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2 O PROCESSO INICIAL DE AQUISIÇÃO DA LÍNGUA ESCRITA:

2.1 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO (S): CONCEPÇÕES TEÓRICAS SOBRE

2.3.1 Identificação e diagnóstico dos estudantes

Um diagnóstico preciso, que indique as reais necessidades demandadas pelos estudantes é fundamental para que a escola planeje e execute o trabalho de intervenção pedagógica. Soares e Batista (2005) ressaltam a importância de o professor conhecer como e o que pensam as crianças a respeito desse objeto de ensino [língua escrita], para que possa propor intervenções adequadas.

É preciso que especialista e professores saibam onde o aluno está em seu processo de alfabetização para que possam delinear as ações e atividades visando a que os estudantes avancem em seu aprendizado. Assim, espera-se que a estratégia escolhida pela escola para identificar os estudantes que ainda não estão alfabetizados considere os aspectos mencionados, ou seja, que forneça informações

precisas sobre a aprendizagem dos alunos. Caso contrário, a escola não terá dados para atuar de forma consciente e a intervenção, visando o avanço do estudante, pode não trazer o resultado almejado.

Observamos que, nas escolas pesquisadas, a identificação dos estudantes é feita, basicamente, de duas maneiras, i) pelo contato com os professores regentes e ii) pela aplicação de avaliações diagnósticas. Entretanto, conforme denotam as discussões seguintes, ambas as formas apontam para um diagnóstico precário, ou seja, as informações abstraídas pela escola ao utilizar tais formas de identificação podem não subsidiar a elaboração de ações de intervenção de forma a atender as necessidades dos alunos.

A primeira forma citada pelos especialistas para identificar os alunos não alfabetizados é o contato com os professores que indicam quais estudantes não estão conseguindo “acompanhar a turma”. A partir de conversa com os professores, as especialistas buscam os alunos que apresentam mais dificuldade e procuram avaliá-los em relação à escrita e à leitura. Neste sentido, a especialista Êxito afirma:

A primeira é o próprio professor que está no dia a dia com aquele aluno, né, ele me dá muito esse feedback. A partir do momento que a gente percebe que o aluno não está... assim... acompanhando os outros alunos, eu busco ele e faço avaliação nele, certo?(Êxito, Grupo Focal 19/03/2019).

Há uma apreensão em relação a essa forma de identificação, pois, aparentemente, para realizarem essa indicação os professores não partem de um diagnóstico que aponte um conhecimento mais profundo acerca dos conhecimentos e dificuldades que aquele aluno ou aqueles alunos possuem, mais de um estranhamento em relação aos outros alunos diante das atividades propostas para a turma.

A segunda forma de identificação apontada pela pesquisa se dá pela aplicação e análise dos resultados de avaliações diagnósticas. Um bom instrumento avaliativo, seguido de uma adequada análise pedagógica das informações coletadas é uma estratégia que pode fornecer um diagnóstico mais preciso em relação aos saberes já dominados pelos alunos.

A aplicação de avaliações diagnósticas tem como objetivo conhecer os estudantes e detectar quais saberes eles já dominam, são pontos de partida para planejar estratégias e definir o que deve ser trabalho. Conforme orientações do MEC

(2012, p.22), “o foco é em uma avaliação formativa, voltada para a redefinição permanente das prioridades e planejamento contínuo do fazer pedagógico”.

Como proposta de avaliação interna, a SEE, a partir de 2017, vem disponibilizando, via sistema, às escolas estaduais mineiras avaliações diagnósticas para os alunos matriculados do 3º ano do EF ao 3º ano do EM. Os resultados dessa avaliação devem ser utilizados pela escola no direcionamento do planejamento e de suas ações pedagógicas.

De acordo com a SEE, o instrumento é elaborado com base na matriz de referência do ano de escolaridade anterior ao avaliado, possibilitando verificar com quais habilidades/competências os estudantes iniciam o ano letivo. Sendo assim, um ponto de preocupação é que a avaliação diagnóstica da SEE tem como referência a matriz de referência da avaliação externa e não a matriz curricular. Por ser baseada na matriz de referência, o instrumento apresenta restrições inerentes a um instrumento de larga escala, não contemplando a amplitude presente na matriz de ensino. Assim, para uma maior precisão, a escola necessita complementar o diagnóstico com instrumentos que atendam às suas necessidades de avaliativas. Entretanto, esse descompasso entre matriz de ensino e matriz de referência, ao que parece, não é alvo da atenção das equipes escolares.

Esse fato se revela na pesquisa quando as especialistas, ainda que ressaltem a importância de se aplicar a avaliação diagnóstica, alegam que as disponibilizadas pela SEE não atendem às necessidades de diagnóstico da escola em relação aos alunos não alfabetizados. Tal posicionamento foi justificado por fatores como a demora no acesso às provas e também pelo instrumento não possibilitar que a escola obtenha as informações de que precisa por cobrar muito além do que esses alunos conseguem fazer. Assim, como ressalta EEB Conquista, para a identificação desses alunos através de avaliações diagnósticas, a escola elabora o seu próprio instrumento avaliativo.

A identificação foi a partir da nossa diagnóstica, a lá da escola. Porque se fosse esperar a outra, a enviada pela SEE, ela veio muito tarde e não veio compatível com eles.Na verdade, as que vieram do governo, eu até achei assim que...não estava compatível com os meninos lá da escola, né, tava demais para ele... A gente fez as duas, eu tive que fazer a minha. Então, fizemos uma compatível com a gente e nesse momento, a gente viu que eles não conseguiam nem escrever o nome direito, alguns determinados alunos (Conquista, Grupo Focal 19/03/2019).

A utilização de avaliações diagnóstica pelas escolas para a identificação dos estudantes que ainda não estão alfabetizados, a nosso ver, pode indicar com maior precisão as necessidades e o que deve ser trabalhado com estudantes. Mas um bom diagnóstico demanda um bom instrumento. Embora esse trabalho não aborde especificidades sobre a construção de instrumentos avaliativos, defendemos que todos os instrumentos e estratégias sejam utilizados pelos profissionais da escola para definir metas e planejar ações, de modo que as crianças possam progredir continuamente.

Um relato que causou surpresa e preocupação à pesquisadora foi o de que, em uma das escolas pesquisadas é a professora da Sala de Recursos quem faz a identificação dos estudantes. Ao dizer sobre a identificação a especialista relata:

Desde o princípio do ano já tem a professora da Sala de Recurso. Então, ela já tá fazendo com os meninos... Ela faz o teste... faz a anamnese... e já estamos encaminhando para eles já terem...é.… esse acompanhamento com ela e, além dela, a professora da biblioteca que vai tá dando reforço para esses alunos também (Orgulho, Grupo Focal 19/03/2019).

Julgamos importante esclarecer que, o atendimento em Sala de Recursos23, ofertado no contra turno da escolarização, é destinado a alunos que possuem deficiências, transtorno Global do Desenvolvimento e/ou altas habilidades, ou seja, para aqueles que são público-alvo da Educação Especial, conforme legislado. O professor da Sala de Recursos não pode atuar como um professor alfabetizador e nem como um recuperador da aprendizagem dos alunos da escola. Por esse motivo, o fato de ser esse o profissional indicado pela EEB com o responsável pelo diagnóstico dos alunos não alfabetizados matriculados do 4º ao 9º ano em sua escola foi, para a pesquisadora, fator de estranhamento e preocupação, uma vez que a formação24 e as funções desses profissionais não são voltadas à alfabetização

23As atividades desenvolvidas no atendimento em Sala de Recursos não devem ter como objetivo o ensino de conteúdos acadêmicos, tais como a Língua Portuguesa, a Matemática, dentre outros. A finalidade do atendimento educacional especializado é promover o desenvolvimento da cognição e metacognição, atividades de enriquecimento curricular, ensino de linguagens e códigos específicos de comunicação e sinalização, ajudas técnicas e tecnologias assistivas. (MINAS GERAIS, 2014, p.17)

24 De acordo com a Resolução SEE Nº 3.995, de 24 de outubro de 2018, para atuar em Sala de Recursos da rede estadual de MG o candidato deve possuir licenciatura em qualquer plena em qualquer área do conhecimento, acrescida de um a seis cursos com, no mínimo,

de nenhum estudante, nem mesmo daqueles que são público alvo da Educação Especial.

A partir da análise dos depoimentos feitos, ficou evidenciado que o diagnóstico não é preciso e a identificação dos estudantes parte de percepções e comparações de seus professores em relação ao grupo de estudantes da classe. Embora realizem um diagnóstico, entendemos que faltam critérios claros para diagnosticar, sendo que os problemas encontrados vão desde os profissionais envolvidos até as estratégias e instrumentos utilizados.

Esse é um fator de atenção, pois argumentamos sobre a importância do diagnóstico por entendermos que a falta de conhecimento, ou um conhecimento insuficiente, sobre o que e como a criança pensa a escrita pode acarretar em intervenções equivocadas. Ao analisarem uma determinada situação de intervenção em que esses conhecimentos não foram considerados, Soares e Batista (2005, p.34), concluem que

a intervenção do professor ou da professora, que não considerou, no caso, o que a criança pensa sobre a escrita, foi pouco produtiva e, em vez de corrigir o erro, conduziu à elaboração de noções inadequadas sobre o funcionamento da linguagem escrita.

Assim, percebemos que as intervenções pedagógicas tendem a não serem efetivas e eficientes se partirem de um diagnóstico impreciso. Diante dos dados levantados, podemos constatar que, essa imprecisão do diagnóstico se fez evidenciada nas escolas pesquisadas.