RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Perspectiva dos professores
4.1.1. Concepção de Jogo
4.1.1.2. Identificação dos termos jogo e brincadeira
As pesquisas que envolvem a temática jogo apontam para a diversidade de concepções a respeito do termo, que está intimamente ligado ao termo brincadeira. Conforme exposto no referencial teórico, elegemos as definições de Kishimoto (1997) para fundamentar essa pesquisa. Dessa forma, interessou-nos investigar como os professores conceituam os termos jogo e brincadeira, e quais as características definidas para cada um, bem como as relações entre eles. Para tanto, elaboramos a seguinte questão? “Para você jogo é diferente de brincadeira? Como você caracteriza esses termos?” As respostas são apresentadas no Quadro 5.
Quadro 5 – Diferença e, ou, semelhanças entre os termos jogo e brincadeira para professores de Educação Infantil, Ensino Fundamental e especialistas
Professor(a)* Jogo Brincadeira
01 Jogo envolve brincadeira Diversão e raciocínio, envolve jogo –
Não consegue separar, estão ligados
02 Às vezes é sério, mas é também
uma brincadeira Só brincar E D I N
F 03 Tem regras Não tem regras
04 Desafio Lazer, diversão
05 Regra, mas é brincadeira É jogo, também. Tem regras
06 Não tem diferença. Quando se joga,
se brinca
A relação é bem próxima. Quando se brinca se joga
07 Não há liberdade, é mais conduzido É lúdico. Você conduz como quer
08 Quando se fala em um, pensa-se no
outro
Diversão, prazer, lúdico... vira jogo
09 Pode ser uma brincadeira, se for
lúdico, é construtivo
Não é jogo quando envolve dinheiro, rivalidade, ambição
É fantástico, é o lúdico, envolve alegria
10 Não sei....nunca pensei sobre isso Desafio
Competição – não é correto
Diversão
11 Tem um objetivo específico, uma
meta, mas não deixa de ser brincadeira
Não tem a objetividade do jogo... é mais livre E N F U N
12 Pode ser sistematizado
Jogo - trabalho
É mais lúdico, mas tem regras o jogo sem sistematização Ex. futebol na escola
* Agrupamento por segmento: Educação Infantil, séries iniciais e especialistas. Indicador numérico
utilizado para preservar a identidade dos informantes.
Analisando as definições das professoras da educação infantil, percebeu-se que a diferenciação entre os termos é visto pelos professores 1 e 2 como termos que se completam, que estão intimamente vinculados. A professora 3, no entanto, deixou claro a sua distinção, que é definida pela presença ou não de regras.
Em relação às professoras do ensino fundamental, uma professora distinguiu os termos jogo e brincadeira e dois consideraram que jogo e brincadeira se completam, se misturam, sendo difícil defini-los separadamente. A regra aparece tanto na brincadeira quanto no jogo, e o desafio do jogo é compensado pela diversão da brincadeira.
Podemos entender as concepções de jogo pelos professores especialistas sob dois enfoques: o jogo entendido como uma extensão da brincadeira e vice-versa; e outro grupo que distingue entre os termos, sendo o jogo visto como ação mais dirigida, sistematizada e a brincadeira com ação livre, diversão. Podemos inferir que essas idéias sofrem influência pela área de atuação do profissional, da presença do jogo na prática dos professores e da forma como o jogo é visto pela escola em que trabalham.
Quadro 6 – Diferença e, ou, semelhanças entre os termos jogo e brincadeira para os professores da Educação Infantil, Ensino Fundamental e especialistas
Concepção de Jogo professoresNº de % *
Características específicas de jogo
-Envolve brincadeira -Tem regras
É sério, sistematizado (jogo – trabalho) Desafio, meta, objetivo
5 3 2 2 41,6 25,0 16,6 16,6
Características específicas de brincadeira
- É só brincar, diversão, lúdico, alegria -Não tem regras
-Tem regras 7 3 2 58,0 25,0 16,6
Fica evidente a relação intrínseca entre jogo e brincadeira quando os professores afirmam que “jogar é brincar”, sendo, inclusive, representado pelo maior porcentual de respostas (41,6%). A relação direta entre os termos jogo e brincadeira foi apontada por 30% dos professores, e a presença de regras para definir o que é jogo, distinguindo-o da brincadeira, que não tem regras, foi apontada por 25% dos professores. A presença de regras na brincadeira foi indicada por 16,6%, razão por que consideramos importante apresentar o extrato da fala de um dos professores:
(...) brincar também é um jogo, brincar também tem as regras, numa brincadeira de casinha tem as regras, quem será a mãe, o pai qual é o papel do papai, da mamãe, de quem vai limpar da casa e você tem que respeitar isso.. Num jogo de damas você também tem as regras, tem que respeitar a vez do outro quem vai soprar a pedra, que vai movimentar a pedra (...) (PROF EF).
Essa posição nos remete ao referencial teórico construído para esta pesquisa, com autores como Piaget (1964), que tratou do jogo simbólico como uma das categorias da estrutura mental. Também nos remetemos a Vygotsky (1984), ao considerar que, em qualquer brincadeira, a regra se faz presente, seja ela definida a priori, ou não. Na mesma direção temos os trabalhos de Kishimoto (1997), que afirmou que são as regras que conduzem as brincadeiras de faz-de-conta. Dessa forma, no jogo simbólico as regras são definidas para jogos específicos, ou seja, para cada situação vale uma regra, que poderá ser reconstruída e redefinida sempre que se fizer necessário, conforme o desejo dos jogadores.
As contribuições de Pereira (2001) vão ao encontro dessa discussão ao afirmar que não há jogo ou brincadeira sem regras, o que muda é a intensidade delas. Na brincadeira, as regras são movidas pela fantasia, enquanto no jogo as regras são mais definidas, determinadas pelo próprio jogo.
É interessante mencionar que, em algumas entrevistas, quando essa pergunta era feita, os informantes reagiam de forma pensativa, com expressões relativas à dúvida, ou dificuldade de discernir entre os significados. Diante do silêncio, da dúvida, representado por: “hum... deixe-me pensar, nunca pensei sobre isso” (...), alguns pediam mais explicações sobre a questão a que nos referíamos: “Jogar é diferente de brincar?” Alguns extratos ilustram essa situação:
Ah... tenho que pensar, eu não sei se é diferente(...) particularmente, não sei dizer onde termina um e começa o outro (PROF ESP61).
Não.... não sei... nunca pensei sobre isso (...) Um brinquedo que você compra, ele não vai ser só um desafio, ele vai ser uma diversão (...)Tem jogos que é muita competição, e acho que isso não é muito correto (PROF ESP).
Podemos inferir que há um continum de jogo e brincadeira, sendo difícil definir entre um e outro. Novamente nos reportamos a Kishimoto (1997), quando disse que tentar definir o que é jogo não é tarefa fácil, uma vez que o termo é carregado de significados que são determinados, principalmente, pelo contexto histórico, cultural e geográfico, no qual o sujeito está inserido. A brincadeira, por sua vez, também envolve os aspectos citados para o jogo. Essa autora distinguiu os termos jogo e brincadeira, embora considerasse a inter-relação entre eles; ao definirmos nossa opção quanto à definição dos termos, que estão ancorados em Kishimoto, podemos inferir que as colocações dos professores quanto à dificuldade de distinção entre ambos também se encontram embasados na teoria.
Essas idéias ficam evidentes nas palavras de alguns professores, que podem se evidenciadas nos extratos a seguir:
As duas coisas estão super ligadas. A diversão surge da brincadeira, que
envolve raciocínio, que envolve jogo, então a brincadeira e o jogo estão
ligados. Não consigo separar as duas coisas não (PROF EI).
(...) quando se fala em um, pensa-se no outro...se você está jogando, seja lá como for, e em qum área, você esta brincando, porque está sendo divertido, prazeroso, é lúdico,... se você está brincando, e você sai um pouquinho do seu real, acaba sendo um jogo.Se você tem que passar por um obstáculo de uma trilha, é um jogo, mas é um brincar.... particularmente, não sei dizer onde termina um e começa o outro (PROF ESP).
Quando se joga, se brinca, brinca e joga. Não vejo diferença , acho que a relação é bem próxima (PROF EF).
Jogar é diferente de brincar, mas você pode jogar brincando(...). O jogo é uma brincadeira.Mas o jogo é diferente de brincar, mas que você pode fazer as duas coisas juntos. Você pode estar jogando sem ter que levar a sério, sem ter que ganhar, se divertindo, brincando, sem intenção nenhuma. Já a brincadeira é só brincar, mas você pode fazer as duas coisas juntas, ao mesmo tempo (PROF EI).
A partir das respostas, podemos inferir que esses professores utilizam os termos jogo e brincadeira como sinônimos ou, ainda, que a brincadeira está implícita no jogo que, por sua vez, seja qual for, envolve o lúdico, a alegria. A regra é caracterizada como específica do jogo na mesma proporção em que a brincadeira é caracterizada pela ausência de regras. Prevalece a crença de que o importante é a presença da função lúdica (KISHIMITO, 2003), não importando se é uma brincadeira ou um jogo com regras determinadas. Essa perspectiva vem confirmar a nossa perspectiva de jogo e brincadeira.