3. RELAÇÕES CAMPO, CIDADE, RURAL E URBANO DIANTE DA
3.3. Elaboração de um rural idílico
3.3.1. Ideologias e representação do campo e do rural
A representação do campo e do rural como idílicos ganha força, pois encontra- se suportada por ideologias, igualmente, hegemônicas. Ademais, deve-se fazer uma importante consideração sobre as estratégias de dominação e subordinação presentes na sociedade contemporânea. Segundo Lefebvre (1983, p. 37) a sociedade procura se estabelecer sobre representações que tendem a substituir aquilo que deveriam representar. Portanto, trata-se de uma das representações possíveis sobre o campo de Brumadinho, sem, portanto, tornar-se a única, e muito menos, a que demonstre os aspectos fundamentais daquela realidade. Pode-se conjecturar, inclusive, que ela seja um instrumento importante de dominação e controle produzido e utilizado pelas classes mais abastadas da sociedade e por empreendedores (sejam eles imobiliários, do turismo, etc) a fim de garantirem a sua hegemonia sobre a produção do espaço. Concordo com Fairclough (2001, p.122) ao dizer que
178 Hegemonia é liderança tanto quanto dominação nos domínios econômico, político, cultural e ideológico de uma sociedade. Hegemonia é o poder sobre a sociedade como um todo de uma das classes economicamente definidas como fundamentais em aliança com outras forças sociais, mas nunca atingindo senão parcial e temporariamente, como um “equilíbrio estável”. Hegemonia é a construção de alianças e a integração muito mais do que simplesmente a dominação de classes subalternas, mediante concessões ou meios ideológicos para ganhar seu consentimento. Hegemonia é um foco de constante luta sobre pontos de maior instabilidade entre classes e blocos para construir, manter ou romper alianças e relações de dominação/subordinação, que assume formas econômicos, políticas e ideológicas. A luta hegemônica localiza-se em uma frente ampla, que inclui as instituições da sociedade civil (educação, sindicatos, família), com possível desigualdade entre diferentes níveis e domínios.
Aproxima-se, portanto, as representações das ideologias com vistas a interpretá-las como instrumentos destinados a ações de ocultação, submissão e qualificação de espaços, valores, ideias e seus sujeitos.
A representação social do rural como idílico, ou como rural-natureza, transformou ou transformará esse espaço – que em alguns casos ainda é representado socialmente como sinônimo de atraso e pobreza – em um espaço de oportunidades para o crescimento econômico dos seus habitantes? A representação social de um rural natureza contribuiu ou contribuirá para autonomizar os rurícolas que, novamente, em diversos lugares, ainda são subalternizados aos ditames de ordens distantes? Autonomiza-se o morador do campo ao incluí-lo no circuito de atividades capitalistas através do setor de serviços, principalmente a fim de atender os desejos de lazer e ócio (programados) de citadinos?
Tendo em conta que as ideologias apresentam uma matriz ou base material, esta permite ebulir ou estagnar a reprodução de circuitos de valorização dos capitais. Em competição, os capitais em suas variações disputam novos espaços de acumulação. Desse modo, a conformação dos mercados tem penetrado na produção, distribuição e consumo não só de mercadorias e espaços, mas também de processos concernentes à apropriação inclusive das relações sociais, dos corpos, das emoções, dos sentimentos, da vida (PEREIRA; DEL GAUDIO, 2014, p. 208-209).
Trata-se exatamente disso: da mercantilização de tudo, inclusive do espaço e da vida! A “naturalização do rural” é uma estratégia do capitalismo em tempos de sociedade urbana, a fim de absorver mais elementos para auferir novas rendas. O
179 desejo de morar na “cidade grande” – metrópole – que o camponês (de forma bastante generalista) alimentou e alimenta, convive, atualmente, com o desejo das classes citadinas (médias e abastadas) de se mudar, temporariamente ou em definitivo, para o campo – lugar no qual a “natureza ainda está de pé” e o “ar é mais fresco”! Mas, sempre, recorrendo a uma natureza asseptada/pasteurizada (PEREIRA; DEL GAUDIO, 2014, p. 214) aos desejos citadinos.
Conquanto, aceitar tal representação do campo e do rural (idílico ou rural- natural) é, portanto, uma operação ideológica. Baseando-se em Therborn (1991, p. 13, minha tradução) é possível assimilar que
A função da ideologia na vida humana consiste basicamente na constituição e modelagem do modo como os seres humanos vivem suas vidas como atores conscientes e reflexivos em um mundo estruturado e significativo. A ideologia funciona como um discurso dirigido ou - como diz Althusser - interpela os seres humanos como sujeitos27.
Essa representação social do rural como idílico vem se tornando hegemônica em decorrência de sua associação com ideologias, igualmente, hegemônicas. Compreende-se que a representação do rural idílico, como representação social hegemônica, advenha da sobredeterminação de classe de uma estrutura ideológica, já que “[...] todas as ideologias estão inscritas em um sistema global de poder social constituído por classes em conflito cuja força é variável” (Therborn 1991, p.33, minha tradução)28. O aspecto da hegemonia de uma classe no capitalismo é fundamental
para a compreensão desse modo de produção. De acordo com Lefebvre (1991) a hegemonia de classe significa mais do que simples capacidade de influenciar e não se estabelece apenas através do uso da violência e da repressão, pois se utiliza de diversos meios e instrumentos para que se efetive como tal. Geralmente, a mediação humana é o principal meio para o exercício hegemônico de classe, podendo se realizar através de políticos, líderes sob diversos aspectos (por exemplo, atletas, músicos, entre outros), intelectuais ou especialistas. Ademais, “A classe dominante busca
27 No original: “La función de la ideología em la vida humana consiste básicamente en la constitución y
modelación de la forma en que los seres humanos viven sus vidas como actores conscientes y reflexivos en un mundo estructurado y significativo. La ideología funciona como un discurso que se dirige o – como dice Althusser – interpela a los seres humanos en cuanto sujetos” ((THERBORN, 1991, p. 13)
28 No original: “[…] todas las ideologías están inscritas en un sistema global de poder social constituido
180 manter sua hegemonia por todos os meios disponíveis” (LEFEBVRE, 1991b p. 10, minha tradução) 29.
Para Henri Lefebvre (2006) a representação é sempre aquilo que se constitui entre o mundo sensível e a abstração (o conceito ou a ideia). Compreendendo, portanto, o nível intermediário do intelecto analítico. Nem sempre as representações são ilusões, erros, mitos ou símbolos. Não se distinguem em verdadeiras ou falsas, mas sim em estáveis ou móveis, alegorias ou estereótipos.
Duas importantes representações presentes no modo de produção capitalista são aquelas que se vinculam com a representação quantitativa do trabalho e a representação do não trabalho. Através das representações do espairecimento Lefebvre (2006, p. 45) afirma que o não trabalho tornou-se, também, um ramo a ser explorado, absorvido pelo modo de produção capitalista e com isso, se vê, o espairecimento preenchido de obrigações e acabam se parecendo com o cotidiano, porém deslocado, levemente, de lugar.
Para Henri Lefebvre (2006, p. 68) as representações são inevitáveis e, quiçá, necessárias. Não são essencialmente, sem dúvida, verdadeiras. Mas, também, não são falsas, “[...] ao mesmo tempo, são falsas ou verdadeiras: verdadeiras como respostas a problemas "reais" e falsas como dissimuladoras das reais finalidades” (LEFEBVRE, 2006, p. 68, minha tradução)30. Elas conferem status de verdade ou de
falsidade ao relacionar-se com as condições de existência de quem as produz (LEFEBVRE, 2006, p.57). As representações se originam a partir de uma conjuntura de forças em uma sociedade dividida em classes, dirigindo-se à toda sociedade. Enquanto os dominados são interpelados, no contexto dessa sociedade dividida em classes, e não rompem com tal dominação seguem aceitando as imagens impostas e, inclusive, as reproduzem introjetando-as, tornando, ainda mais difícil, a revolta31. E
29 No original: “The ruling class seeks to maintain its hegemony by all available means” (LEFEBVRE,
1991, p. 10)
30 No original: “[…] sino a la vez falsas o verdaderas: verdaderas como respuestas a problemas ‘reales’
y falsas como disimuladoras de las finalidades ‘reales’” (LEFEBVRE, 2006, p. 68)
31 Os dominados obedecem devido a algumas circunstâncias que se relacionam com a forma como
ocorrem as interpelações dos sujeitos gerando, pelo menos, seis efeitos: “O primeiro corresponde à adaptação, uma espécie de conformidade que permite que os dominadores sejam obedecidos e que tenha como causa uma determinada distribuição social do conhecimento e da ignorância. Um segundo é a inevitabilidade, uma obediência por ignorância relativa à possibilidade de alternativas à sociedade atual, sobre uma marginalização política de amplos setores da população em sociedades capitalistas avançadas. O terceiro efeito compreende o sentido da representação, um efeito de dominação ideológica na medida em que a ‘representatividade’ dos dominadores é confrontada por outras ideologias. A representatividade dos dominadores pode basear-se em uma sensação de semelhança ou pertencimento, em que dominadores e dominados são vistos como
181 os dominantes, objetivando perpetuarem a sua dominação, acentuam as características que lhes conferirão mais força procurando naturalizá-las e as convertendo em caracteres definitivos e estáveis. Por exemplo: a representação do campo e do rural como idílicos propõe-se, inclusive, como resolução do problema, real, relacionado ao descaso com os seus habitantes no que se refere a crescimento econômico, aumento da qualidade de vida, desobrigação da migração de jovens do campo para a cidade para garantirem a sua sobrevivência, etc. Mas, a representação idílica, a qual afirma contribuir para o desenvolvimento de atividades não agrícolas no campo, como o turismo rural, diversificando, de tal forma, a economia desses espaços tem como finalidade contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos habitantes rurais? E se sim, em que medida contribui e faz a transformação? Ou, a finalidade de tal representação, se identifica mais com os interesses do capital imobiliário e dos serviços urbanos para o consumo dos moradores da cidade, o que, faria, com que houvesse o assalariamento da população rural que se sujeitaria, a partir de então, à relação de exploração tipicamente capitalista? Não seria aqui que a alienação espreitaria os sujeitos?
Afirma-se, portanto, que as representações sempre tem um suporte social e um conteúdo prático não significando simples fatos, nem simples efeitos e muito menos são compreensíveis como resultantes de suas origens. São falaciosas? Certamente, ou seja, tem a intenção de enganar simulando a verdade. Porém, são mentirosas? Nem sempre e não em essência.
Na sociedade capitalista “O espaço integra as novas raridades. […] É preciso acrescentar que a raridade do espaço acompanha a raridade crescente dos recursos e bens anteriormente abundantes: a água, o ar e até a luz?” (LEFEBVRE, 2008, p. 153). A expansão do tecido urbano incluiu novos setores econômicos no hall do modo de produção capitalista.
pertencentes ao mesmo universo, independentemente de como este se defina. O quarto efeito, a deferência, seria um efeito de enunciações no qual os dominadores são concebidos como uma casta à parte, possuidora de superiores qualidades – qualificações necessárias para dominar que somente os dominadores possuem, a exemplo da descendência e/ou da educação. O quinto efeito do processo de interpelação/submissão e qualificação implica o medo promovido pela força e violência, que fazem funcionar a dominação pela força e pelo exercício do poder. Por fim, há a resignação associada ao medo, que deriva de considerações a respeito do que é possível em uma situação determinada, levando à submissão e à constelação de forças reinantes. O medo/resignação podem também corresponder a uma obediência decorrente da impossibilidade prática de uma alternativa clemente, melhor, mais do que a força repressiva dos poderes existentes” (PEREIRA; DEL GAUDIO, 2014, p.210,211, itálicos no original).
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Por meio dos lazeres foram conquistados o mar, as montanhas e até os desertos. A indústria dos lazeres se conjuga com a da construção para prolongar as cidades e a urbanização ao longo das costas e nas regiões montanhosas. […] Essa indústria dos lazeres se estende ao espaço desocupado pela agricultura e pela produção industrial clássicas (LEFEBVRE, 2008, p. 157, minha ênfase).
A constituição da sociedade urbana, portanto, como descrito nas metáforas de implosão-explosão da cidade e expansão do tecido urbano, não rompeu com a fragmentação do espaço, senão a aprofundou. Por isso a revolução urbana, como descrita por Henri Lefebvre (2004), é ainda pertinente e fundamental de ser realizada. O contexto atual da sociedade capitalista exige que os trabalhadores sigam padronizados, diariamente, para os seus locais de trabalho. Não se misturam, ao longo da semana – nos dias “úteis” - lazer e atividade produtiva destinada à sua sobrevivência. De tal forma, são reservados tempos e espaços para o trabalho e para o lazer. Torna-se natural, corriqueiro, comum e indiscutível que os trajetos diários e as funções de todos sejam cumpridas, esperando o momento ideal de se repor as energias a fim de continuarem no trabalho. A natureza dominada, controlada, produzida para fins de consumo, travestida por paisagens rurais, é alçada a função de recuperação de ânimos. Ganha função contemplativa e procura realizar o descolamento da realidade da cidade caótica e poluída do dia a dia estressante. De certo, o espaço se configura fragmentado e hierarquizado.
A representação da cidade, como elaborada aqui – caótica, poluída, estressante – colabora para a construção da representação do campo e do rural idílicos, exatamente por ressaltar a contraposição entre cidade e campo. Contraposição que se baseia na raridade dos elementos que são evocados para compor a representação do rural idílico. Uma representação de natureza ainda preservada e intocada é, como já deve estar claro, mobilizada para a elaboração da representação desse rural que se contrapõe à cidade do caos, do estresse e da poluição.
Mas, trata-se da pasteurização da “natureza natural” como ensinam Pereira; Del Gaudio (2014, p. 214):
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[…] uma natureza/paisagem profundamente alterada para manter o simulacro do 'natural'. As árvores selecionadas e esteticamente podadas, gramados aparados, domados, os insetos e quaisquer pragas ausentes: o paraíso natural ao gosto do cliente – que pouco tem de natural.
O domínio racional da sociedade ocidental sobre a natureza que produziu os espaços citadinos do caos, da degradação ambiental, da competição, da aflição, também produz, contudo, um campo na metrópole que evoca a natureza como o seu principal atributo.
Os indivíduos são interpelados de tal maneira que não cabe mais combater a natureza, dominá-la, controlá-la, pois isso já teria sido feito. Deve-se deixar incluir-se na paisagem rural-natural a fim de contemplá-la e recarregar as energias. Uma nostalgia da natureza passa a compor a representação social do campo e do rural. Cria-se um passado que não se viveu. Inventa-se uma tradição. Romantiza-se aquilo que não foi experimentado. Corrobora-se, portanto, novamente com Pereira; Del Gaudio (2014 p .214) quando afirmam que
[…] esse retorno à 'natureza' é aparente porque esse bucólico e natural é ele mesmo profundamente humanizado, uma segunda natureza adaptada aos padrões estéticos de um determinado tempo e grupo social específico.
A ideologia das novas raridades, como entendida por Pereira; Del Gaudio (2014, p. 216), é, fundamental para o entendimento da representação social do campo e do rural idílicos.
É justamente dessa crença na finitude cada vez mais irrefutável da natureza que eclodem problemáticas tais como “nosso futuro comum”, a “escassez absoluta de água”, o “esgotamento do petróleo” - a própria “natureza natural” do mundo, constituindo-a como “nova raridade”.
As geógrafas Pereira; Del Gaudio (2014) criticam o processo de mercantilização que há por detrás da concepção de novas raridades. Não significa, portanto, que os problemas ambientais inexistem, que não haja, diante do processo de constituição da sociedade urbana, o açambarcamento de todo o espaço, impactando-o. A crítica que elas tecem
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[…] é dirigida especificamente para a construção da ideia de finitude da natureza, da água, do ar, do petróleo e seja lá do que for para a conversão de bens comuns em negócios e mercadorias. Observamos a construção ideológica não apenas de uma ideia, mas da materialidade de um processo/ideia pela comercialização de áreas verdes, privatização das águas, políticas de “sequestro de carbono”, dentre outras proposições (PEREIRA; DEL GAUDIO, 2014, p. 230- 231).
Diante, portanto, da expansão do tecido urbano metropolitano, as áreas rurais, como representações sociais da simplicidade, do verdadeiro contato com a natureza, dos valores mais humanos, seriam, sob essa ideologia das novas raridades, cada vez mais escassas. Mas essas áreas escassas, que não foram açambarcadas pela urbanização, estão sendo pasteurizadas/asseptadas.
A assepsia da natureza torna-se, inclusive, valor agregado. Ao se idealizar a viagem ao hotel fazenda, deseja-se um atendimento “vip”, ausente de insetos e dos trabalhos de cozinhar e servir as refeições. Ninguém idealiza uma ida ao hotel fazenda para ordenhar vacas, matar galinhas ou plantar uma roça para a própria alimentação. (PEREIRA; DEL GAUDIO, 2014, p. 230).
Indubitavelmente, as representações sociais do campo e do rural idílicos estão sendo materializadas em um contexto no qual se tem a fuga para o rural-natural revestida como uma ação de quem procura escapar da cidade. E por isso, busca-se a sua oposição. O campo, representado e produzido como espaço privilegiado da natureza, oposto à cidade, é o lugar ideal para que as pessoas possam se reestabelecer para o retorno programado da rotina da cidade. Produz-se, destarte, um campo idílico.
3.3.2. Elementos para elaboração das representações sociais do campo e do rural