Como vimos, as novas tecnologias apresentam dupla consequência na produção de formas complexas em arquitetura: de um lado, permitem que volumes e superfícies até então não- representáveis e calculáveis pudessem ser interpretadas, regradas e tornadas exequíveis; de outro lado, o projeto digital torna possível a gênese de formas até então inimagináveis e inapre- ensíveis pela racionalidade dita cartesiana. Nesse sentido, ocorre uma expansão do universo formal e simbólico à disposição da criação arquitetônica.
Do ponto de vista ideológico, os arquitetos irão procurar justiicativas exteriores à sua disciplina para arbitrar as escolhas formais. Pesquisam na matemática, na física, na química e na biologia, teorias e imagens que possam ser incorporadas na programação da morfo- gênese arquitetônica. Ao mesmo tempo, solicitam da ilosoia o amparo da autoridade para
98 Idem, p.55.
suas explorações visuais. A incorporação das formulações teóricas e descobertas desses outros campos é quase sempre epidérmica, como aliás é da natureza das superfícies complexas mime- tizadas pelos arquitetos. Mas são elas o lastro, a justiicativa e o discurso para as arbitrarie- dades perpetradas por estes. Trata-se, em suma, de mero decalque estilizado de visualidades e linguagens das novas descobertas nas ciências, utilizando a capacidade de processamento de máquinas cada vez mais poderosas.
As teorias dos sistemas, dos jogos, do caos são livremente manipuladas em um discurso único pró-complexidade. A arquitetura moderna teria sido redutora e autoritária, enquanto a arquitetura atual está aberta à complexidade na forma natural ou abstrata, da nova matemá- tica. Daí deriva uma gramática da instabilidade e do amorfo, e o vocabulário da nova tectô- nica, como vimos no primeiro capítulo. Mas, ao contrário de cientistas e ilósofos, os arqui- tetos manipulam supericialmente esses conhecimentos para responder a uma encomenda restrita, em geral da construção de um edifício.
Quando os arquitetos entram em ação, manuseando suas maquetes e programas de computador na pesquisa de formas intricadas, ocorre um paradoxo e uma inversão entre complexidade e simpliicação. A pesquisa formal é auto-referente, dobra-se em si mesma de modo autista, complexiicando a geometria e simpliicando as relações sociais e urbanas do entorno, anulando o tempo histórico, apagando contradições e conlitos. Uma tal arquitetura se apresenta como se fora uma mônada isolada – um “signo puro, privado de referências para além das que remetem para o próprio objeto”.100 No entanto, como airma Tafuri, a arquite-
tura é um campo especíico de “estruturas complexas”, mas esta complexidade não é derivada de emaranhados confrontos formais, e sim da maneira como se inter-relacionam várias estru- turas que nela conluem: a vida social, a história, a cidade, a política, os sistemas simbólicos e técnicos etc.101
A arquitetura de formas complexas, derivada de um pensamento aparentemente induzido por analogias apenas formais, encobre uma inserção simpliicadora do objeto em seu contexto, em geral por refração. Donde seu comportamento de mônada auto-referente, enclave, fortaleza. Mas então, no que se baseia a escolha de formas complexas que pairam no
sivo. Daí o sentido de arbitrariedade evidente nessas obras. Por que essas formas e não outras? A forma responde unicamente aos seus códigos, à sua gênese como programação metabólica. Ela se pretende a-histórica e a-social, e só presta contas à equação que lhe deu origem, à mate- matizações de seu DNA, alinhadas pelo computador.
À procura de explicações para o atual lorescimento de tamanho formalismo no capi- talismo contemporâneo (de resto, uma tendência congênita e recorrente num sistema regido pela abstração, e consequente indiferença a todo e qualquer conteúdo), pode-se deparar com o mesmo fenômeno nas mais diversas áreas do conhecimento: em todas reina uma espécie de fervor místico pela modelagem computadorizada. A analogia parece então se impor com naturalidade: a nova “máquina de símbolos cibernética” vem a ser o próprio sistema capi- talista, airma André Gorz.103 Um sistema cuja trajetória também pode ser lida como uma
sucessão de “vitórias do simbólico e do formal sobre as dimensões não computáveis do mundo social da vida, como a experiência e a vivência”.104
Há, portanto, uma autonomização da forma que encontra correspondências na auto- nomização da economia e no fetichismo do capital inanceiro, como discutimos no primeiro capítulo. A realidade social é dominada por abstrações em todos os níveis. As abstrações do dinheiro vão contaminando diversas outras, entre elas a prática do projeto, como vimos. Segundo Gorz, “o abstrato rompeu as fronteiras do concreto e cobriu o mundo da vida com um tecido de equações algébricas que, graças à sua eicácia estruturante, aparece mais real do que o tecido das relações sociais vivas”.105
As formas que se autonomizam pouco tocam no “objetivo inal” ou no que seria o “sentido verdadeiro” dessa abstração: o crescimento econômico e a acumulação do capital. Mas, se existe uma razão na forma complexa é sua capacidade de gerar vantagens a todos os capitais envolvidos. É justamente sua inserção de mônada, em geral em áreas decadentes e contextos adversos, que permite que ela impulsione uma onda de ganhos distribuídos por diversos agentes, dos empreendedores e construtores ao mercado editorial e de turismo, dos quais falaremos no quarto capítulo.
As razões econômicas da forma complexa são, assim, da ordem da valorização do capital. Seja nas esculturas de Gehry ou na auto-geração de formas de Eisenman, ou qualquer outro arquiteto-estrela que promova formas estranhas e sedutoras, quanto mais diferentes, raras e surpreendentes, maior o potencial de promover ganhos na forma de lucro e renda. O “efeito de exclusividade” da forma funciona como uma inovação tecnológica e permite ganhos adicionais decorrentes da raridade e da renda de monopólio. Como já discutimos, a poten-
103 André Gorz, O imaterial: conhecimento, valor e capital (2003), p.83. 104 Idem, p.84
ciação da renda é um efeito de capital simbólico que aumenta o título de propriedade, o que permite, por sua vez, abocanhar uma parcela maior da mais-valia social. A forma difícil é igualmente vantajosa na produção do valor no canteiro, como veremos no próximo capítulo, pois produz ganhos adicionais na execução: quanto mais difícil para o trabalho, melhor para o capital, como demonstra a economia do luxo.
Nas formas disformes dos arquitetos da “vanguarda digital”, manipulações arbitrá- rias, aleatórias, randômicas e parcialmente inconscientes são promotoras de complexidades que tem um claro signiicado econômico. No limite, essas formas podem ser quaisquer, desde que sempre únicas, novas, atraentes, como iscas para a valorização do capital, prontas para qualquer – ou nenhum – uso.106
Por sua vez, a ideologia da complexidade, ou a complexidade fetichizada, não é neutra e ainda encerra armadilhas políticas. A liberdade formal no limite do gesto aleatório, ao promover uma espécie de “instabilidade semiótica” proposital – composições inapreensí- veis, que fogem das matrizes visuais asseguradoras –, converge para os fundamentos da nova economia e da desestabilização do próprio mundo do trabalho. A luidiicação das formas revela aqui uma real dimensão de classe, se for permitido falar do que ainal está em jogo: a alegação vanguardista corriqueira de que tal desmanche representa o im de referências estáveis e sufocantes não deixa de incluir, como se fosse apenas um detalhe, o desmanche das instituições próprias ao campo do trabalho.
Os vendedores de complexidade a apresentam como socialmente indeterminada, como derivada dos paradigmas das ciências ou da natureza, quando esconde uma forma de dominação de classe. Ela não é só abstração, pois abarca uma especiicidade sócio-histórica tangível. Segundo Mészáros, a ideologia da complexidade no capitalismo mascara o conisco do real poder político da sociedade, sua capacidade de auto-governo. O discurso da comple- xidade é assim uma forma de controle social. A complexidade crescente é apresentada como “a impossibilidade da atividade autônoma dos produtores associados”, ou seja, “a verdadeira questão é o controle e não a complexidade socialmente indeterminada”.107
lugar da complexidade do controle, Mészáros propõe o “controle da complexidade” o que signiica a “reobtenção do controle sobre o processo de trabalho como um todo”.109
A emergência da complexidade fetichizada como impedimento para o controle operário não é, assim, apenas um fenômeno ideológico, mas da luta de classes. Ela corres- ponde a uma reestruturação dos mecanismos de produção e distribuição do valor, como é o caso da empresa em rede pós-fordista. As formas complexas da arquitetura são um produto e têm paralelos na emergência de novas estruturas de acumulação, que se poderia também qualiicar de complexas, simultaneamente centralizadas e dispersas, mas que, na verdade, signiicaram de fato uma nova derrota para a classe trabalhadora, como discutiremos no próximo capítulo.
Um breve recuo explicativo. Toda a modiicação técnica importante nas forças produ- tivas, como explicou Marx, responde a uma pressão operária que lhe antecedeu.110 Durante os
trinta anos gloriosos (1945-75), os anos do welfare, os trabalhadores obtiveram várias vanta- gens – e os lucros do capital foram limitados ao aumento da mais-valia relativa. Isso se deve a diversos fatores, e entre eles há um que nos interessa de perto: a estruturação produtiva nos termos de grandes indústrias – e seu correlato, o trabalho coletivo. Este último sai de sua abstração enquanto criação do capital e toma corpo concreto na consciência operária. A sua maior manifestação foram as greves operárias na França, em 1968, as maiores de todos os tempos na Europa – quando os trabalhadores reclamavam outras relações de produção e autogestão.
Em 1973, por exemplo, uma das principais fábricas francesas de relógios, a Lip, em Besançon, foi tomada pelos trabalhadores e submetida a um regime libertário de autogestão. 111
Eles haviam participado do movimento de 1968 e, em 1973, quando foram anunciadas demis- sões e o possível fechamento da fábrica, os trabalhadores sequestraram alguns dos diretores para pedir esclarecimentos sobre a reestruturação em curso. Sabendo que a fábrica seria liqui- dada, assumiram o seu comando e o controle dos estoques, fortaleceram as comissões de fábrica, organizam comitês de ação, assembléias gerais, um jornal (o UnitéLip), abriram os portões da fábrica para visitação, tornaram o refeitório público, aceitaram o trabalho volun- tário de apoiadores e realizaram um mutirão de venda de relógios, uma vez que as lojas se recusavam a vendê-los. Quando a polícia retomou a fábrica, os trabalhadores, sem terem para onde ir, estenderam a autogestão para toda a cidade – “ocuparemos Besançon” –, fazendo atividades nas praças, teatros, cinemas, escolas e levando a produção para dentro das casas
109 Idem, ibidem.
110 Ver A miséria da ilosoia e os Grundrisse.
111 Ver o documentário LIP L’Imagination au pouvoir, de 2007, dirigido por C. Rouaud, com depoimentos de diversos operários que participaram desse acontecimento, e a entrevista com um de seus protagonistas, Charles Piaget. Bernard Ravenel, Leçons d’autogestion, 2008.
– “a fábrica é o coletivo de trabalhadores e não suas paredes”. Fato que culmina na enorme marcha dos 100 mil. Em 1975, contudo, com a eleição do conservador Giscard, o “exemplo LIP” é derrotado economicamente, com o corte das linhas contratadas de inanciamento e da compra de seus relógios de precisão por empresas estatais, como a Renault.
Contra a onda de greves e as práticas autogestionárias que surgiram na Europa (veja-se a revolução portuguesa, de 1974, por exemplo) e noutras partes do mundo naqueles anos, o capital reage de duas maneiras. Com a anulação das conquistas operárias e da proteção social, por meio da desmontagem das políticas de bem-estar social e da emergência do neolibera- lismo – que, no fundo, é menos uma doutrina econômica coerente do que uma tecnologia de poder destinada a desmontar a coesão da classe involuntariamente fortalecida durante o período fordista – e, de outro lado, com o ataque ao trabalhador coletivo, por meio de práticas de individualização salarial, rotação etc. Isso signiicava substituir a grande indústria pela produção em rede, facilitada pela informática e pelos bolsões de baixos salários disponíveis na periferia do capitalismo para serem explorados. A série de informações e prescrições que convergia na produção da grande indústria, agora é centralizada e depois se dispersa nas unidades de produção em rede.
Isso também ocorre na produção da arquitetura, como foi o caso do prédio do HSBC de Foster em Hong Kong, que recorreu a uma rede mundial de fornecedores e peças chegando de navios, ou nas placas de titânio do Guggenheim de Bilbao, cujo minério extraído na Austrália foi laminado em Pittsburgh, tratado na França e cortado na Itália, para então dirigir-se a Bilbao. Ou ainda, comprando serviços de desenhistas digitais a baixo custo no terceiro mundo ou fazendo circular o trabalhador migrante, por meio das cadeias de subcon- tratação em canteiro.
A hipercentralização prescritiva, que analisamos nesse capítulo, atinge o limite da forma manufatura, com a pulverização dos fornecedores inais, e mesmo dos montadores. Nenhum operário pode mais compreender em que complexidade está inserido. A possibilidade mesma do trabalhador coletivo – a grande arma operária do welfare – ica assim anulada. A complexiicação, em todos os níveis, é, por isso, uma arma do capital. A mudança não ocorre