ENSAIO I EICHMANN E O MAL BANAL NO PENSAMENTO ARENDTIANO:
2.2 OS DIÁLOGOS TEÓRICOS
3.2.1 Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado
Marilena Chauí (2005), ao analisar a obra A ideologia Alemã de Karl Marx que teve como ponto de partida a filosofia hegeliana, conceitua ideologia como o mascaramento do real, um falseamento da realidade, ou seja, a propagação, por meio de falsas afirmações, de ideias equivocadas (mas apresentadas como verdade) acerca das características de certos grupos com o objetivo de impor os ideais da classe dominante em detrimento destes, sem que eles percebam que estão sendo manipulados, para que assim a ideologia seja legitimada.
A autora afirma que a ideologia inverte os papeis entre ideias e realidade, formando um sistema de concepções que não pertencem ao mundo real. Dessa
forma, o discurso ideológico é, portanto, fruto da alienação que consiste em ocultar a realidade, a fim de gerar uma sociedade adestrada e de fácil manipulação, entende- se que:
A ideologia burguesa, através de seus intelectuais, irá produzir ideias que confirmem essa alienação, fazendo, por exemplo, com que os homens creiam que são desiguais por natureza e por talentos, ou que são desiguais por desejo próprio, isto é, os que honestamente trabalham enriquecem, e os preguiçosos empobrecem. Ou então, faz com que creiam que são desiguais por natureza, mas que a vida social, permitindo a todos o direito de trabalhar, lhes dá iguais chances de melhorar, ocultando assim, que os que trabalham não são senhores de seu trabalho e que, suas “chances de melhorar” não dependem deles, mas de quem possui os meios e as condições de trabalho. (CHAUI, 2005, p. 73).
O que torna a ideologia totalmente possível é o fato de ela ser alienadora, ou seja, as pessoas passam por um processo inconsciente de transferência da sua capacidade de julgamento para o outro que as manipula, o que as leva também a abrir mão da própria identidade, da autocrítica, do poder de questionamento e do domínio da própria consciência para tomarem uma verdade parcial ou totalmente fabricada como o que há de mais real.
O discurso ideológico escraviza e desumaniza, ao levar os indivíduos a se submeterem cegamente a valores e instituições que impõem seus próprios desejos e ambições, levando-os a crer que são valores partilhados por todos, mas que beneficiam no fundo exclusivamente aqueles que dominam os demais.
O Filósofo francês Louis Althusser (1978), ajuda a entender os Aparelhos de Estado (visto que, ele parte de uma base marxista para conceituar o Estado e essa relação dicotômica entre a burguesia e o proletariado). O Estado para o Marx (2005, p. 45), “é uma máquina de repressão, que permite às classes dominantes assegurar a sua dominação sobre a classe operária para a submeter ao processo de extorsão da mais-valia, (exploração capitalista)”, com isso, cabe ao Estado a função de reprimir tudo aquilo que não seja a favor do sistema de exploração de uma classe por outra. Althusser faz refletir sobre o real papel do Estado e de sua manutenção para a contemplação dos interesses de classe, explica que:
Designamos por aparelhos Ideológicos do Estado um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas. Propomos uma lista empírica destas realidades que, é claro, necessitará de ser examinada pormenorizadamente, posta à prova, rectificada e reelaborada. (ALTHUSSER, 1978, p. 43).
Althusser (1978), traz para o debate o conceito de Aparelhos do Estado que se dividem em duas categorias: Aparelhos Ideológicos de Repressão: governo, administração, exército, a política, os tribunais, as prisões, ou seja, funcionam através da violência ou repressão, porém não se trata necessariamente da violência física.
Já os Aparelhos Ideológicos do Estado (religioso, escolar, familiar, jurídico, político e cultural - midiático), buscam convencer a sociedade por meio de ideologias.
Althusser (1978) chama a atenção para a diferença existente entre os dois conceitos, um deles seria a existência de várias instâncias que movem os Aparelhos Ideológicos do Estado e apenas um agindo sobre o Aparelho Ideológico de Repressão, no caso o próprio Estado. Outro fator seria o pertencimento do domínio privado sobre os Aparelhos Ideológicos e o Aparelho de Repressão pertencente ao domínio público.
A crítica do autor baseia-se na percepção de que as pessoas são a todo tempo dependentes de ideologias dominantes, fazendo com que a sociedade siga determinados padrões sociais que não podem ser modificados ao longo da vida. A esta lógica se dá o nome de Ideologia Dominante (de domínio de uma classe sobre a outra, a classe dominante continuará explorando a classe dominada):
Está última nota permite-nos compreender que os Aparelhos Ideológicos de Estado podem ser não só alvo mas também o local da luta de classes e por vez de formas renhidas da luta de classes. A classe (ou a aliança de classes) no poder não domina tão facilmente os Aparelhos Ideológicos de Estado, o Aparelho (repressivo) de Estado, e isto não só porque as antigas classes dominantes podem durante muito tempo conservar neles posições fortes, mas também por que a resistência das classes exploradas pode encontrar meios e ocasiões de se exprimir neles, quer utilizando as contradições existentes (nos AIE), quer conquistando pela luta (nos AIE) posições de combate. (ALTHUSSER, 1978, p. 49-50).
A disseminação da ideologia dominante está enraizada no contexto social, pois há sempre a existência de dominação de uma classe sobre a outra. Os dois Aparelhos de Estado remetem-se a conceitos iguais, que é perpetuar o domínio do “dono do meio de produção” sobre aquele que serve, que utiliza desse meio de produção, o “trabalhador”. E se a ideologia dominante deixar de ser dominadora, pode haver uma Revolução, fazendo com que esses Aparelhos de Estado deixem de existir, por isso, esses aparelhos continuamente manipulam e exploram a classe dominada.
As ideias de Louis Althusser (1978), em sua obra se relacionam com a lógica
nazista uma vez que os aparelhos ideológicos de domínio do Estado se movimentam
por meio do comando de um líder que não ouve o seu povo e que não dá ênfase a ideias que fazem pensar, apenas se preocupa em dar destacar a vontade geral da nação, barrando assim a possibilidade de discordâncias e descontentamentos com as ações dos governantes que manobram as massas ideologicamente.
Para uma compreensão mais integral e em caráter explicativo é importante conceituar e distinguir propaganda e linguagem. Na propaganda, suas origens se encontram na religião católica, a propagação de ideias políticas ou doutrinas religiosas, elas servem como meio para anunciar (qualquer forma paga de apresentação não pessoal e promocional de ideias), a fim de chamar a atenção dos clientes que se deslumbram com o produto. Partem de uma proposta rápida e ágil, seja com um contato visual ou auditivo, assumem uma amplitude no sentido de todo anúncio ser uma propaganda, até mesmo as ideológicas.
Sant’Anna (2005, p. 46) define propaganda como “uma técnica de comunicação de massa paga com a finalidade de fornecer informações, desenvolver atitudes e provocar ações benéficas ao anunciante, geralmente para vender produtos ou serviços”.
Conduzindo o consumidor para o conhecimento, convicção e ação, informando e persuadindo os seu público, já que é hoje um dois maiores meios de informação usado com o intuito de manipulação.
Já a linguagem é de fundamental importância para o ser humano. Arendt (2018, p. 220) define linguagem como “um atributo essencialmente humano, fundamental para a convivência dos indivíduos e para a constituição de um espaço no qual falamos e somos ouvidos”. A autora enfatiza a relevância da palavra para a construção do mundo, o discurso eleva o homem entre o logos e o pensamento, a capacidade de pensar em si. Se for solitária, distante do falar, dos discursos, a linguagem é muito pobre, pois não possui contribuição alguma para a humanidade, é uma ação mesquinha, egoísta, ou seja, para Arendt, linguagem tem a ver com ação, o agir em conjunto para um bem maior, ou seja, na esfera pública.
A linguagem, assim como a ação, é um imperativo da pluralidade. “Deus criou o homem, mas os homens são um produto humano, terreno, um produto da natureza humana” (ARENDT, 2016, p. 144), é com a palavra que nos aproximamos uns dos outros, ela tem o poder de nos “libertar”, temos a liberdade da linguagem como
premissa para sairmos da passividade e empobrecimento de uma fala sedimentada e coletiva.
Dados os dois conceitos, percebe-se que o pensamento fica impossível sem a linguagem, eles são condições necessárias para o humano, fazem parte de um sistema de evolução humana e se desenvolvem a medida em que o indivíduo ganha espaço no mundo do conhecimento.