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2 DIÁLOGOS COM O DISCURSO

2.2 Discurso e poder

2.2.1 Ideologia e representações identitárias

Ideologia, em ADC, sempre terá uma conotação negativa. Thompson (2002, p. 76) define que “estudar a ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação”. Para Vieira e Resende (2016, p. 27), “É um instrumento semiótico de lutas de poder, ou seja, uma das formas de se assegurar temporariamente a hegemonia pela disseminação de uma representação particular de mundo como se fosse a única possível e legítima”.

Dessa forma, o que mantém as relações de dominação é a bagagem que a ideologia traz. E é nesse ponto que a ADC ganha espaço, pois é de interesse dela desvelar as ideologias e as relações de dominação. Quando as relações assimétricas de poder são reveladas e desfeitas, é possível iniciar um processo de autonomia por parte dos que estavam em condição desigual. Por isso, Fairclough (1989, p. 85 apud VIEIRA; RESENDE, 2016, p. 27) afirma que

“a ideologia é mais efetiva quando sua ação é menos visível”, porque, ao tomar consciência de que tal aspecto social funciona ideologicamente amparando desigualdades de poder, essa relação perde o poder ideológico que fazia a engrenagem da desigualdade de poder funcionar.

Dessa forma, analisar os dados de pesquisa que trazem o silenciamento da violência contra a mulher, desvelando as ideologias que o sustentam, voltar às escolas parceiras, apresentar o resultado da pesquisa é um primeiro passo para a superação das relações assimétricas de poder.

A ideologia tem como foco sustentar desigualdades e a forma de desestabilizá-la é desvelar o que no senso comum oprime, segrega, separa, domina, mas que acaba passando como processo social natural. Para as análises dos dados, Thompson (2002) apresenta uma abordagem crítica de ideologia que é utilizada pela ADC como categorias de análises

discursivas. São os modos de operação da ideologia, como apresentam Vieira e Resende (2016, p. 29-30).

Quadro 09 – Modos gerais de operação da ideologia

MODOS GERAIS DE OPERAÇÃO DA raciocínio procura justificar um conjunto de relações)

UNIVERSALIZAÇÃO (interesses específicos são apresentados como interesses gerais) NARRATIVIZAÇÃO (exigências de legitimação inseridas em histórias do passado que legitimam o presente)

NATURALIZAÇÃO (criação social e histórica tratada como acontecimento natural)

Fonte: adaptado de Resende e Ramalho (2019, p. 52), com base em Thompson (2002a, p. 81).

O quadro dos modos gerais de operação da ideologia de Thompson (2002) consegue sintetizar, em sua categorização, os caminhos velados percorridos pela ideologia e a forma como ela exerce poder nas relações sociais assimétricas. Ele mostra as estratégias utilizadas para perpetuar e justificar relações de dominação. Essas não são as únicas formas pelas quais a ideologia opera, mas os cinco modos apresentados por Thompson (2002) são eficazes e significativos para os estudos sobre os modos de operação da ideologia.

Fairclough (2003a apud RESENDE; RAMALHO, 2019, p. 53) explica que:

ideologia são, em princípio, representações, mas podem ser legitimadas em maneiras de ação social e inculcadas nas identidades de agentes sociais. Tal compreensão da ideologia baseia-se na formulação de gêneros, discursos e estilos como as três principais maneiras através das quais o discurso figura em práticas sociais (Fairclough, 2003a), de acordo com a recente proposta de Fairclough (baseada no

funcionalismo de Halliday) de se abordar o discurso em termos de três principais tipos de significado: o significado representacional, ligado a discursos; o significado acional, ligado a gêneros; e o significado identificacional, ligado a estilos.

Como apresentado no capítulo 1, os três significados propostos por Fairclough (2003) são modos de relacionar o discurso com a prática social, pois são três características da ação constitutiva do discurso: a identitária, que diz respeito à posição do sujeito; a relacional, que analisa qual a relação entre os sujeitos; e a ideacional, que verifica como esse discurso se dá para o sujeito. Para a presente dissertação, analisar a representação identitária, ligada ao estilo

— às formas de ser, identidades — nos dados gerados, é fundamental para entender como as adolescentes se representam frente ao silenciamento da violência contra a mulher na escola. O processo de identificação não está separado de discursos/representação, tampouco de gêneros/ação, pois os três têm uma relação dialética: apesar de serem diferentes e pedirem análise distintas, são complementares.

Dos três significados, o representacional e o identificacional farão parte do processo de análise dos dados. Segundo Batista Jr., Sato e Melo (2018, p. 128), “A representação é um processo de construção social das práticas — incluindo a autoconstrução reflexiva, as representações adentram e modelam os processos e as práticas sociais”. Conforme apresentam Resende e Ramalho (2019, p. 60), “o significado identificacional, por sua vez, refere-se à construção e à negociação de identidades no discurso, relacionando-se à função identitária”.

Nos dados gerados, emergiu como as adolescentes se representam frente aos discursos de violência e como esses discursos moldam e constroem suas identidades. Para Fairclough (2003, p. 153):

A identificação é um processo complexo. Parte dessa complexidade provém do fato de a distinção precisar ser traçada entre os aspectos pessoais e sociais da identidade

— identidade social e personalidade. A identidade não pode ser reduzida à identidade social, que parte significa que a identificação não é um processo puramente textual, não somente uma questão de língua. A recente teoria pós-estruturalista e pós-moderna associou intimamente identidade com discurso, e identidade (ou “tema”) é frequentemente referido como sendo um efeito do discurso, construído no discurso.

Como aparece em Bauman (2005), eu sou aquilo que o outro não é. Se o outro é o que eu não sou, seria a mulher o que o homem não é ou o que o homem não seria? Qual identidade é permitida à mulher? Para Bauman (2005, p. 19), “As ‘identidades’ flutuam no ar, algumas de nossa própria escolha, mas outras infladas e lançadas pelas pessoas à nossa volta,

e é preciso estar em alerta constante para defender as primeiras em relação às últimas”. Moita Lopes (2002, p. 35) levanta a seguinte contribuição:

Conforme Johnston (1973, citado em Kitzinger 1989, p. 82) indica, “a identidade é o que você pode dizer que você é de acordo com o que dizem que você é”. Pode-se dizer também que identidades “não são propriedades dos indivíduos, mas sim construções sociais, suprimidas ou promovidas de acordo como os interesses políticos da ordem social dominante” (Kitzinger 1989, p. 94).

Sempre existe uma pressão para uma identidade pré-definida, e a liberdade de escolha não é livre liberdade, é uma liberdade vigiada. Quando alguém ostenta ou apresenta um pensamento ou uma postura que não é hegemônica, sobretudo se for mulher, sofre dupla sanção: por fugir ao esperado e por tentar demonstrar que seu ponto de vista é válido e consistente. É o que Thompson (2002, p. 81) chama de expurgo do outro ou “construção simbólica de um inimigo”, em que o excluído é marcado negativamente.

Cada um de nós, segundo Hall (2005), é levado, mesmo de forma inconsciente, a assumir determinadas posições de sujeito, seja motivado por questões culturais, seja por alguma instituição e/ou ideologia. É o que acontece com a mulher quando assume um papel ou lugar que lhe é e foi imposto, mesmo que para ela custe muito continuar se valendo dele, mesmo que seja danoso ou prejudicial psicológica e moralmente. Mas e se ela não estiver nesse lugar, em qual estará? Qual outro espaço lhe foi confiado ou pensado pela consciência coletiva? E de que modo constituirá sua identidade se a ela for dada a oportunidade de ocupar outros espaços, estaria apta psicologicamente para assumir tal posição? Não tem a mulher, assim como o homem, a necessidade de sujeição à identidade, como questiona Hall? Tantos questionamentos e dúvidas que circundam o ser mulher talvez expliquem o motivo pelo qual é difícil para ela ceder às próprias vontades, pois age em nome da manutenção da identidade.

Dessa forma, a identidade social construída para o masculino sofre menos ou quase nenhuma reprovação social. É possível ver a materialização dessa reflexão em trechos como o da colaboradora UYN.

Colaboradora UYN – 16 anos

[...] quando eu cheguei em casa, depois que eu fiquei só, eu fiquei pensando naquilo, assim me sentindo ninguém, tipo que eu fiquei pensando... ah... eu poderia ter nascido homem, né? Pra mim não precisar sofrer essas coisas.