da atual. Duas trabalharam com classe especial, e a outra trabalhou em pré-escola.
Estas professoras, em sua maioria, afirmam que não sabem exercer outra profissão. “Não sei se eu sei fazer outra coisa a não ser dar aulas” (Clara). “Não sei se eu sei fazer outra coisa” (Lúcia). “Comecei a ser professora com quinze para dezesseis anos, daí pegou” (Paula).
As professoras não participam de nenhuma atividade comunitária e nem tampouco desenvolvem algum trabalho desse tipo. Apenas três professoras afirmam freqüentar igrejas (católica, protestante). Uma delas informou que já participou de grupo de dependentes químicos na igreja, em virtude de haver um caso na família.
“O único grupo que participei, foi esse dos dependentes químicos, mas foi muito pouco tempo” (Clara)
“Estava acontecendo na família, aí a gente procura uma solução” (Clara)
A maioria das professoras não costuma exercer nenhuma atividade de lazer, com exceção de uma que joga vôlei na vizinhança com essa finalidade. “A gente se reúne na frente da casa da minha irmã e joga vôlei” (Clara)
As professoras, com exceção de uma afirmaram que preferem trabalhar com crianças de primeira a quarta série, pois, segundo elas, os maiores são muito difíceis.
“Gosto de trabalhar com os menores” (Lúcia)
“Os adolescentes, eles são mais arredios” (Paula)
“A gente aprende muito com os menores, tem bastante retorno e deixa a pessoa animada” (Maria)
“Os pequenos sempre contribuem engrandecendo o trabalho do professor”
(Clara)
A realização profissional para estas professoras está intimamente associada à aprendizagem das crianças, servindo de motivação para a construção do ser professora cotidianamente.
O produto visível do trabalho do professor é o sucesso do aluno naquilo que ele ensina. A idéia de que não existe professor sem a visibilidade da aprendizagem do aluno, está implícita nas justificativas desses profissionais. A partir daí, a identidade dessas profissionais vai se tornando também visível para elas e para os outros.
O ser professora não aparece como algo que é dado (dom), mas se constitui justamente nessa interlocução cotidiana de sala de aula.
A aprendizagem dos alunos faz o professor se sentir realizado “apesar de todos os pesares” (Maria)
O sentido do ser professora é a corporização desta permanência delas em
“sala de aula”, apesar dos imprevistos que possam surgir. Assim, ao ensinar, o produto do seu trabalho a re-apresenta. O aluno, que aprende passa a existir como seu outro ser, que se insere inclusive em outros âmbitos de sua vida.
A professora através do seu produto comparece perante os outros materializados na forma do aluno que foi educado e com isso constrói a identidade social do ser professora, como indica CODO (1999) em pesquisa sobre o professor brasileiro e o seu trabalho.